O triste legado de uma conquista obtida há 3 milhões de anos

Fernando Reinach, fernando@reinach.com - O Estado de S.Paulo

Para entender o que ocorreu em grandes conflitos militares, os arqueólogos escavam os campos de batalha. Recuperando as armas e os mecanismos de defesa, são capazes de reconstituir o que aconteceu. Da mesma maneira, para entender as "guerras" que ocorreram entre os animais e os vírus, os biólogos têm "escavado" o genoma dos animais em busca de vestígios das batalhas. Quando um retrovírus infecta um animal, cópias de seu genoma se inserem no genoma do animal infectado e podem ser passados adiante ao longo das gerações. Foi comparando o genoma de macacos e seres humanos que uma batalha que ocorreu faz mais de 3 milhões de anos entre o vírus PtERV e a proteína de defesa TRIM5 foi reconstituída. A conseqüência dessa batalha é que hoje chimpanzés e gorilas são resistentes ao vírus da aids enquanto nós somos suscetíveis. VITÓRIA DE PIRRO No genoma dos chimpanzés existem mais de cem cópias de diversas versões do vírus PtERV. As diferenças entre as cópias demonstra que esses vírus infectaram os macacos 3 milhões de anos atrás. No genoma humano não existe nenhuma cópia desse vírus. Por que ele não infectou seres humanos? Uma possível explicação é que uma proteína de defesa chamada TRIM5 foi capaz de bloquear o ataque do vírus na espécie humana, mas incapaz de bloqueá-lo nos macacos. Para testar essa hipótese, os cientistas "ressuscitaram" o vírus PtERV a partir do genoma dos macacos e testaram sua capacidade de infectar células humanas e de macacos. Descobriram que o vírus ainda infecta macacos, mas continua incapaz de infectar humanos. Também demonstraram que o fato de os humanos serem resistentes ao vírus se deve à proteína de defesa TRIM5. A proteína TRIM5 humana, quando colocada em células de macacos, faz com que elas se tornem resistentes ao vírus, e essa resistência é conseqüência de uma única mutação. A explicação, portanto, é que há 3 milhões de anos, durante nossa guerra contra o PtERV, em algum de nossos ancestrais surgiu uma mutação no gene da TRIM5 que nos tornou resistentes. Levamos vantagem sobre os macacos. Mas qual o legado da batalha? A conseqüência é que deixamos de ser resistentes ao vírus da aids. Repetindo os testes com o vírus da aids, os cientistas demonstraram que a mutação que alterou a TRIM5, lá no nosso distante passado, ao mesmo tempo em que nos tornou resistentes ao PtERV fez com que perdêssemos a capacidade de nos proteger contra o HIV. Os chimpanzés e os gorilas, por terem a TRIM5 original, são hoje resistentes ao HIV. Nós, por carregarmos até hoje a mutação, somos suscetíveis ao vírus da aids. Foi uma vitória no passado que está custando caro para a espécie humana no presente. Mais informações em Restriction of an extinct retrovirus by the human TRIM5 alfa antiviral protein, na Science, volume 316, página 1.756, 2007.