Papo cabeça

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

Não é preciso ser um crânio para entender o cérebro, garante a neurocientista Suzana Herculano-Houzel

Os gatos tinham maior importância para os antigos egípcios do que o cérebro humano. Para eles, o comando do pensamento vinha do coração, e não do encéfalo e, assim, tido sem utilidade, juntamente com as vísceras, o órgão era desprezado durante o processo de mumificação. O que os egípcios não podiam imaginar era que estavam jogando fora muito mais do que uma massa rósea semelhante ao miolo de uma noz. Em pleno século 21, o cérebro continua sendo um desafio para a Ciência. Para os leigos, além da complexidade do sistema nervoso - afinal são 100 bilhões de neurônios em ação -, persiste a idéia de associá-lo à frieza, ao cálculo e à razão, ainda que processe as emoções. Para coroar a história, mitos e descobertas polêmicas pipocam a todo instante na mídia e em publicações de credibilidade duvidosa. Hábil em tornar o entendimento da neurociência mais palatável e de fácil entendimento, Suzana Herculano-Houzel é uma referência na área. As credenciais acadêmicas dessa jovem bióloga carioca de 35 anos, casada e mãe de um casal de filhos de 9 e 5 anos, não deixam dúvidas sobre a seriedade de seu trabalho. Suzana tem especialização em genética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é mestre em Ciências pela Case Western Reserve University (Estados Unidos) e doutora pela Université Paris VI. Fez seu pós-doutorado no Instituto Max Planck para a Pesquisa do Cérebro, em Frankfurt (Alemanha). Tem cinco livros publicados, todos centrados em experiências da neurociência, aplicadas ao cotidiano. Morou nos Estados Unidos e na Alemanha e, quando retornou ao Brasil, em 1999, deixou as bancadas do laboratório para tornar-se divulgadora científica, área na qual atuou até 2002. "Tinha uma grande frustração a respeito da visão estereotipada que existe sobre os cientistas. Sempre perguntam se estamos pesquisando a cura de alguma doença ou de um remédio novo." Falando em estereótipos, a imagem do cientista enfurnado no laboratório com a cara enfiada no microscópio remete à idéia de que estes profissionais pularam a infância e adolescência, lembrando o personagem Dexter, menino gênio do desenho infantil. Nada disso. - Eu tive uma infância normal, embora tenha entrado para a escola cedo, porque aprendi a ler com 4 anos. Era dois anos mais nova que os colegas de turma, ou seja, entrei para a faculdade com 16 anos. Acho que, por causa dessa imaturidade, tinha muita dificuldade para lidar, na escola, com os conceitos abstratos de história e geografia, mas me dava bem em ciências e matemática. Mas eu jogava vôlei na rua,brincava de pique, ia a festas, voltava tarde e não ligava para casa para avisar, como todo adolescente, e ainda não existia celular! Fazia montanhismo na época da faculdade, quando escalei o Pão de Açúcar algumas vezes. Passei um mês no sul do Chile de mochila nas costas com os amigos, fui morar nos Estados Unidos aos 19 anos... enfim, tudo aquilo que um dia meus filhos vão querer fazer e me deixar de coração na mão! Falando em filhos, conta que sua filha gosta de ler seus artigos, sobretudo quando aparece como personagem central do texto. "Os dois curtem muito quando apareço em algum programa na televisão e, claro, acham que eu devo ser ?famosa? por causa disso. O grande interesse deles no momento é o meu quadro no Fantástico, que tem no cenário um cérebro enorme, que eu posso rodar e abrir. Eles já assistiram ao piloto várias vezes lá em casa, e sabem direitinho a explicação para coisas que eu falo no quadro. É um barato!" MUSEU, SITE, LIVROS Quando voltou ao Brasil, no final dos anos 90, Suzana foi trabalhar no Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio, desenvolvendo atividades como o projeto Ciência em Cena, sobre os vários aspectos da percepção, e uma exposição chamada Os Sentidos da Vida. A experiência enriquecedora junto ao público levou-a a criar um site em 2000, O Cérebro Nosso de Cada Dia, onde relaciona as descobertas em neurociências com curiosidades do dia a dia. "No site, além de artigos, informações e links com pesquisas internacionais, as pessoas tiram dúvidas sobre o assunto." Depois da internet, vieram os livros, sendo que um deles, Por que o Bocejo é Contagioso? (ed. Zahar), consiste em mais de 80 perguntas e respostas. E quanto aos mitos? "O maior deles, e que deve render um bom dinheiro a quem espalhou, é o de que usamos apenas 10% do cérebro. Isso soa tão bom que as pessoas acreditam. Se usamos 10% do cérebro, então temos 90% de reserva, que, se conseguirmos aprender a usar, poderíamos ficar até dez vezes mais inteligentes, memorizar dez vezes mais fatos, fazer contas dez vezes mais rápido.Tudo balela. O que é real é a propriedade mais maravilhosa do sistema nervoso, ou seja, a capacidade de fazer novas combinações entre seus elementos, o que nos leva a desenvolver nossas habilidades." Sabe aquela história de que homens são de Marte e as mulheres são de Vênus? Pois a tão propagada diferença entre os sexos, segundo ela, é bem pequena. "A diferença maior está na orientação espacial: homens e mulheres usam até estruturas diferentes do cérebro para se guiar. Eles utilizam referências absolutas e até pontos cardeais, e nós nos guiamos de marco em marco, seguindo até a loja tal e depois virando no próximo café." No caso de homossexuais, uma dúvida freqüente é se os genes e fatores hormonais influenciam na escolha. Segundo ela, por mais que se tenha investido em estudos sobre influências sociais, as únicas identificadas até hoje sobre a preferência sexual são as biológicas, sejam genéticas ou não. - Na visão da neurociência atual, a preferência sexual é determinada no começo da gestação, quando ocorrem mudanças no cérebro, que se manifestam mais tarde, na adolescência, quando descobrimos nossa preferência sexual. Criação, religião, carinho ou falta dele e exemplos masculinos ou femininos não parecem influenciar em nada essa preferência. Mas o que fazemos com essa preferência, ou seja, nossa opção sexual, é outra história, esta sim, infelizmente, é influenciada pela sociedade. A preferência sexual de cada pessoa deveria ser tão respeitada quanto a cor de seus olhos ou de sua pele, pois é uma característica biológica que não afeta em nada a saúde ou a vida dos outros. Já a adolescência rendeu até um livro, O Cérebro em Transformação (ed. Objetiva). Nele, Suzana esclarece que a mudança pela qual os jovens passam não é movida a hormônios, apenas: - O cérebro passa por uma nova fase de transformações durante os cerca de dez anos da adolescência, e essas mudanças podem explicar muito bem o comportamento característico dessa fase: o tédio, o interesse pelo sexo, a vulnerabilidade às drogas, a necessidade de testar regras e de ter amigos por perto, o ganho enorme cognitivo e de capacidade de atenção e memória, os novos interesses por idéias abstratas como filosofia, religião, política. Por fim, a conquista da capacidade de pensar antecipadamente nas conseqüências dos próprios atos e se colocar no lugar dos outros. Tudo isso parece ser o resultado dessas mudanças no cérebro, e entendê-las pode ajudar muito o relacionamento entre adultos e adolescentes - a começar pela compreensão de que, de certa forma, adolescentes só podem se comportar como adolescentes. CURIOSIDADES Entre os dados curiosos, explica como funciona o córtex da ínsula e o núcleo acumbente, nomes indecifráveis para qualquer analfabeto em ciências. "Quando somos solidários à dor de alguém querido, quem entra em ação é o córtex da ínsula. Ele monitora o estado do corpo, manifesta-se como se a dor alheia fosse nossa. Se, ao contrário, vemos sofrer alguém que nos traiu, a ínsula não está nem aí. Mais, ainda, o núcleo acumbente do sistema de recompensa - que nos faz sentir prazer - é ativado no cérebro de quem observa o traidor receber um estímulo doloroso." Sobre as descobertas das últimas décadas, comenta a plasticidade do cérebro, ou seja, sua capacidade de "dar um jeitinho", se reorganizar diante de determinada lesão. "O cérebro lesionado não se regenera, mas assume uma função que foi perdida. Essa capacidade de redistribuir comandos para outras áreas é limitada, mas existe e, nesse processo, a ajuda da fisioterapia é fundamental. É preciso treino e uso, assim como o músculo que, se não for exercitado, atrofia." Para manter a saúde do cérebro, explica, a atividade mental, inclusive através de educação formal, ainda é um dos fatores mais fortes de proteção contra a demência, como a da doença de Alzheimer. Rir também ajuda, e muito. " O riso inspira confiança, favorece a aproximação e interação sociais. Promove o bem-estar. É o tratamento mais barato e democrático que existe." Sobre os requisitos de seu ofício, além da dedicação e de gostar do assunto, lembra que é preciso, sobretudo, ter um olhar crítico. "Admiro muito os cientistas inovadores, como António Damásio e V.S. Ramachandran, que têm idéias ousadas, alternativas - ?e se fosse diferente ??- e não hesitam em testá-las." Atualmente Suzana alia trabalhos de pesquisa com a divulgação científica. No laboratório da UFRJ dedica-se a compreender as origens da diversidade do sistema nervoso. "O cérebro de uma baleia, por exemplo, chega a ser 100 mil vezes maior do que o da menor toupeira existente, mas tem a mesma organização geral. Essa diversidade, que respeita alguns padrões gerais, é fruto da evolução. Vamos publicar em breve um outro artigo, que mostra que o cérebro humano tem o tamanho e o número de neurônios esperados para o cérebro de um primata de nosso porte - ou seja, não somos especiais como se imaginava. Ao menos nesse sentido, quero dizer."