O último da estirpe de Brando e James Dean

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo

Paul Newman irrompeu no cinema norte-americano como garoto-propaganda do Método, o estilo de representação que Lee Strasberg desenvolveu no Actor?s Studio, baseado nas teorias do russo Stanislawski. Ele, Montgomery Clift, James Dean e Marlon Brando, talvez o maior ator do cinema. Newman era o último representante desta estirpe rara. No início de sua carreira, ele se beneficiou do desaparecimento prematuro de Dean, a quem substituiu no elenco de Marcado pela Sarjeta, de Robert Wise. No começo, levou o Método tão a sério que virou um ator maneirista. Ficou célebre o anúncio que publicou na imprensa para se desculpar por seu papelão, quando O Cálice Sagrado, de Philip Saville, estreou na TV dos EUA. Por volta de 1960, podados os excessos, começou a fase gloriosa de sua carreira. Como herói de Tennessee Williams - Gata em Teto de Zinco Quente e Doce Pássaro da Juventude, ambos de Richard Brooks -, estabeleceu um tipo de herói romântico atormentado e rebelde. Seguiram-se a essas criações outras não menos memoráveis em dois clássicos de Martin Ritt (O Indomado e Hombre), mais dois de George Roy Hill (Butch Cassidy e Golpe de Mestre) e dois de John Huston - neste caso, se Roy Bean, o Homem da Lei é extraordinário como revisão do western, O Emissário de Mackintosh é só razoável, como thriller. E não se pode esquecer do revolucionário de Exodus, de Otto Preminger. Nem do jogador Eddie Felson de Desafio à Corrupção, de Robert Rossen, cuja seqüência, A Cor do Dinheiro, de Martin Scorsese, lhe valeu o Oscar de 1986. Ser apenas ator não lhe bastava. Foi diretor talentoso, oferecendo belos papéis à mulher, Joanne Woodward, em filmes sobre pequenas vidas, seres solitários e tristes, o contrário do que ambos encarnavam como mitos do cinema. Piloto de corridas, criador de uma linha de molhos que aumentou sua fortuna - mas ele doou tudo o que ganhou com a culinária para projetos sociais -, Newman nunca se recuperou do suicídio do filho. Foi pesado demais, como se as ficções que interpretava invadissem sua vida.