Pílula cinquentona

- O Estado de S.Paulo

Mulheres de diferentes gerações comentam o método contraceptivo que restituiu à mulher a autonomia sobre seu corpo e uma maior participação no mercado de trabalho

Quando a primeira geração da pílula anticoncepcional surgiu, em 1960, nos Estados Unidos, o clima entre os americanos era de euforia com a retomada do crescimento econômico. De 1960 a 1965, a década ainda tinha um certo sabor de inocência. De 1966 a 1968, o estado de espírito que anteciparia os libertários anos 1970 foi marcado pelo movimento hippie, uso de drogas, revolução sexual e contestação de valores sociais. De carona com os Beatles, é possível sentir o divisor de águas. O começo da década soava como a ingênua Love Me Do e o final, mais ácido, como a psicodélica Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Tanto lá como cá, uma geração de jovens surgia disposta a contestar os valores de uma sociedade moralista e conservadora.

 

Em meio às mudanças comportamentais, vinha a primeira geração da pílula anticoncepcional. Daí em diante, a mulher se tornaria sujeito maior da história. Segundo a escritora e feminista Rose Marie Muraro, de 80 anos, a pílula desencadeou uma verdadeira revolução. "Pela primeira vez, em dois mil anos, a mulher pôde desvincular a maternidade do sexo. No começo dos anos 70, houve uma grande corneação por parte das mulheres, e os homens ficaram deprimidos", provoca Rose. Antes disso, afirma, falar em orgasmo da mulher era pecado. O sistema patriarcal "matava" as mulheres que tinham orgasmo por considerá-lo perigosíssimo. "A pílula foi o grande avanço, que permitiu a autonomia, o estudo e o controle do corpo." Além de desfrutar do prazer sem culpa, analisa, mulheres de classes menos favorecidas tiveram a opção de ter menos filhos. "Vimos a mudança da relação de gêneros, além de conquistas como maior participação no mercado de trabalho e no espaço público."

 

 

LINHA DO TEMPO

 

_Em 1969, apenas 8% das mulheres em idade reprodutiva usavam a pílula anticoncepcional no Brasil. O avanço da medicina esbarrava no tabu em torno do assunto, associado à liberdade sexual feminina, numa sociedade conservadora. Na época, o método era receitado apenas para as mulheres casadas e com autorização dos maridos.

 

_Em 1970, em plena ditadura militar, o Ministério da Saúde chegou ao cúmulo de condicionar a compra do medicamento à retenção da receita pelo farmacêutico, mapeando, assim, as consumidoras. Estima-se que, naqueles anos, mais de 3 milhões já a tomavam com regularidade. Apenas em 1978, a pílula passou a ser distribuída gratuitamente pelo governo.

 

_Estudo realizado pelo Instituto Guttmacher, organização de saúde sexual dos Estados Unidos, revela que 80 milhões de mulheres utilizam a pílula anticoncepcional no mundo. Aponta ainda que, nas Américas Central e do Sul, cerca de 16 milhões de mulheres fazem uso da pílula, sendo que as brasileiras usam os contraceptivos orais durante um período maior - entre dois e cinco anos. O levantamento mostra também que a taxa de contracepção nas Américas Central e do Sul aumentou consideravelmente, de 15% em 1969, para mais de 70% em 2000.

 

_De acordo com os indicadores da Fundação Carlos Chagas, a participação da mulher no mercado de trabalho (o que inclui aquelas em busca de emprego) em 1976 era de 28,8%. Já em 2007, este porcentual foi de 43,6%. Em 2009, segundo o IBGE, o índice do trabalho feminino saltou para 45,1%

 

 

Aborto aos 17

 

Aos 48 anos, Luiza Brunet, primeira modelo a sair na capa do jornal Le Figaro, arrasa nas passarelas do samba e da moda. Filha de lavrador cearense e de uma dona de casa carioca, e segunda de uma prole de seis, aos 12 anos, parou de estudar para ajudar a família. Trabalhou como babá e em outros serviços domésticos até conhecer seu primeiro marido. "Casei-me aos 16 anos", conta a modelo, que não podia falar de sexo em casa, pois o assunto era tabu. "A gente aprendia na rua, com as amigas."

 

Por um descuido, engravidou aos 17 e teve de escolher entre a carreira ou a gravidez. Recorreu, então, ao aborto. "Doeu muito, porque venho de uma família grande e fui moldada para casar e ter filhos. Nessa idade, não se tem uma consciência das consequências do sexo sem proteção. E acho que é assim com os jovens até hoje." A decisão foi difícil e deixou marcas. "Eu estava começando a receber convites de trabalhos como modelo e tenho certeza de que, se tivesse tido um filho naquela idade, não seguiria a carreira de modelo."

 

Após essa experiência, a pílula passou a ter um papel fundamental para Luiza Brunet. Assim, pôde planejar sua família no segundo casamento. Com a filha Yasmin, também modelo, 21 anos, a história é bem diferente. "Desde pequena ela sempre foi muito curiosa. Perguntava sobre menstruação, sexo, gravidez. A conversa com os pais sempre foi aberta. Centrada na carreira, mora em Nova York com o namorado e pensa em ter filhos mais tarde."

 

 

Educação liberal

 

 

Nos anos 1970, sexo, drogas e rock’n roll corriam soltos, mas, no auge de seus 20 e poucos anos, Elke Maravilha, hoje com 65, transgredia as regras da moral e bons costumes pelo viés do visual. Mas daí a ser uma devoradora de homens havia uma distância. "Era natural que as pessoas associassem a minha imagem ‘diferente’ à sexualidade. Mas como não fui proibida pela minha família, não era como as que davam feito chuchu na cerca."

 

Filha de pai russo, mãe alemã e avó mongol, conta que, quando fez 10 anos, o pai lhe disse: "Agora que você vai arrumar namorado, não venha com um só, mas com três."  Diz que ele não queria que ela tivesse um relacionamento sério muito cedo. Falar de sexo não era um tabu em sua casa. Tem uma bronca pessoal com relação à pílula. "Nas duas vezes em que engravidei, eu estava tomando pílula. Fiz um aborto aos 17 e, depois, outro aos 21 anos. Então, optei pelo DIU."

 

Casou-se oito vezes. O casamento mais longo durou oito anos e meio e, o mais breve, dois meses. Vê no controle da natalidade um dos ganhos da pílula. "As mulheres estão tendo filho sem nenhuma responsabilidade, e filho é coisa séria. Tenho plena consciência de que não saberia educar um filho. A não ser que morasse numa comunidade de baixa renda, como numa tribo."

 

 

Livre aos 35 anos

 

Rose Marie Muraro, de 80 anos, patrona do movimento feminista no Brasil e que teve dois livros sobre o tema classificados como "pornográficos" durante o regime militar, revela que, por ser católica praticante, assim como o ex-marido, nunca tomou a pílula. "Não evitava a gravidez", conta Rose, mãe de cinco filhos. "Ao contrário dos dias atuais, quando as pessoas se casam cada vez mais tarde, as mulheres da minha geração tinham de se casar com 21, 22 anos no máximo. Eram casamentos por conveniência. Depois, separadas, é que partiam em busca do grande amor."

 

Com ela não foi diferente. "Separei-me aos 35 anos e aí minha vida virou uma festa." De formação rígida, casou-se sem saber o que era sexo e prazer, assunto tabu nas famílias. A pílula foi o start para muitas outras libertações, além da autonomia do próprio corpo. Hoje, conclui, a sexualidade é pensada como uma dimensão fundamental do ser humano, que implica gênero, erotismo, afeto, identidade sexual, amor e reprodução.

 

 

Balzaquiana

 

As mulheres que nasceram no fim dos anos 70, hoje na faixa dos 30, têm muito das personagens de Confissões das Mulheres de 30, sucesso no teatro. No pacote, casamento, primeiro namorado após a separação, filhos, ex-marido, grandes sonhos, sexo, trabalho, preocupação com a maturidade, descontrole emocional. Juliana Araripe, 32 anos, uma das atrizes da peça, fala um pouco sobre sua adolescência no Rio de Janeiro: "Ia para a praia depois da escola. Não pertenci a nenhuma tribo, mas frequentava todas elas. A minha geração, lá no Rio, era de pessoas bem livres."

 

Conta que, quando entrou na adolescência, a mãe, prática, disse para perguntar tudo para o ginecologista. "E eu perguntei!" Na primeira relação, não tomou nenhuma precaução. "Era típico da minha geração", opina. Comparando a sexualidade antes e depois da pílula, diz que o prazer mudou, porque ele pode ser livre. "Não existe prazer sem liberdade e sem culpa. A relação sexual não é um ato de procriação. Pode até ser, mas só por umas duas ou, no máximo, três vezes hoje em dia. Ou seja, o sexo pode estar num lugar muito mais confortável para a mulher, um lugar de troca e de descobertas muito boas de se viver."