Por um modelo que estenda benefícios

Israel Klabin* - O Estado de S.Paulo

Nos últimos 50 anos, a consolidação da informatização e da globalização e o surgimento de novas tecnologias aceleraram a história, provocando um aumento das dinâmicas sociais, econômicas e ambientais. Essa gigantesca aceleração na história, comparada às mudanças relativamente lentas que ocorreram nos últimos 2.000 anos, nos obriga a enfrentar um questionamento e um desafio com relação à sustentabilidade de nosso modo de vida. Dois parâmetros são relevantes e necessitam de soluções urgentes: a realidade do aquecimento climático da Terra, tendo em vista os efeitos globais, e o uso extensivo de recursos naturais finitos do planeta. O pensamento prospectivo nos obriga a replanejar a matriz energética, o conceito e os mecanismos hoje usados para o desenvolvimento e o próprio modelo de governança democrática, que nos parece incapacitado para implementar em tempo útil aquilo que a humanidade precisa com rapidez. A idéia de mudar radicalmente o nosso modo de viver não é fácil de ser implementada. No percurso da história, somente as grandes catástrofes e as grandes guerras reinventaram as relações socioeconômicas das nações e dos homens. No entanto, já podemos ver hoje alguns vetores dessa mudança, como os altos preços do petróleo e de seus derivados. As expectativas de crescimento apontam que a economia mundial deve dobrar e a população, saltar dos atuais 6,5 bilhões de pessoas para mais de 8,2 bilhões em 2030. A demanda de energia primária deve ser 62% maior no mesmo ano, em comparação com a de 2005. Imaginemos os efeitos disso. Se continuarmos a viver dentro deste modelo insustentável de consumo dos recursos naturais, teremos crises urbanas oriundas das migrações internas e, como conseqüência, a formação de aglomerados residenciais de baixa renda e bolsões de pobreza. A crescente demanda por energia e serviços vai acabar tornando as cidades inviáveis. Os modelos atuais de produção agrícola e o uso extensivo de produtos químicos muito provavelmente provocarão uma aceleração na perda de espécies fundamentais para o equilíbrio da vida. A questão energética é, portanto, prioritária na agenda da sustentabilidade. Em 2006, os 12 países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) mais a Rússia representavam 82% das reservas de petróleo conhecidas, e consumiam apenas 12% do petróleo produzido no planeta. Por outro lado, os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE ) - juntamente com a China, Índia e Brasil - tinham 8% das reservas, consumindo 71% de toda produção. Em 2007, os consumidores pagaram cerca de US$ 5 bilhões a mais por dia pelo petróleo cru do que nos cinco anos anteriores. Somente em 2007, US$ 5 trilhões foram transferidos dos países consumidores para os países produtores de petróleo. Neste contexto, a segurança energética deverá ser redefinida, pois a situação atual é insustentável. Apresentam-se duas soluções possíveis, uma por meio de guerras, como vimos no passado, e outra por meio da urgente modificação da matriz energética a ser substituída por energias renováveis limpas. A humanidade está caminhando entre a necessidade de aumentar a disponibilidade de energia e a degradação de vários aspectos de sustentabilidade da vida. É necessário reduzir rapidamente o uso de fontes fósseis de energia. A prioridade imediata para minimizar os efeitos do aquecimento global está na eficiência energética. Isso também significa uma mudança no modo de vida, pois teremos de nos disciplinar para racionalizar e dar maior eficiência ao uso da energia disponível. Este seria o preço mínimo que a humanidade deveria pagar imediatamente, sobretudo os Estados Unidos, a China e os demais países desenvolvidos. Dentro do modelo de desenvolvimento econômico estabelecido, baseado no aumento permanente de consumo, devemos esbarrar no esgotamento dos recursos naturais. A criação de um novo modelo implica fundamentalmente no inventário dos recursos naturais disponíveis, na racionalização do seu uso, prevendo ainda processos de reciclagem e mudança nos padrões de bens de uso coletivo como transporte urbano, iluminação, aquecimento e uso industrial da energia. Por fim, é preciso modificar os modelos de governança democrática. Todos os que já foram estabelecidos e testados provaram que não funcionam adequadamente, pois colidem com os limites necessários da sustentabilidade ambiental, bem como na expectativa de participação nos bens de consumo do planeta pelas populações dos países emergentes. Sem que cada um de nós adote um comportamento ambientalmente responsável, economicamente justo e socialmente ético, ficaremos ainda mais distantes de alcançar o tão almejado desenvolvimento sustentável. A consciência da insustentabilidade do modelo econômico, socioambiental e de governança atual nos obriga a criar novos paradigmas. E o processo de evolução passa necessariamente pelas responsabilidades globais de governos e empresas, mas também, e talvez principalmente, por uma reeducação na forma de viver. É urgente a criação de uma nova ética de inclusão social, que preveja segurança energética, acesso aos alimentos, à água, à habitação e, sobretudo, à educação. Um novo modelo de desenvolvimento que estenda seus benefícios às gerações futuras. * É presidente do Conselho Curador da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável