Ossadas revelam hiato na história do cerrado

Eduardo Kattah, BELO HORIZONTE - O Estado de S.Paulo

Fim de escavações em Buritizeiro (MG) traz elementos sobre como viviam moradores da região do Rio São Francisco há cerca de 6 mil anos

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) concluíram na semana passada a exploração em um sítio arqueológico em Buritizeiro, no norte do Estado, que poderá ajudar a decifrar o que consideram um hiato na evolução do homem pré-histórico no chamado Brasil Central - região de cerrado que compreende o centro-norte de Minas, sudoeste baiano, Tocantins e Goiás. Pelo menos 16 ossadas humanas com cerca de 6 mil anos e instrumentos diversos foram retirados do sítio a céu aberto, abrindo uma nova perspectiva para a pesquisa sobre o povoamento do Vale do Rio São Francisco, de 11,5 mil anos atrás até o presente. "É um período quase desconhecido", observa o arqueólogo francês André Pierre Prous, professor da UFMG, que comandou a equipe de profissionais e alunos da Missão Franco-Brasileira. A maior parte dos estudos arqueológicos em Minas se baseia nos sítios descobertos nas entradas das grutas da área de Lagoa Santa, na Grande Belo Horizonte, com datação que varia de 8 a 12 mil anos. "Conseguimos elementos para investigar um momento que carece de informação", reforça a arqueóloga Maria Jacqueline Rodet, que também coordena o projeto. Descoberto por acaso em 1983, durante obras para a instalação de rede de esgoto no centro da cidade, ao lado da prefeitura, o sítio de Buritizeiro só começou a ser explorado no fim de 2005. As obras foram embargadas e o terreno, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o que garantiu a preservação do tesouro arqueológico. Em julho do ano passado, os pesquisadores iniciaram os trabalhos em um cemitério com esqueletos "excepcionalmente bem conservados", conforme definiu Jacqueline Rodet. A arqueóloga salienta que a preservação de ossadas com essa datação em sítios de céu aberto é uma "exceção" por causa da acidez do solo. As grutas se formam principalmente em maciços de calcário, favorecendo a conservação dos restos mortais. "Nossos ossos são básicos. O ácido come o básico, não sobra nada". A intenção é saber como essa população vivia fora dos abrigos. INDÚSTRIA A maior parte dos esqueletos e vestígios foi recolhida nas últimas semanas e os pesquisadores já chegaram a algumas conclusões sobre a população de caçadores, coletores e pescadores que há 6 milhares de anos vivia em acampamentos provavelmente às margens do São Francisco. As oferendas e instrumentos revelaram uma sofisticada "indústria" de artefatos feitos à base de seixos, pedregulhos das margens dos rios. "Quase não existem no Brasil estudos de indústrias sobre seixos", destaca Maria Jacqueline. Segundo ela, as pedras eram abertas de maneira variada e sistemática e as lascas, usadas na confecção de "pequenos instrumentos para cortar, furar e raspar". Foram recolhidos também instrumentos com pontas de ossos e lajes que os pesquisadores imaginam serem usadas na preparação de alimentos. A hipótese de uma população horticultora é considerada remota. "Vamos analisar vestígios para ver se havia plantações, mas é pouco provável", diz Prous. Uma das características dos povos horticultores é a alta incidência de cáries. "Esses esqueletos quase não têm cáries. A alimentação deles era, provavelmente, mais rica em peixes", afirma Maria. Embora ainda sem indícios materiais, a arqueóloga acredita que já nessa época os povos usavam o São Francisco para deslocamentos. PRÓXIMOS PASSOS O material será catalogado e levado para o Museu de História Natural de Belo Horizonte. As ossadas irão para o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, do Instituto de Biociências, da Universidade de São Paulo (USP), para análises comandadas pelo pesquisador Walter Neves. A intenção é descobrir se os esqueletos se assemelham a populações antigas da região de Lagoa Santa ou a povos mais modernos. Neves, que pesquisa na região cárstica, batizou de paleoíndios os esqueletos antigos, com mais de 8 mil anos, sem semelhanças com mongolóides, mas sim com a morfologia craniana de aborígines australianos e africanos atuais. Mas, para Maria Jacqueline Rodet, é provável que se trate de uma segunda leva de ocupação da América do Sul, por "pré-índios". "Provavelmente os mesmos que os portugueses acharam aqui." No início dos anos 70, foi justamente a Missão Franco-Brasileira, na época liderada pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, da qual Prous fazia parte, que desenterrou na Lapa Vermelha, em Pedro Leopoldo (MG), o crânio de uma mulher de 11 mil a 11,5 mil anos. A descoberta levou ao que até hoje é considerada a primeira brasileira e o primeiro fóssil humano das Américas. Neves e sua equipe da USP foram os responsáveis pela reconstituição do rosto da mulher pré-histórica, que foi batizada de Luzia. A missão é financiada pelo Ministério das Relações Exteriores da França. Prous lamenta o fim da verba, pois está convicto de que o sítio de Buritizeiro ainda tem bastante material. "Seria interessante retornar no futuro." FRASES André Pierre Prous Arqueólogo francês e professor da UFMG "É um período quase desconhecido" Maria Jacqueline Rodet Coordenadora da Missão franco-brasileira "Esses esqueletos quase não têm cáries. A alimentação deles era, provavelmente, mais rica em peixes"