''O pessoal desaprendeu a jogar tomate''

Afra Balazina - O Estado de S.Paulo

Expulso da ONG que criou, o Projeto Baleia Franca, ele afirma que ativistas se deslumbraram com o poder e perderam a verve

Expulso da entidade que ele mesmo criou, o ambientalista e jardineiro José Truda Palazzo Jr., de 46 anos, diz que ainda acredita nas organizações não governamentais de "fundo de quintal". Por criticar instituições que ?se vendem por patrocínio?, Truda chegou a ser chamado de "encrenqueiro". Ele, que ataca a atuação do governo na área ambiental, foi expulso do Projeto Baleia Franca. Mas diz que continuará atuando na preservação marinha. O presidente do conselho administrativo do Projeto Baleia Franca, Renato Sehn, reconhece a importância do ambientalista. "No entanto, além de ter uma forma de gestão centralizadora, ele, por algumas vezes, tomou atitudes que o conselho da ONG julgou equivocadas e que resultaram em prejuízos financeiros e demandas judiciais. De acordo com Sehn, Palazzo Jr. "não conquistou nada sozinho". "Em nenhum momento o afastamento dele se deu por motivos políticos, muito menos financeiros. Nosso único objetivo é que o trabalho do Projeto Baleia Franca sobreviva de forma séria, reconhecida e idônea." A Petrobrás, que deve patrocinar o grupo até setembro de 2010, disse não ter ingerência sobre a escolha dos gestores dos projetos que apoia. Na entrevista concedida ao Estado, o protetor das baleias ressalta que "militância ambiental é um eterno construir de inimigos poderosos". Como o sr. vê a sua fama de "encrenqueiro"? É um elogio. Está faltando encrenqueiro neste País. O pessoal desaprendeu a jogar tomate. Houve um deslumbramento com essa coisa de os governos ditos de esquerda chegarem ao poder e as pessoas passarem a ocupar os palácios e gabinetes. Agora, elas ficam constrangidas de criticar. Mas tem de jogar tomate, sim. A militância ambiental é um eterno construir de inimigos poderosos. É importante, no entanto, criar encrencas efetivas, que deem resultados. O que pensa sobre o profissionalismo das ONGs ambientais? Uma coisa é profissionalismo, outra é se vender. O profissionalismo em si é bom. Temos o exemplo positivo da Conservação Internacional e da SOS Mata Atlântica. Mas a ONG não pode se submeter à censura, deixar comprarem o seu silêncio. E eu ainda acredito nas ONGs de fundo de quintal, que reúnem um grupo de loucos tentando melhorar o mundo. O que levou à sua saída do Projeto Baleia Franca? A gente vinha num processo de desgaste interno bastante grande, desde que o Ministério Público de Tubarão (SC) resolveu perseguir o projeto, alegando que nosso patrocínio da Petrobrás era irregular - aliás, diga-se de passagem, todos os outros projetos ambientais, como o Tamar, têm exatamente o mesmo tipo de contrato. Mas há uma interpretação da minha ex-equipe de que, para resolver esse problema e para a Petrobrás nos ajudar mais, eu deveria ficar quietinho, coisa que eu não vou fazer nunca. Dos 27 anos do projeto, não tivemos patrocínio por 22 anos. Boa parte do trabalho foi feito com dinheiro dos seus pais? Sim, com a minha mãe colocando os aneizinhos dela no prego da Caixa Econômica Federal. Foi o fato de criticar o governo federal que incomodou? Isso. E também a minha recusa de deixar políticos da região virem a eventos do projeto e se aproveitarem das atividades do projeto. Mas o que houve mais recentemente foi que os colaboradores foram buscar outros patrocínios e o que se ouviu foi que o dinheiro só viria se eu saísse. Como avalia a atuação do governo Lula na área ambiental? No governo "Lula Rousseff", principalmente neste segundo mandato, nós estamos vendo uma desconstrução da política ambiental no Brasil que não tem precedentes. E é preciso criar estratégias para evitar que 20, 30 anos de avanço sejam postos fora por um governo que só quer agradar empreiteira e agronegócio. Como pretende dar continuidade ao seu trabalho? Os 27 anos no projeto foram superúteis e, hoje, a população de baleia franca está em expansão. Nos anos de militância, não estive sozinho, mas tive papel importante na criação do Parque Nacional de Fernando de Noronha e de duas APAs (Área de Proteção Ambiental) em Santa Catarina. Por um lado, dá uma melancolia ver esse trabalho ser aproveitado para interesses políticos e comerciais, daqui para a frente. Por outro, estou entusiasmado com os novos desafios.