Uma longa noite

- O Estado de S.Paulo

Na madrugada do dia 15 de junho de 1977, foi aprovada a emenda do senador Nelson Carneiro, instituindo o divórcio no País, uma longa espera de 27 anos. A sessão foi interrompida várias vezes, devido às manifestações a favor e contra o divórcio, das cerca de 2 mil pessoas que estavam nas galerias. As discussões dos deputados presentes eram acaloradas, suscitando as mais estapafúrdias considerações. Enquanto Epitácio Cafeteira dizia que "a desquitada era uma mulher cantável", e Antonio Bresolin comparava o divórcio a "uma fábrica de menores abandonados", ao ocupar a tribuna, às 6 da tarde, Walber Guimaraes pedia uma trégua em respeito à hora da Ave- Maria. O tumulto era grande. O deputado Nina Ribeiro denunciou que alunas menores do Instituto Social São José, de Petrópolis, foram obrigadas a escrever cartas aos parlamentares protestando contra o divórcio. As que não o fizessem, seriam punidas. Joir Brasileiro condenava a interferência da Igreja na votação, com a ameaça de excomunhão dos divorcistas. Gióia Júnior lembrou que o Brasil era um dos últimos países a considerar o casamento indissolúvel, contrariando o que dizia a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A deputada carioca Lygia Lessa Bastos, hoje com 87 anos, foi presidente da comissão mista de divórcio e testemunhou o momento histórico. "Era a única mulher no Congresso. O Nelson Carneiro, autor da emenda, a certa altura achou que ela não seria aprovada e queria retirá-la para pensar em uma nova estratégia. Aquilo já se arrastava há anos, e eu não deixei arquivá-la. Como presidente da comissão, não podia votar, então, levei a plenário, pedi votação nominal e vencemos." Parceira da sufragista Bertha Lutz em emendas do Código Civil, Lygia sempre defendeu os direitos femininos. Foi autora de vários projetos, entre eles, o que permitiu a entrada das mulheres na Academia Brasileira de Letras