Uma Diane nobre e pop

- O Estado de S.Paulo

A estilista Diane Von Furstenberg, autora do wrap dress, conversou com o Feminino sobre moda, mercado, internet e Brasil

Diane. Com sucesso comercial notável, a "princesa da moda" já tem 33 lojas no mundo

 

Pisando o chão do Shopping Iguatemi nas pontas dos pés, protegidas apenas pela meia-calça fio 80, Diane Von Furstenberg se aproxima. Diz oi, dirige-se para uma mesa onde há sanduíches com patês, escolhe um dos sabores, come rapidamente e senta-se à mesa. Aí, calça os sapatos de salto médio e mostra que fala português. Na verdade, um portunhol cheio de personalidade, como ela, mulher de muita classe e educação, do tipo imperativa.

 

A relação da mentora dos famosos wrap dresses com o Brasil, vale dizer, é antiga. Diane diz que tem muitos amigos brasileiros, não os nomeia, e conta que seu primeiro carimbo tupiniquim no passaporte se deu em "mile novecentos e setienta e dos, para um carnaval no Rio." Desde então, perdeu as contas das visitas ao País.

 

"Profissionalmente" esta foi a terceira vez da designer por aqui. Desembarcou em São Paulo, na primeira semana de abril, para conferir a nova loja de sua marca (uma franquia no Iguatemi, inaugurada no dia 29 de março), para lançar sua terceira coleção pela H. Stern (as outras duas estadias de Diane no Brasil tiveram como motivos as linhas passadas) e participar da abertura da exposição em sua homenagem (com curadoria de Andrea Leon Talley, editor da Vogue America), que ocupa a sala especial no novo andar do shopping, até o dia 9.

 

Foi ali, no exato lugar onde estão os retratos dela assinados por Andy Warhol (tirados do escritório DVF em Nova York), que Diane recebeu o Feminino, vestindo túnica de seda, joias de autoria própria e cabelo armado, em um penteado que usa desde os anos 70, quando foi definido como "gipsy" (cigano) por alguns veículos de comunicação. Os mesmos que adoravam chamá-la de princesa da moda, uma vez que era casada com o príncipe Egon Von Furstenberg, de origem alemã, pai de seus dois filhos, Alexander e Tatiana.

 

Muito bem. Três pisos abaixo, no sexto andar do Iguatemi, a nova loja DVF funcionava a todo vapor, enquanto Diane falava. Segundo as vendedoras, os afamados wrap dresses (vestidos envelopes, na maioria das vezes em seda, que favorecem todo tipo de corpo feminino) são os mais procurados. Custam, em média, R$ 1.350. Em 1976, Diane vestiu um desses modelos (criados em 1973) para a foto de capa da revista americana Newsweek. Tinha vendido além de 5 milhões de exemplares da peça em dois anos, e marcou a época com popularidade comercial comparada a de Coco Chanel.

 

Hoje, mais de trinta anos depois, a criação veste mulheres tão distintas quanto Michelle Obama e Angelina Jolie, ou a senadora colombiana Ingrid Betancourt e Madonna. Contudo, não pense que Diane é só wrap dress. É designer polivalente, midiática, integrante da ONG Vital Voices (que luta pelos direitos das mulheres) e grande empresária. Também é presidente do conselho do CFDA, o Council of Fashion Designers of America (Conselho dos Estilistas de Moda da América) e verdadeira ativista fashion.

 

Desfilou uma coleção em homenagem ao Rio de Janeiro na semana de moda de Nova York, a "Her Name is Rio", que está à venda na loja brasileira.

 

O poder de suas peças é tamanho que Diane se afastou da moda nos anos 90 e retornou na mesma década (em 1997), já no auge. Em 2001, inaugurou sua primeira loja própria. Hoje, são 33. Para saber qual o segredo do sucesso da poderosa Diane Von Furstenberg, confira a entrevista a seguir.

 

Quem são as suas clientes brasileiras?

Não sei dizer quem elas são, mas a maioria compra na loja de Paris.

 

Por que decidiu abrir uma loja no Brasil?

Pela oportunidade. A mulher brasileira é muito, muito, muito perfeita para a DVF. Ela gosta de cor, tem um corpo muito bonito e alegria de viver. E isso é muito DVF.

 

Há planos de abrir novas lojas no País?

Sim. Começamos em São Paulo por motivos óbvios de mercado. Em uma semana de funcionamento, superamos nossa expectativa de vendas em cinco vezes. Ou seja, está sendo muito legal. Talvez a próxima DVF no Brasil esteja no Iguatemi de Brasília e, quem sabe, inauguraremos uma também no Rio de Janeiro.

 

Você tem uma longa carreira na moda. Focando na última década, quais foram as principais mudanças do setor?

Tudo mudou com a internet, que deu acesso a mais informações, incluindo as de moda. O lado bom disso é que você pode acompanhar um desfile em tempo real. Isso é vantajoso para o consumidor e, especialmente, para os novos estilistas – eles são muitos em Nova York – que podem apresentar de pronto os seus trabalhos para o mundo todo. Assim, tornam-se rapidamente conhecidos. Ao mesmo tempo, todo esse acesso tem um lado ruim, a divulgação em tempo real facilita e acelera o processo de cópia das roupas, cada vez mais comum.

 

No ano passado um integrante de sua equipe de estilo foi acusado de ter plagiado uma jaqueta da marca canadense Mercy. Como encarou isso, sendo você uma ativista antipirataria fashion? Já pensou em processar alguém pela reprodução de seus wrap dresses?

Processar? Talvez. Eu trabalho muito duro para convencer o congresso americano a aprovar uma lei antipirataria, feita especialmente para o mercado de moda. Portanto, quando soube que minha empresa estava envolvida num caso de cópia, fiquei muito brava e desapontada.Parecia uma piada. (O caso foi resolvido na Justiça, a DVF pagou uma multa de valor sigiloso à Mercy e cessou a comercialização da peça, que custava em torno de US$ 700 na DVF e de US$ 300 na loja canadense). Tenho esperança de que a lei anticópia seja aprovada este ano. Nós (do CFDA) estamos criando um manifesto para reforçar a necessidade desta lei. Todo estilista terá em seus escritórios e lojas um quadro dizendo que suas roupas são criações exclusivas e não podem ser reproduzidas, são obras próprias.

 

Como será a estratégia para combater os plágios na era da internet?

Leis intimidam. A lei vai acabar completamente com as cópias? Não. Mas a lei pode mudar o comportamento, você entende? E, então, podemos incentivar essa transformação de comportamento. Nesse sentido de mudanças de hábitos, é muito positivo. Por exemplo, quando ouvimos que lojas populares como H& M e Topshop (redes de fast fashion fortes no hemisfério norte, famosas por suas cópias baratas) anunciam que contrataram um designer. Isso mostra que valorizam a criação, entende? Então, é um combinado, de um lado você intimida, e do outro incentiva um novo comportamento.

 

Você é uma designer completa: é estilista, assina joias e até o décor do hotel Claridge’s de Londres. Criar é uma necessidade?

Não, não é uma necessidade. Cada caso é um caso, são oportunidades, sabe? Respeito muito o Claridge’s, é meu hotel preferido, eles me convidaram e foi uma honra trabalhar com e para eles. Eu tento ser muito inventiva sempre. Esta exposição, a "Journey of a Dress" (Jornada de um Vestido) é muita autêntica, ampla, e mostra bem esse meu lado, que é muito forte. Hoje tudo é marketing e, nesses tempos, a autenticidade é muito importante, por isso sempre tento me manter autêntica. Ao longo da minha carreira, nunca fiz nada por estratégia de marketing, isso sempre veio depois que o produto estava concebido. A criatividade, o produto, o significado devem guiar qualquer projeto e não o contrário, e comigo sempre funcionou assim.

 

Você segue uma linha criativa? Onde busca referências?

Sempre busco referências na mulher e na natureza.

 

Você tem um apartamento no topo de seu escritório em Nova York. É workaholic?

Não (risos). Trabalho muito, mas não é um vício. O apartamento serve como alternativa e só, minha casa mesmo é no campo (em Connecticut).

 

Qual dica daria a um novo estilista?

Siga o seu coração.