ONG pede veto à venda de bebidas a menor de 21

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

Entidade americana quer no Brasil idade mínima adotada nos EUA

Em 1984, os 50 governos estaduais dos EUA foram obrigados por lei federal a subir a idade mínima para o consumo de bebidas alcoólicas de 18 para 21 anos. Entre os protagonistas da mudança estava a ONG Mothers Against Drunk Driving (algo como Mães Contra Motoristas Alcoolizados), que na época contratou lobistas para convencer congressistas e fez ruidosa publicidade para angariar o apoio da sociedade. Agora a poderosa entidade quer que o Brasil também endureça as restrições ao álcool. O presidente da MADD, Glynn Birch, desde ontem em São Paulo, pedirá hoje ao ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que o Brasil transforme em crime a venda de bebidas a menores de 21 anos. A lei brasileira fixa em 18 a idade mínima. O americano apresentará estatísticas que mostram que o aumento de três anos tem evitado que mil pessoas morram por ano nos EUA em decorrência de batidas de carro e atropelamentos em que os culpados seriam motoristas bêbados. "Pelo menos 23 mil americanos estão vivos hoje graças ao aumento da idade legal mínima para beber", disse Birch ontem ao Estado. Nos EUA, bares são fiscalizados com freqüência e sofrem duras sanções quando vendem bebidas a adolescentes. No Brasil, raramente se pergunta a idade. Assessores do Ministério da Saúde não conseguiram entrar em contato com Temporão para comentar a proposta da MADD, que surge no momento em que o governo trava uma batalha com a indústria para restringir a propaganda de bebidas, principalmente a cerveja. A organização não-governamental foi criada em 1980, na Califórnia, por uma mulher cuja filha havia sido atropelada por um bêbado. Sem dificuldade, congregou outras mães que haviam passado por traumas parecidos. Birch foi o primeiro homem eleito presidente da entidade, em 2005, 17 anos após perder seu filho mais novo, que estava perto de completar 2 anos quando foi atropelado na porta da casa da avó, em Orlando, por um homem que dirigia embriagado a 115 km/h. Ontem, ao lembrar a tragédia, seus olhos se encheram de lágrimas e ele precisou interromper a entrevista. A MADD está presente em todos os Estados americanos e começa a chegar a outros países. Grande parte de seu orçamento é destinada a campanhas publicitárias, a advogados que defendem as famílias das vítimas e a lobistas que pressionam parlamentares (ao contrário do Brasil, esse tipo de trabalho é regulamentado nos EUA). ACIDENTE E BATIDA Outras vitórias da MADD foram a substituição nos boletins policiais do termo "acidente" por "batida" quando a causa é a embriaguez do condutor e a aprovação de leis estaduais que obrigam a instalação de bafômetros nos carros de pessoas que já foram detidas - o carro não funciona se o aparelho detectar álcool. Ontem, Birch visitou as rodovias Anhangüera e Bandeirantes. Em São Paulo, surpreendeu-se com a quantidade de motoqueiros nas ruas. Hoje de manhã, ele fará uma palestra na Bolsa de Valores de São Paulo, onde apresentará sua proposta ao ministro.