Os novos colunistas e as histórias dos veteranos

- O Estado de S.Paulo

Os novos colunistas chegam ao Estado com aquela expectativa que precede a construção de um vínculo de leitura. O escritor Milton Hatoum decidiu mirar na crônica literária. "O desafio é equilibrar um lance corriqueiro do cotidiano com o lirismo ou a subjetividade que se extrai dele", explica. "Às vezes a crônica se aproxima do conto. Ou do relato da confissão." Adriana Falcão, autora do romance A Máquina, parte para o novo desafio valendo-se da experiência de uma coluna na revista Veja Rio. "Vivo nova ansiedade, o que me anima a buscar o melhor de mim", confessa. Sua coluna tratará de conflitos humanos. "Como não sou especialista em nada, falarei de sentimentos, afetos, gente." Também no Caderno 2, a carioca Lúcia Guimarães, correspondente em Nova York desde 1985, quer contar histórias. "Podem partir do noticiário ou de personagem que ninguém conhece." Antonio Prata conta que a experiência de escrever semanalmente no Guia o levou a prestar mais atenção à cidade. "A gente fica tão viciado na informação impressa, esquecendo que ela é uma edição da informação tátil, visual, olfativa e auditiva de um mundo mais amplo", comenta. Outro novo titular do Metrópole, Fred Melo Paiva formou-se em Belo Horizonte, mas veio para São Paulo em 1996. Foi diretor de redação das revistas Trip e Tpm. Atuou, como editor e repórter, no caderno Aliás até o mês passado. Em seus textos, não raro lança mão da ironia "às vezes não tão fina assim" - e acha que isso pode cair bem numa coluna. "Lá no fundo, tenho a sensação de estar abraçando algo que inspira uma responsabilidade maior." Vanessa Barbara vem sendo saudada como escritora-revelação. Tem 26 anos, morou sempre num mesmo bairro da zona norte de São Paulo, "onde o fuso horário é diferente", e agora vive em Higienópolis, onde já fundou o "protetorado do Mandaqui". Quer escrever reportagens curtas, narrativas e, claro,falar sobre o Mandaqui, "as linhas psicodélicas de ônibus, os legumes e o seu Raimundinho, que conta todas as manhãs quantos patos há no lago do Horto". No caso do sociólogo José de Souza Martins, autor de duas dezenas de livros, a coluna tem até formulação teórica: "A expressão de resistência ao terrorismo ideológico que reduziu a metrópole a um monturo e a trata como um lugar inabitável." BOAS-VINDAS A recepção aos novos colunistas reuniu muitos comentários dos "veteranos de casa". O jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão, no jornal desde 1993, manda a seguinte mensagem para Milton Hatoum: "Gostaria de fazer como sir Walter Scott, na Inglaterra, que estendeu seu manto no chão para que a rainha sobre ele caminhasse. Não tenho manto, mas comprei um belo paletó de tweed e o coloco à sua frente." Loyola recorda uma história que serve como medida da influência do colunista: certa vez ele escreveu sobre a cirurgia pela qual passou, em 1996. O relato acabou encorajando uma senhora a enfrentar a operação de um aneurisma. Resultado: "Ela salvou-se, como eu." O brasilianista Matthew Shirts fala de sua relação estreita com dois países - Brasil e Estados Unidos. Escreve no Caderno 2 desde 1994 e, em 2005, escreveu sobre a experiência de quebrar um termômetro nos EUA. "As pessoas me paravam na rua, gritavam dos automóveis, ?o mercúrio, o mercúrio!?" Sobre o nervosismo que acomete estreantes, o antropólogo Roberto DaMatta pondera, com muita tranqüilidade: "Todo colunista fica tenso." O fato é que a liberdade que um espaço autoral oferece tem lá suas conseqüências, adverte Arnaldo Jabor, no Caderno 2 desde 2001. Numa determinada semana, ele escreveu uma entrevista imaginária que teria feito com um chefe do PCC, um "marcola da vida". "Todo mundo achou que era verdade. Teve repercussão internacional!", conta. Já Marcelo Rubens Paiva escreveu uma série de perfis inventados, que resultou no livro O Homem que Conhecia as Mulheres. "Adorei fazer isso, mas as colunas que mais repercutiram foram a série sobre separações." Para Luis Fernando Verissimo, no Estado desde 1990, textos que tratam de política chamam mais a atenção. "Quem discorda costuma ter mais ânimo para escrever do que quem concorda." João Ubaldo Ribeiro, nas páginas do Cultura aos domingos, compartilha dessa opinião. "A coluna em que fiz uma carta ao presidente FHC causou uma celeuma enorme." Já Tutty Vasques é um defensor da seriedade que não dispensa o humor - e vice-versa. "Os ?novatos? logo vão perceber que as melhores coisas da militância no Estado são a cobrança do leitor e a liberdade que o jornal proporciona a quem é pago para dar opinião." Daniel Piza, também do Cultura, alerta para o "erro" de pensar que só se deve dizer o que o leitor gostaria de ouvir. "Leitor sente prazer em concordar, é claro. Mas também reconhece quando alguém defende uma idéia com a qual não concorda, usando argumentos atraentes", explica.