Para qual o seu filho vai?

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Waldorf, Construtivismo e linha Montessoriana são termos pedagógicos que constavam apenas no dicionário da elite intelectual, aquela provida de meios para escolher a metodologia de ensino que melhor combina com suas crianças. No Brasil, o poder de escolha custa caro: entre R$ 800 e R$ 1.300 para o nível fundamental, além das intermináveis taxas de material. De olho no sufoco dos pais para bancar o ensino que julgam ser de qualidade, instituições badaladas têm bolado planos de socorro. Em 2007, a Waldorf São Paulo, instalada no elegante bairro Vila Olímpia, vai receber cinco alunos da favela Horizonte Azul. O esforço é recíproco: a escola entra com o custo da bolsa integral e os alunos doam a disposição para caminhar nove quilômetros até a sala de aula, já que não têm dinheiro nem sequer para tomar uma condução. Psicóloga e mãe de aluno da Waldorf São Paulo, Helena Trevisan incentiva o projeto de inclusão. ?Temos que pensar no que será melhor para as crianças, para aquelas que já estudam aqui e para aquelas que vêm da comunidade carente. Será que elas ficarão constrangidas quando alguém comentar: ?nossa, ele veio a pé??? Acreditamos que a escola deva ser um lugar que reflita a diversidade que há no mundo. É saudável vivenciar essa heterogeneidade?, explica. Apesar da fama de sofisticada que ganhou no Brasil, a pedagogia Waldorf nasceu plebéia. Foi criada para uma pequena aldeia de operários alemães, em 1919, quando o dono de uma fábrica pediu ao filósofo Rudolf Steiner que criasse uma escola para as crianças locais. Ali, o pensador lançou as bases de sua teoria. ?Imaginação, senso de verdade e senso de responsabilidade: essas são as três forças motrizes da educação?, escrevia Steiner. A teoria é simples e não exige fantásticos investimentos para ser implantada, apenas dedicação. Prova disso é que o professor Santino de Oliveira conseguiu levar o método até a escola pública Elias Jorge Daniel de Capão Bonito, a três horas da Capital. ?Tocamos até flauta com os alunos e o professor acompanha a classe durante todas as séries, como acontece na escolas Waldorf da rede particular. É possível sim, mas o trabalho exige mais do professor e nem todos estão dispostos a encará-lo?, opina ele. Pais assombrados pelo fantasma de um futuro vestibular freqüentemente recuam diante de propostas libertárias. ?A intelectualização precoce não é interessante pois rouba a livre expressão da criança. Ela só consegue se expressar livremente por meio da arte. Em escolas Waldorf não há livros didáticos prontos, cada aluno confecciona seu material?, diz Helena. A paixão da psicóloga pelo pensamento de Steiner é tão grande, que ela decidiu escrever um livro sobre o assunto. Em Filhos Felizes na Escola - Pedagogia Waldorf, o ensino pela arte, relata a alegria manifestada pelo caçula diante das atividades na escola. ?Meus filhos mais velhos estudaram em colégios tradicionais, com aulas expositivas e memorização de conteúdo pela repetição. A Revolução Francesa é ótima para ilustrar isso: tomei lição sobre ela na 5ª série, outra vez na 7ª, depois no colegial ... Decorar aquilo era penoso para eles. Conhecimento, quando vem no momento errado, não é apreendido.? A pedagogia Waldorf é calcada no respeito às etapas de desenvolvimento do ser, divididas por Steiner em períodos de sete anos. Prega-se o prolongamento da infância e o adiamento do pensamento abstrato, de forma que caderno e lápis são usados só a partir do primeiro ano. No Brasil há 50 anos, a proposta holística de Steiner é amada por alguns e tachada de utópica por outros, já que exclui computadores e TVs do território escolar em pleno século 21. No Colégio Piaget, por exemplo, a tecnologia é vista como parceira fundamental. A escola, uma verdadeira fortaleza high tech, tem computadores em todas as salas de aula, além de telões e lousas eletrônicas. ?Nosso aluno não é chamado à lousa, é chamado ao mouse! Crianças de hoje precisam de coisas nem sequer conhecidas na década passada. Os alunos têm som, movimento e cor em suas vidas e vão querer esses mesmos elementos dentro da sala de aula. Se o ambiente não for interessante, a criança vai passar o dia olhando pela janela?, opina a diretora do Piaget, Valdinéia Cavalaro. Jean Piaget é o nome do estudioso suíço cujas idéias serviram de inspiração o Construtivismo, outra famosa linha da pedagogia. ?O Colégio existe há 28 anos, foi fundado com o consentimento do próprio Piaget. Ele dizia algo que nos serviu de norte:?Quando você ensina algo, a criança memoriza por certo tempo. Quando ela descobre o conhecimento, nunca mais o esquece?. Nesse sentido, o professor é só um mediador?, explica Valdinéia. O ?conhecer? é entendido pelos construtivistas como um processo a longo prazo. ?Nós não marcamos dia de prova, por exemplo. A avaliação existe apenas para que a criança tenha um feedback de seu desempenho, mas deve ser encarada como um dia normal de aula?, conta a diretora. O Colégio Piaget, assim como os colegas da Waldorf São Paulo, também estuda uma forma de disponibilizar seu modo de ensino para quem não tem dinheiro para bancá-lo. Para 2007, cogita-se uma parceria com a Prefeitura Municipal. Na pedagogia montessoriana, idealizada pela educadora italiana Maria Montessori, a palavra de ordem é cooperação. Abraçada pela Prima Escola Montessori de São Paulo, na Chácara Flora, a metodologia propõe a educação cósmica, voltada para o respeito pelo coletivo. ?Estimulamos o consumo responsável.Nas salas existem baldes com lápis, borrachas e materiais diversos que são da turma toda. Isso ensina que não se pode cuidar só do que é da gente?, analisa a diretora pedagógica da instituição, Edimara de Lima. Entre os montessorianos, as tarefas do cotidiano têm a mesma importância que disciplinas tradicionais, tanto é que tais atividades constituem matéria fixa no currículo. ?Os pequenos dão banho nas bonecas, molham plantas e cuidam de algum ser vivo que pertence à classe, como peixes?, conta Edimara. A partir dos 11 anos, o aluno montessoriano ganha a disciplina trabalho pessoal, que ocupa dez horas de sua carga semanal. ?Neste período, o estudante pode fazer leituras pertinentes. Dentro da sala há estantes com expositores, como os de banca, e poltronas. Assinamos 14 periódicos, entre jornais e revistas, porque a linguagem jornalística é mais atraente do que a literária para jovens ?, diz a diretora. Os materiais e o lanche, que inclui duas frutas, pães, leite e iguarias brasileiras, como canjica, também ficam por conta da casa. Relativamente novo na praça, o Colégio Sidarta se apresenta como sócio-interacionista. O nome é pomposo, mas seu significado prático é simples. ?Queremos formar crianças críticas, aptas a pesquisar desde cedo. Já na terceira série do ensino fundamental eles recebem um manual de preparação de trabalhos que traz definições de objetivo e hipóteses, conceitos que a maioria aprende só na faculdade?, explica um dos coordenadores da escola, Manolo Vilches. Situado em Cotia, em frente ao templo budista Zu Lai, o Sidarta é a única escola regular do Brasil que oferece o mandarim na grade curricular, inclusive para os mais novos. ?Apesar do vínculo com a cultura chinesa, a escola é laica. Instalamos o sino da paz, tocado sempre às 10h, para lembrar o respeito pela religião de todos os povos.? Se é difícil escolher o método adequado para crianças convencionais, o desafio é ainda maior quando o pequeno apresenta alguma deficiência, drama vivido pela personagem Helena (Regina Duarte) na novela das oito. Mãe adotiva de uma portadora de síndrome de Down, ela luta para incluir a filha em uma escola tradicional. Helena talvez mudasse sua opinião sobre escolas especiais se conhecesse a Casa do Sol, no Campo Belo. Ali, profissionais adaptaram a pedagogia Waldorf para todo tipo de deficiente. E melhor: só duas das 15 crianças atendidas pagam a mensalidade integral (cerca de R$ 1.300). Muitas contam com padrinhos que, às vezes, são encontrados pelos próprios profissionais da casa. ?Há patroas que pagam a escola para os filhos de suas domésticas?, conta a coordenadora Ruth Godoy Ferreira. A Casa conta com salas para tecelagem, aquarela, dança e outras atividades, além de fisioterapia, médico e refeições. As crianças aprendem a fabricar até o pão que consomem. ?Procuramos agora musicoterapeuta e fonoaudiólogo. Recebemos doações até da Holanda, mas no Brasil é sempre mais difícil.? Curso extra: bom ou ruim? Balé, teatro, música, inglês e até etiqueta. Em busca de pais indecisos, algumas instituições oferecem uma lista cada vez mais extensa de diferenciais. Será que eles são assim tão importantes? Na opinião da especialista em psicopedagogia, filósofa e professora da Faculdade de Ciências da Saúde, Simone Magaldi, extracurriculares em excesso mais atrapalham do que contribuem para a formação da criança. ?A criança deve ter tempo para fazer as escolhas que ela quiser: brincar, conversar ou mesmo tirar uma soneca. Vejo alunos muito novos que vivem preocupados e ansiosos, com responsabilidades e agenda de adultos. Até os 12 anos , a atividade extra deve ser um pedido da criança e não uma imposição dos pais?, comenta Simone. Para a profissional, os pais devem descobrir de ?qual semente é feita a sua criança? para que se possa conhecer a verdadeira vocação do pequeno. ?Muitas vezes, os pais têm profissões de prestígio, como os médicos, e se chateiam quando a criança vive a mexer na terra e diz que vai ser jardineiro quando crescer. Com medo do futuro, os pais podem tentar desviar a atenção dele colocando-o em outros cursos, tentando que ele se interesse por qualquer outra coisa. Na verdade, podem estar matando um Burle Max. Toda atividade dá certo quando é feita com amor?, opina.