Os virgens na panela de pressão

- O Estado de S.Paulo

Fora da novela, adolescentes falam como é pertencer à categoria dos que ainda não tiveram a ´primeira vez´ nos dias de hoje

Os dois lados da moeda valem para as mesmas personagens da vida real. Uns as consideram ´puras´, ´santas´ e ´ideais´. Outros as classificam como ´bobas´, ´inocentes´ e até ´problemáticas´. Opostos, os dois grupos de adjetivos são utilizados para denominar aquelas meninas - e até os meninos - que assumem fazer parte da turma ´jovens sim, porém virgens´. Se na realidade as classificações são diferentes, na ficção os autores de novela sempre adotam a mesma receita para retratar a virgindade. O exemplo claro é a mocinha Camila (Patrícia Werneck)da trama ´Paraíso Tropical´ , da Rede Globo. Sonhadora, inocente, sempre falando em voz baixa, ela acaba de subir no altar com Fred (Paulo Vilhena) com o troféu de ter casado ´intacta´. Camila não é a primeira a desfilar no horário nobre com estas características. Quem não se lembra de Carolina Dieckman no papel de Edwiges em ´Mulheres Apaixonadas´ (2003)? A imagem na fantasia é questionada por quem é virgem na realidade. Cátia (nome fictício) tem 22 anos e já está cansada de se justificar. ´Não, eu não espero um príncipe no cavalo branco. Sim, eu conheço muito bem o meu corpo. Não entendo por que é tão difícil aceitar que, até o momento, eu simplesmente não quis transar com ninguém´, reclama a moça. Pessoas de todas as gerações gostam de afirmar que a virgindade, hoje, é uma exceção à regra. Os mais velhos acreditam que a garotada não respeita mais a castidade antes do casamento. Já os adolescentes explicam que ninguém pode ser virgem em um mundo que, atualmente, permite e até incentiva o sexo sem compromisso. E quem ainda não experimentou a tal ´primeira vez´ e contradiz todas estas teorias? Afinal, como é ser virgem fora da televisão? Será que todo mundo sofre como Cátia? Na opinião da estudante Joyce Brizola, 16, não é fácil encontrar alguém que tenha coragem de assumir a virgindade. ´Por causa da pressão do grupo, é muito constrangedor para alguém que já passou dos 17 anos assumir que ainda não experimentou o sexo´, falou a garota. Levantamento do programa de saúde do adolescente estadual mostra que, hoje, meninos e meninas entram para a categoria de ´população sexualmente ativa´ até mais cedo, aos 14. Apesar de a média ser menor do que dos anos anteriores, os jovens rebatem que as coisas não estão tão avançadas como se pensa. ´Hoje, a gente até fala mais sobre sexo, mas as meninas ainda precisam seguir um padrão de comportamento antigo´, afirmou a aluna da 7ª série Carla Faustino. ´Mudou bastante a exigência da virgindade, mas ainda vale que os meninos podem transar, mas as meninas, não´, completa Luísa Leven, 15. Para o médico psiquiatra do Ambulatório de Sexualidade do Hospital das Clínicas Alexandre Saddeh, quem é virgem vive em uma ´dupla panela de pressão´.´O preconceito contra a virgindade vestiu uma roupa nova. Se antes a mulher que não permanecia virgem era uma sem-vergonha, hoje, se ela ainda não transou, é uma boba´, afirma.´Ao mesmo tempo, o estigma de galinha para a menina que já teve parceiros sexuais também não saiu de cena.´ Já os meninos que são virgens, segundo o psiquiatra, acabam taxados de homens de segunda classe perante os colegas. A psicóloga Giovana Sampaio ensina: ´Não dá para desvincular sexo de desejo. O ato de transar ou não transar, só para fazer parte de um grupo, seja dos virgens ou daqueles que não são, só traz frustração´ .