Programa ajuda o treino da ausculta do tórax

Emilio Sant?Anna - O Estado de S.Paulo

Começou como um projeto de iniciação científica, há dois anos. Agora, o trabalho de dois alunos do 5º ano do curso de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) está disponível, a partir de hoje, no site da universidade, no link Unifesp Virtual, para alunos de Medicina de qualquer faculdade. Com o auxílio de um estetoscópio digital, Gustavo Freschi, de 23 anos, e Cristiano Acierno Varella, de 25, gravaram os sons das principais doenças cardíacas e pulmonares - como as estenoses, doenças das válvulas cardíacas, sons característicos das bronquites e asmas - e construíram um software para o estudo e treino da ausculta torácica, procedimento básico da profissão médica. Desde 2005, os dois se dedicaram às pesquisas no Laboratório de Educação a Distância (LED), do Departamento de Informática em Saúde (DIS), para elaborar um programa que fosse o mais didático possível. O objetivo era suprir a dificuldade dos alunos de Medicina em treinar a ausculta cardíaca e pulmonar. "O problema é que é preciso ter sempre um paciente com a doença e disposto a colaborar", diz Freschi. A preocupação do futuro médico faz sentido. Nem sempre todos os alunos, divididos em grupos nos hospitais universitários, conseguem examinar detalhadamente um paciente. Varella, no entanto, explica que o objetivo do programa não é substituir a prática das aulas, mas complementar e dar condições de treinar mesmo longe do hospital. "O contato do aluno com o paciente é insubstituível", esclarece. Os primeiros resultados foram animadores. Em maio, o laboratório reuniu estudantes do terceiro ano de Medicina da Unifesp e avaliou a capacidade de identificação dos sons cardíacos e pulmonares dos alunos antes e depois de entrarem em contato com o software. Antes de estudarem com o programa, as médias de acerto das questões foram de, no máximo, 65% - e chegaram a 80% após o contato com o software. Como a maioria dos programas multimídia disponíveis não estão em português, ou não têm uma explicação didática dos assuntos, os alunos da Unifesp esperam que o software possa ser usado pelos futuros médicos com mais facilidade. "A idéia é deixar isso disponível para qualquer aluno, pois sentimos que faltava esse tipo de material de estudo", diz Freschi. RECURSOS Além dos sons, o software da Unifesp tem animações das regiões do tórax em que a ausculta deve ser feita e a descrição das principais doenças cardíacas e pulmonares, como as insuficiências e estenoses. "Nunca achamos outros programas que tivessem recursos como as animações", diz Varella. Para concretizar o projeto, os alunos tiveram de se dedicar a assuntos bem diferentes dos estudados em uma faculdade de Medicina. "Tínhamos um contato normal com a informática, como qualquer pessoa, e então começamos a estudar e aprender a mexer em programas como o Flash ( usado para criar animações em páginas da internet)", diz Varella. Para isso, os dois contaram com o suporte dos professores e coordenadores do Laboratório de Ensino a Distância (LED). Gisele Garbe, biomédica e coordenadora do laboratório, explica que o projeto surgiu a partir do interesse dos alunos em participar de um programa de iniciação científica. "Eles procuraram a equipe do laboratório interessados em participar de pesquisas nessa área e acabaram desenvolvendo o programa", diz. A intenção inicial da dupla era disponibilizar apenas os sons cardíacos, mas estimulados pela equipe do laboratório resolveram incluir os sons pulmonares, mais difíceis de serem captados. A experiência dos alunos com pesquisas não é exceção. Segundo o nefrologista Daniel Sigulem, chefe do departamento de Informática em Saúde (DIS) e um dos orientadores da dupla, cerca de 60% dos alunos da Unifesp estão hoje envolvidos em algum tipo de atividade científica. "Eles serão médicos com outra visão da profissão", diz. "Serão profissionais que carregam a vontade de investigar e pesquisar."