Trabalho solidário faz a diferença no Sonho Meu

Adriana Chiaradia - O Estado de S.Paulo

Casas geminadas, famílias carentes, força de vontade e latinhas de alumínio permitiram a instalação de rede elétrica em um conjunto habitacional onde vivem 130 famílias no município de Aparecida, no Vale do Paraíba (a 167 quilômetros de São Paulo). O bairro Sonho Meu III, surgiu da necessidade de moradia para 16 famílias que viviam em situação de risco, do lado da Rodovia Presidente Dutra. Diante daquela situação, a Arquidiocese de Aparecida cedeu um terreno para a construção de 130 casas pelo sistema de mutirão. A prefeitura entrou com o material de construção. As 114 moradias restantes foram sorteadas em praça pública, depois de um cadastro feito pelos interessados. Quatro anos depois de instaladas nas casas, no entanto, as famílias da comunidade do bairro Sonho Meu III continuavam no escuro. E a falta de rede elétrica e de iluminação pública trazia problemas de violência. Ao ver que moradores estavam sendo vítimas de constantes assaltos, o responsável pela cooperativa de reciclagem Anjos da Limpeza, Francisco Ricardo de Oliveira Santos, de 42 anos, resolveu tomar providências. "Fui às vítimas e comecei a recolher seus boletins de ocorrência registrados nas delegacias. Encaminhei os BOs para a empresa de energia responsável pela nossa região, mostrando a situação daquela gente. Iluminação era caso de urgência." Depois da medida, a instalação da rede elétrica nas ruas do bairro foi aprovada, mas os moradores do conjunto habitacional não tinham dinheiro para arcar com as despesas. Surgiu, então, a idéia de se fazer parcerias. A cooperativa procurou a ajuda do Fundo Social de Aparecida, que sugeriu que recolhessem materiais recicláveis em festas de bairros, bailes em clubes fechados, carnaval e eventos privados. O dinheiro arrecadado com a venda desses itens seria usado para comprar o material para a instalação de rede elétrica das casas. "Conseguimos algumas parcerias na cidade, como foi o caso do clube Umuarama. Todas as noites em que o clube organizava bailes, um grupo da cooperativa ficava recolhendo latinhas a noite toda. Pela manhã, era tudo pesado e vendido para ajudar nas obras", conta Lourdes Bernadete Oliveira da Silva, ex-coordenadora do Fundo Social e atual coordenadora do posto cultural da cidade. Cerca de 40 moradores passaram a fazer esse trabalho nas ruas de Aparecida. Em dois anos, arrecadaram R$ 10 mil. Com o dinheiro, compraram materiais elétricos, como bengalas, fios e chaves de energia que faltavam para a chegada de luz nas residências. A moradora Sivani Maria de Lima, de 35 anos, não consegue esquecer de toda a luta que a comunidade enfrentou para realizar o sonho da casa própria. "Bastante gente se envolveu. Todos queriam a eletricidade. Catávamos de tudo, latinhas, papelão, garrafa PET e ferro. Até hoje a gente vive disso, dá para matar a fome de muitas famílias." Muitos moradores diziam que só por um milagre conseguiriam a instalação de luz nas casas. Atualmente, a eletricidade que todos tanto queriam, a rede de esgoto instalada e o asfalto nas ruas dão esperança aos moradores, que agora têm um novo projeto para transformar em realidade: murar as casas e reformar o barracão da cooperativa de reciclagem. Eles dizem ter aprendido que milagres acontecem quando existe força de vontade. * Adriana Maria Gonçalves Chiaradia é aluna da Fatea (Faculdades Integradas Teresa D?Avila)