Obesidade agrava riscos da gripe suína

Adriana Carranca - O Estado de S.Paulo

Antonio Carlos Seguro: supervisor da UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas; acostumado com epidemias, especialista diz que esses pacientes têm imunidade reduzida e são suscetíveis à infecção

Pacientes obesos infectados pelo vírus H1N1 têm desenvolvido a doença mais rapidamente e com maior gravidade do que os demais. Dos 14 doentes na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, seis eram obesos. Nesse grupo, houve duas mortes. O hospital de referência concentra os casos graves da gripe suína, exceto grávidas e menores de 1 ano, encaminhados para o Hospital das Clínicas (HC), equipado para fazer partos e bebês. No Emílio Ribas, embora a taxa de mortalidade entre os pacientes graves tenha sido de 30%, dentro dos padrões verificados em outros países, como Estados Unidos, a infecção em obesos é o que mais preocupa os médicos da UTI. "É conhecido que obesos têm baixa imunidade e, portanto, são mais suscetíveis a infecções e ao desenvolvimento de doenças inflamatórias. Mas, além de alterações graves na função pulmonar, baixa oxigenação e queda de pressão, observadas nos outros pacientes com gripe suína, os obesos têm sido acometidos por trombose venosa, embolia pulmonar e disfunção dos rins", diz o supervisor da UTI do Emílio Ribas e chefe do laboratório de pesquisa em doenças renais da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Antonio Carlos Seguro. Há 33 anos no Emílio Ribas, o médico atravessou epidemias às dezenas. Veio dessa bagagem a ideia de adotar nos pacientes graves com o vírus H1N1 a mesma abordagem usada em pessoas com leptospirose. Em entrevista ao Estado, ele fala sobre os desafios e descobertas do tratamento dos casos graves da gripe suína e diz que a pandemia está cedendo, mas alerta para os riscos de nova contaminação em 2010. "O H1N1 é muito novo, então, o que estamos fazendo é construir uma experiência de atendimento que nos prepare para uma mais forte pandemia no próximo inverno." Obesos com H1N1 morrem mais? Na UTI do Emílio Ribas, nós tivemos quatro óbitos de pacientes com a gripe suína, dos quais dois eram obesos. É um índice maior do que o verificado entre não obesos, com duas mortes entre oito pacientes, considerando-se porém que apenas um era previamente saudável. A outra morte foi de uma não obesa que já tinha a saúde comprometida. Entre os 14 casos graves que atendemos aqui, 6 eram obesos. Em Michigan, nos EUA, eles são maioria entre os internados em estado grave. De 10 pacientes com gripe suína na UTI, 9 eram obesos, dos quais 7e obesos mórbidos. Por que a gravidade observada em obesos? Ainda não sabemos por que a obesidade é um fator de risco entre infectados pelo H1N1 especificamente. Mas testes anteriores - como os realizados pela Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, em 2007, com camundongos infectados com outros vírus influenza - mostraram que, embora os dois grupos adoeçam logo, 42% dos camundongos obesos morreram em sete dias, devido à baixa imunidade, enquanto 5,5% dos camundongos com peso normal morreram até o nono dia da infecção. Pacientes obesos têm imunidade reduzida e, portanto, são mais suscetíveis a infecções e doenças inflamatórias. Entre os infectados com o H1N1 não tem sido diferente? No caso da gripe suína, pacientes obesos têm apresentado, além de alterações graves na função pulmonar, baixa oxigenação e queda de pressão, observadas em outros pacientes, doenças como trombose venosa, embolia pulmonar e mal funcionamento dos rins. Isso nos preocupa muito. Não sabemos bem por que eles têm desenvolvido uma disfunção renal tão severa e são acometidos por estas outras doenças de modo tão importante. Como é o tratamento na UTI? O H1N1 é muito novo, então, o que estamos buscando é construir uma experiência atual do atendimento com base nos tratamentos adotados anteriormente com influenzas ou mesmo em pacientes com outras enfermidades como a leptospirose. Estamos fazendo de tudo para encontrar os melhores e mais rápidos procedimentos. Assim, nos preparamos também para uma eventual nova e mais forte epidemia que possa vir no próximo inverno. Qual seriam as semelhanças entre a gripe suína e a leptospirose? Embora a leptospirose seja causada por uma bactéria, não por um vírus, como o H1N1, e transmitida de forma diferente, pelo contato com a urina de ratos, identificamos semelhanças nos sintomas e desenvolvimento das doenças. O quadro pulmonar grave e a função renal prejudicada são as mais notadas até o momento. E como o tratamento da leptospirose pode ser usado no H1N1? A diálise precoce e diária, desde o início do tratamento, é um dos procedimentos usados em leptospirose e que adotamos no tratamento dos casos graves de gripe suína com insuficiência renal. Entre os pacientes com leptospirose, isso foi responsável pela redução da taxa de mortalidade de 60% para 20% entre os casos graves que chegam à UTI. Outras medidas estão sendo adotadas, como entubar o paciente infectado ou com suspeita de gripe suína que tenha insuficiência respiratória. Seu pulmão passa a funcionar com a ajuda de ventilação mecânica. E a média de permanência na UTI tem sido de duas a três semanas para que possamos observar todo o processo de recuperação. A ideia é que isso seja adotado pelo Brasil. Casos graves também podem ser medicados com Tamiflu? Sim, os pacientes graves também são medicados com o fosfato de oseltamivir (Tamiflu) desde os primeiros sintomas. Antes, acreditava-se na sua eficácia se prescrito somente nas primeiras 48 horas da infecção. Mas já se verificou que o medicamento funciona mesmo com prescrição tardia. No caso dos obesos, tomamos alguns cuidados especiais, como empregar o dobro da dose. Já outras drogas que são hidrossolúveis têm as doses calculadas de acordo com o peso ideal para a altura do paciente e não o peso real, para evitar superdosagem. Eles recebem também antibióticos para infecções por outras bactérias que podem causar a pneumonia. Qual o índice de mortalidade entre os pacientes da UTI? A taxa entre os pacientes graves com H1N1 internados na UTI do Emílio Ribas é, até o momento, em torno de 30%, dentro dos padrões já verificados em UTIs nos EUA. Os pacientes com gripe suína são isolados de outros na UTI? Sim. Reservamos 17 leitos para os pacientes graves infectados pelo H1N1 ou com suspeita de gripe suína. Temos condições de dobrar a capacidade para 34 leitos, mas acredito que não será necessário. A nossa impressão é de que a epidemia está cedendo. A reserva de leitos para o H1N1 não prejudica outros pacientes? Nós continuamos internando outras patologias. Na semana passada, por exemplo, apenas 6 dos 17 estavam ocupados por outros doentes. O Emílio Ribas dispõe de um sistema de pressão negativa que expulsa o ar contaminado para fora da UTI. Por isso e pela experiência com doenças infecciosas, decidiu-se que concentraríamos os casos mais graves. Quem é: Antonio Carlos Seguro É supervisor da UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas Chefia o laboratório de pesquisa em doenças renais da Faculdade de Medicina da USP