''''Únicas células pluripotentes são as embrionárias'''', diz cientista do MIT

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

Rudolf Jaenisch, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e do Instituto Whitehead para Pesquisas Biomédicas, nos Estados Unidos, não ficou nada contente de saber que seus estudos estavam sendo usados no Brasil para fazer lobby contra as pesquisas com células-tronco embrionárias (CTEs). No início de junho, ele e sua equipe publicaram um artigo na revista Nature no qual relatavam a transformação de células adultas em células pluripotentes, equivalentes às de embriões - ou seja, com a capacidade de formar qualquer tecido do organismo. Outro estudo com resultados muito semelhantes foi publicado no mesmo dia e na mesma revista por uma equipe japonesa, liderada por Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto. Desde então, ambos os trabalhos vêm sendo citados por cientistas brasileiros contrários às pesquisas com CTEs como "prova científica" de que não é necessário usar embriões humanos para pesquisa - já que células adultas poderiam ser tão versáteis quanto as embrionárias. Não é o que pensam Jaenisch e Yamanaka. "É um argumento falso. Nem sabemos se isso vai funcionar com seres humanos", disse Jaenisch ao Estado. "As únicas células verdadeiramente pluripotentes são as embrionárias." Ambos os estudos foram feitos com células de camundongo - que, segundo os cientistas, são muito diferentes das de seres humanos. Além disso, um dos genes usados para induzir a pluripotência é um conhecido oncogene (relacionado a tumores), o que seria inaceitável em qualquer aplicação terapêutica. Yamanaka também condenou o argumento de que seu trabalho dispensaria o uso de embriões. "De maneira alguma. Nós nem mesmo produzimos células humanas", disse. Segundo ele, os experimentos com células de pluripotência induzida estão, pelo menos, "três ou cinco anos atrás" das pesquisas com células-tronco embrionárias. A seguir, trechos da entrevista com Rudolf Jaenisch. Com o avanço das pesquisas com células-tronco, o senhor acha que um dia será possível dispensar o uso de embriões? Nós esperamos que sim, mas ainda estamos muito longe disso. O sucesso do nosso projeto é totalmente fundamentado no estudo de células embrionárias e de transferência nuclear (técnica usada para clonagem de células e embriões). Só que estamos ainda engatinhando no trabalho com células humanas, muito atrás do que é feito no camundongo. Há dificuldades enormes que precisam ser superadas, por isso precisamos das células embrionárias. Tanto que o principal esforço do meu laboratório ainda é o desenvolvimento de linhagens de células-tronco de embriões humanos, apesar de, obviamente, estarmos trabalhando também com a reprogramação de células adultas. O senhor não acredita que essa técnica poderá um dia ter aplicações terapêuticas? Eventualmente, é claro que será uma coisa útil, mas não estamos nesse ponto de maneira alguma. Nosso estudo foi apenas uma prova de conceito. Sabemos que é algo que pode funcionar, e isso já é um bom começo. A exemplo da clonagem, a reprogramação celular in vitro é uma ferramenta importante que poderá levar a muitas coisas, mas não necessariamente a uma aplicação terapêutica. Cientistas que são contra o uso de embriões argumentam que as células-tronco adultas podem ser tão versáteis quanto as embrionárias. Isso é absolutamente falso. Esse é um argumento que costuma ser baseado em estudos ruins ou interpretações errôneas. Não há nenhuma evidência de que células adultas possam ser pluripotentes. Células-tronco adultas são muito importantes e muito úteis para pesquisa, mas não são uma alternativa às embrionárias - são complementares. Apresentar essas células como substitutivas às embrionárias é um argumento quase desonesto, na minha opinião. É preciso ser honesto nesse tipo de discussão, mas muitas pessoas optam por não ser, por uma razão ou outra qualquer. Então as células-tronco adultas podem se diferenciar em alguns tecidos de outros folhetos embrionários, mas não todos? Não, nem isso. Se você analisar os dados cuidadosamente, verá que os estudos não são convincentes. Células-tronco hematopoéticas podem formar todas as células do sangue, sem dúvida, mas não há nenhuma evidência convincente de que possam fazer algo além disso. Elas não podem originar músculo ou neurônios. O mesmo vale para células-tronco neuronais: elas não podem formar células sanguíneas, como já foi dito. Esses estudos, em geral, não são rigorosos. E quanto a um estudo que identificou células multipotentes no líquido amniótico? Isso não soluciona nada. Essas células não estão disponíveis para pessoas adultas, que não têm saco amniótico. São células muito interessantes, mas não vejo aplicação terapêutica para elas. Quem é: Rudolf Jaenisch É pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e do Instituto Whitehead para Pesquisas Biomédicas, nos Estados Unidos