Puxa-estica na terceira idade

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

Preocupadas com a vaidade e a boa forma, pessoas com mais de 60 anos tornam-se cada vez mais adeptas de cirurgias plásticas

Quando aquelas ruguinhas começam a incomodar ou a lei da gravidade flerta insistentemente com a geração que chegou ou até já passou dos 60, começam as visitas às clínicas de cirurgia plástica. Embora não haja dados específicos sobre as intervenções realizadas em pessoas nessa faixa etária (no Brasil são mais de 15 milhões de sessentões, o que corresponde a cerca de 8% da população), o último estudo feito pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) informa que o número de operações desse gênero, realizadas em 2008 por pessoas da terceira idade, alcançou a marca dos 629 mil, sendo que, na pesquisa anterior, de 2004, foram 613 mil.

 

Para o cirurgião plástico André Colaneri, o ideal é que a cirurgia rejuvenesça sem que a pessoa perca suas características. Ele diz que tem pavor de pacientes – não só os da chamada terceira idade – que querem esticar a pele ou chegam ao consultório pedindo para voltarem a aparentar 20 aninhos.

 

Nesses casos, André prefere nem operar. "Medicina não é matemática. O que interessa é ficar melhor e corrigir o problema", diz. Além de constatar o aumento do número de cirurgias nessa faixa etária, Colaneri também notou que a frequência de consultas de homens aumentou. "Hoje eles estão se cuidando. Até porque as mulheres se cuidam e eles não podem ficar para trás", observa. É o caso de um empresário de 63 anos, seu cliente, que não quis se identificar, e é adepto do botox. "Em julho fiz uma cirurgia de face", conta.

 

No auge dos seus 72 anos, a alemã Helga Hahn, três filhos e cinco netos, teve a oportunidade de acompanhar o avanço das técnicas das cirurgias, mas só agora tomou coragem e decidiu fazer uma rinoplastia (plástica no nariz). "Não vou fazer nada no corpo, pois está bom desde os 36 anos." Pudera, Helga faz ginástica quatro vezes por semana e se alimenta bem.

 

Para quem busca valorizar o visual, é importante escolher bem o médico – obter informações sobre sua formação, tirar as dúvidas durante a consulta, sentir confiança e empatia –, além de manter a saúde em dia. O paciente tem de estar pronto também psicologicamente. Não pode ter problemas de saúde nem emocionais.

 

Além disso, é preciso pensar na logística, ou seja, ter um auxílio pós-operatório para uma recuperação adequada. "O importante é que a população esteja bem informada, pois a cirurgia plástica vem sendo brutalmente invadida por profissionais inaptos, sem o devido reconhecimento como especialistas na área. Por meio de falsas promessas, transformam o que seria um sonho em terríveis pesadelos", alerta Sebastião Guerra, presidente da SBCP.

Uma pesquisa realizada pela entidade comprovou as posições que cada procedimento cirúrgico ocupa na atualidade: implantes de silicone (21%), lipoaspiração (20%), plástica de abdome (15%), redução de mamas (12%); cirurgias nas pálpebras (9%), face (7%), nariz (7%) e orelha (5%).

Segundo Guerra, na terceira idade, a cirurgia plástica entra como o principal recurso para retardar os efeitos do envelhecimento. "Nas décadas passadas, os profissionais não tinham disponíveis os recursos derivados de avanços estéticos. As técnicas foram inovadas e estão cada vez mais seguras."

Pele de sobra. Há cinco anos, a aposentada M.S.K. pesava 111 quilos. Passou por uma cirurgia de redução de estômago e eliminou 60 quilos, o que lhe trouxe muita alegria, mas também pele de sobra. "Despencou tudo", brinca. "Faço cirurgia por uma questão de necessidade", justifica.

 

Realizou uma abdominoplastia e, depois, procurou um famoso cirurgião para fazer uma plástica nos braços, mas não ficou contente com o resultado. Refez a cirurgia, que não lhe custou pouco, e ainda assim continuou insatisfeita. Para se ter uma ideia, há cinco anos ela só usa blusa de manga comprida. Sua terceira intervenção foi uma prótese nos glúteos, com outro médico. Maravilhada com o resultado, mudou o guarda-roupa. Antes usava peças larga, agora faz questão de vestir as mais justinhas. "Ficou muito bonitinho. Eu sou magra, não queria nada insinuante. E ficou uma graça", diz, entusiasmada.

O detalhe é que só seu filho sabe das cirurgias. Aos amigos, diz que vai viajar. A última "viagem" foi para tirar um excesso de pele dos olhos. Quando voltou, todos disseram que estava ótima, que a viagem lhe fizera bem. "O resultado ficou natural", diz. E não parou por aí. A próxima, marcada para daqui a três meses, será uma prótese nos seios. Enquanto isso, junta dinheiro para pagar à vista.

 

Aposentada pelo Ministério da Defesa, M. é separada e tem um filho de 25 anos. Formou-se em Serviço Social há cerca de 10 anos e trabalha em uma comunidade carente. Estuda inglês, gosta de assistir a palestras sobre psicologia e adora dançar. "Passo mais de cinco horas no salão." Não gosta de carne, evita frituras e segue uma dieta preparada por uma nutricionista. Tem acompanhamento psicológico e diz que esse é o segredo para manter corpo e mente em forma após a redução do estômago. "Faço isso tudo por mim, homem não liga." E fala com propriedade, pois, do auge de seus 64 bem vividos anos e os seus 50 quilinhos, namora um trintão.

 

Fique alerta

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica disponibiliza ao público seus canais de comunicação, para que os pacientes obtenham informações por meio do site www.cirurgiaplastica.org.br ou pelo telefone 11 3044-0000.

 

Anestesia: a melhor é aquela considerada a mais segura e que permite o maior grau de controle durante a cirurgia. O anestesista deve checar os exames pré-operatórios, explicar as etapas da anestesia e detalhar as reações típicas do despertar, os antecedentes clínicos e eventuais doenças e medicamentos em uso.

 

Escolha do médico: considere a formação do especialista, a quantidade e qualidade de informações recebidas durante a consulta, confiança e empatia.

 

Riscos: sangramento, infecção, lesão de estruturas profundas, abertura de feridas ou cicatrização prolongada, cicatrizes, alergias, assimetria, resultados insatisfatórios e necessidade de cirurgias adicionais.

 

Situações que contraindicam a cirurgia: quando o paciente acredita que ela trará resultados milagrosos; quando acha que tem um problema e ninguém concorda; depressão ou problemas psicológicos; quando tem intenção de resolver uma crise de relacionamento ou busca atender a pressão externa, ou quando há alto risco cirúrgico.