Passado vermelho

- O Estado de S.Paulo

Ex-endividadas contam em livros e blogs como conseguiram deixar a conta bancária azul

Guinada. A médica Flaviana Amarante Ramos conseguiu colocar a vida em ordem, virou poupadora e lançou o blog Cansei de Ser Pobre. Foto: Alex Silva/AE

 

 

 

O endividamento feminino é preocupante. Uma pesquisa exclusiva realizada no mês passado - pela Sophia Mind, empresa do grupo de comunicação Bolsa de Mulher - com 913 brasileiras de 18 a 60 anos, que têm renda própria, revela que mais da metade está endividada (59%). Ainda, 92% delas já conseguiram se livrar de alguma dívida, mas 45% voltaram a dever na praça.

 

"A grande oferta de crédito no mercado, a educação financeira baixa e as dívidas caríssimas são os principais motivos do endividamento, independentemente do sexo", avalia o economista, consultor financeiro e autor de vários livros, Marcos Silvestre. "No Brasil, as mulheres são mais propensas a se tornarem devedoras porque compram várias vezes, parcelam praticamente tudo, até mesmo itens de valores baixos, e não controlam os gastos."

 

Como ressalta Silvestre, elas nem sequer se preparam para os gastos previsíveis (como IPVA, seguro do carro, IPTU). Por dificuldade de aceitarem as próprias derrapadas, elas facilmente atribuem o desfalque financeiro às situações emergenciais. "Nos meus 15 anos de planejamento financeiro, posso afirmar que são raras as pessoas que fazem dívida por causa de alguma emergência", avisa o especialista. "Não assumir as responsabilidades só piora o problema."

 

Mudança. Quando se vive um turbilhão financeiro - com dívidas galopantes impulsionadas por juros altos, desorganização nas contas pessoais e consumo desenfreado -, parece que só um milagre é capaz de resolver a situação. Mas a única saída mesmo é arregaçar as mangas. Não faltam testemunhos de quem já perdeu o sono por causa das dívidas, mas, hoje, comemora a virada.

 

A mudança pode durar dois anos ou mais. Algumas mulheres que já passaram por isso acumularam tanto conhecimento que se tornaram experts no assunto. Uma delas é a médica Flaviana Amarante Ramos, de 33 anos, que, depois que conseguiu colocar a vida em ordem, virou poupadora e lançou o blog Cansei de Ser Pobre.

 

"No começo, pensava em falar sobre investimentos, mas notei que o meu passado de endividada repercutia mais." Passou, então, a focar na sua história, e descobriu que há muita gente atolada até o pescoço. O sufoco financeiro da médica começou na faculdade, quando tinha uma ajuda de custo para uma bolsa de iniciação científica. Curiosamente, piorou quando arrumou emprego e um bom salário.

 

Flaviana extrapolava nos gastos. De tanto pedir empréstimos para saldar dívidas (o que aumentava ainda mais a bola de neve), seu crédito na praça se esgotou. A vontade de mudar aconteceu quando sofreu um acidente de carro. O veículo, financiado, estava com prestações atrasadas, e a médica comemorou a possibilidade de saldar parte da dívida com o que receberia do seguro.

 

Foi a partir daí que aproveitou para colocar em prática, a teoria dos livros de finanças pessoais. Levou três anos para zerar todas as dívidas. Desde o ano passado, investe em ações e aproveita as baixas na Bolsa de Valores para aumentar suas aplicações. "Agora preciso aprender a não me culpar quando compro algo para mim."

 

 

Até ela. Mara Luquet já deu suas derrapadas nos gastos domésticos. Foto: Alex Silva/AE

 

 

 

Experiência própria. Não dá para acreditar que o livro O que Há na Bolsa da Mulher Inteligente? - Guia Prático de Finanças Pessoais (Editora Matrix) é fruto da transformação da autora Cristiane Lazotti, de 35 anos. Ex-consumista, bastava ela colocar o pé no shopping para fazer um estrago no cartão de crédito e no cheque especial. Para piorar, ofereceu seu nome para o então companheiro comprar uma moto. O veículo foi roubado, o affair acabou e ela teve de arcar com as dívidas. "Perdi muito dinheiro, o sono, o humor, fiquei com o nome sujo e resolvi que não queria mais essa vida para mim."

 

Leu diversos livros de autoajuda na área de finanças. Tornou-se assídua frequentadora da ExpoMoney, feira de educação financeira. Fez cursos na Bovespa, em corretoras de valores e até na Fundação Getúlio Vargas. Virou fera no assunto. Hoje, prepara-se para escrever seu próximo livro, contando como alcançou a tão sonhada independência financeira. "É muito bom dividir a experiência e apontar caminhos", ressalta Cristiane, formada em Administração de Empresas e sócia de uma agência de marketing voltada para o ramo de pets.

 

Até uma das referências em finanças pessoais, a jornalista Mara Luquet, já escorregou no orçamento doméstico. Mas deu a volta por cima e contou com muito humor sua experiência no livro Tristezas não Pagam Dívidas - Como Domar seus Credores e Colocar as Contas em Dia (Editoras Saraiva e Letras&Lucros). "Reestruturação de dívida embute um aprendizado enorme, é um ganho muito além do financeiro. Muita reflexão, reconstrução de relacionamentos, reafirmação de valores, enfim, é um processo muito rico." Ela garante que nunca mais caiu nas armadilhas do passado, o que não significa que tenha se transformado em um "exemplo de rigor fiscal".

 

Como seu problema é falta de organização com os gastos, e não exatamente consumismo, Mara toma certos cuidados. Desistiu, por exemplo, de carregar talão de cheques, porque se esquece de anotar os valores nos canhotos. E garante que, se ela conseguiu colocar ordem na bagunça, qualquer um pode fazer isso. Hoje, é sócia da editora Letras & Lucros, que lança títulos de finanças pessoais. E foi trocando e-mails com suas ouvintes da rádio CBN, onde é colunista, que acabou criando o blog Mulheres Endividadas S.A., que traz orientações para quem anda enforcado nas contas.

 

Em vez de livro e blog, a psicóloga Paula Schurt, de 35 anos, oferece workshops, para falar, principalmente, sobre a relação da emoção com o dinheiro. A falta de controle nas finanças lhe rendeu uma dívida de R$ 30 mil no cheque especial. Exausta com os efeitos da gangorra financeira, que oscilava entre gastança e períodos de total dureza, foi investigar, por meio da psicanálise, os mecanismos mentais que são acionados quando se trata de dinheiro.

 

"Ao analisar minhas atitudes, entendi porque torrava tudo e mudei completamente." Suas finanças entraram nos eixos, com direito a aplicações na Bolsa e no banco. Além das palestras abertas, hoje Paula leva seu conhecimento a funcionários de empresas. Para ela, seu trabalho é como espalhar a semente de uma nova consciência na relação com o dinheiro.

 

 

 

QUASE CELEBRIDADES

 

 

As Smart Cookies são cinco canadenses que se juntaram para tirar o pé das dívidas - e conseguiram. O esforço coletivo, que começou em 2006, rendeu o livro Clube do Dinheiro (Ed. Planeta, R$ 25). Contaram a experiência na TV - inclusive no programa The Oprah Winfrey Show -, e até no The New York Times.

 

Katie, Andrea, Angela, Sandra e Robyn, que têm hoje entre 28 e 35 anos, criaram o smartcookies.com, com 15 mil cadastrados. Juntas, somavam US$35 mil em dívidas, mas, um ano e meio depois, comemoravam o saldo positivo. A canadense Katie Dunsworth, de 27 anos, é a mais jovem. Por e-mail, ela falou sobre a experiência bem-sucedida do grupo.

 

Qual foi o maior obstáculo? Manter a motivação, resistindo à tentação de gastar.

 

Quais foram as mudanças? Por exemplo: em vez de tomarmos o café da manhã no caminho do trabalho, fazíamos isso em casa. E trocávamos roupas que não usávamos mais.

 

Quais os problemas comuns entre mulheres endividadas? Geralmente, elas acumulam dívidas devido aos "gastos emocionais". Descobrimos também que bancos e empresas de cartões de crédito são um desafio para uma mulher, na hora de negociar. Mas vale a pena enfrentar essa dificuldade, para conseguir melhores taxas de juros.

 

Qual foi a maior satisfação que vocês tiveram quando quitaram as dívidas? Foi conquistar a liberdade de escolher onde queríamos gastar nosso dinheiro. Começamos a nos sentir seguras e confiantes, porque cada uma de nós tínhamos construído uma poupança para emergências, guardávamos dinheiro para a nossa aposentadoria e para as coisas que eram importantes para nós, como viagens de férias e a compra de imóveis.