''Quero melhorar o mundo com os meus remédios''

- O Estado de S.Paulo

Químico austríaco criou o Tamiflu

Desde jovem, Norbert Bischofberger queria ser químico. Um de seus passatempos era explodir caixas de correio com seus "preparados" na pacata Mellau, no norte da Áustria. Hoje, aos 55 anos, é um dos químicos mais ricos do mundo. Não por acaso. Bischofberger inventou em 1994 um produto que hoje vale ouro - o antiviral Tamiflu. De origem modesta, Bischofberger usava o porão de casa para fazer experimentos. Estudou nas universidades de Innsbruck, Zurique e Harvard. No início do anos 90, liderou, na empresa americana Gilead Sciences, a equipe que criaria o antiviral anos depois. Hoje, vice-presidente da Gilead, seu salário anual é de cerca de US$ 750 mil, além de alguns milhões em benefícios pelas vendas do Tamiflu. A empresa, em um acordo com a suíça Roche, permitiu que a companhia na Basileia produza e distribua o antiviral mais procurado hoje por governos e cidadãos. Mas a Gilead mantém direitos de propriedade sobre o Tamiflu. A cada venda de um pacote, portanto, Bischofberger recebe uma parte dos lucros. Apesar da renda mensal milionária, pessoas próximas garantem que ele não trabalha com isso em mente, mas sim com o desenvolvimento da ciência. Dizem que fica até irritado quando se fala que ele é a pessoa que mais está ganhando com a gripe suína, que se espalha pelo planeta e já matou mais de 800 pessoas. Em declarações à imprensa europeia, o cientista afirma que quer fazer um mundo melhor com seus remédios e que não é uma pessoa que pensa apenas em dinheiro. "Ninguém nunca disse, ao estar morrendo, que esperava que tivesse ganhado mais dinheiro em sua vida", afirmou a um jornal alemão. "Quando uma pessoa chega ao final de sua vida, ela quer olhar para o que fez e ver que foi importante para a vida de outras pessoas." Para ele, ser cientista e ter criado o Tamiflu foi uma "bênção". Apesar de milionário, garante que mantém um ritmo de trabalho acelerado. "O trabalho dá sentido à vida. Eu sempre tenho de estar fazendo algo. Não posso simplesmente me deitar na praia e observar o céu. Sim, sou também bastante disciplinado. Acordo às 4h30 e pratico esporte. Às 7h, já estou no escritório", disse o cientista ao jornal austríaco Vorarlberg. Sobre a gripe, ele é claro: as mortes vão continuar. "Acho a ameaça de um novo agente viral ou bactéria maior que a de uma guerra nuclear." Há um mês, três casos em países diferentes demonstraram que o H1N1 desenvolveu resistência ao Tamiflu. Ele admite para a revista suíça Gesundheit-Sprechstunde que governos vivem um momento delicado. "Se as autoridades sanitárias alertam com muita agressividade e não acontece nada, então elas são alarmistas Se elas alertam tardiamente, são incriminados, pois dormiram numa situação perigosa", disse. Bischofberger ainda revelou que guardava algumas caixas de Tamiflu em sua geladeira, caso alguém de sua família necessite. A Organização Mundial da Saúde (OMS) insistiu anteontem que só um médico pode recomendar seu uso. Se o cientista garante que não se importa com o dinheiro, os acionistas de sua empresa não têm do que se queixar. Em seus resultados semestrais, apresentados na semana passada, a Roche confirmou que já vendeu quase US$ 1 bilhão em remédios contra o vírus H1N1 apenas no primeiro semestre do ano, 200% a mais que no ano passado. Para 2010, a produção será de 400 milhões de doses. A empresa onde o austríaco trabalha já foi alvo de polêmica. Desde os anos 80, um dos membros do conselho da Gilead foi Donald Rumsfeld. Em 1997, ele assumiu o cargo de presidente e só o deixou em 2001, para se transformar no secretário de Defesa do governo de George W. Bush e um dos artífices da guerra contra o Iraque. Durante a gripe aviária, o governo americano gastou US$ 58 milhões na compra do Tamiflu, principalmente para distribuir entre as tropas espalhadas pelo mundo. A declaração de renda de Rumsfeld no início do segundo mandato de Bush apontou que ele ainda mantinha ações da Gilead no valor de US$ 5 milhões. Durante a gripe aviária, o valor das ações da empresa passou de US$ 35 para US$ 47. Ao bolso de Rumsfeld, isso significou ganhos de US$ 2,5 milhões.Para os acionistas da empresa, o Tamiflu ainda promete render lucros. Mas Bischofberger já partiu para outro desafio: criar um remédio revolucionário contra inflamações do fígado. Outro projeto foi a compra de um hotel e sua transformação em um spa de luxo na Áustria, com investimentos de US$ 11 milhões, de seu próprio bolso. Mas para os jornais de sua cidade de origem, Bischofberger já é "um dos mais importantes cientistas dos nossos tempos".