O fato e a foto

Mary Del Priore* - O Estado de S.Paulo

O sentimento é geral: Brasília dá nojo! Dá asco. Não a cidade arrancada do areal por Lúcio Costa e Niemeyer, mas o que ela representa: nossa vida política. Lá tudo é falso. Falsos remédios para falsos problemas, falsos sorrisos, falsas palavras, falsos projetos, falsas promessas, falsos seios, falsos dentes, falsos homens nos braços de falsas mulheres, falsa democracia nas mãos de falsos políticos. Brasília sinaliza como o espaço onde alguns gozam do privilégio de escapar às regras do Direito. Onde muitos fazem recuar, sem o esforço que não o exigido pela conivência dos colegas, o primado da ética. Ela alimenta uma política baseada em regras que definem quem e quando poderá se valer das vantagens de não sofrer castigos. Regras implícitas e não escritas, que são confortadas pela prática sistemática da impunidade. Regras, sublinhe-se, concretas em relação aos códigos da ética mais elementar, hoje, cada vez mais abstratos. Brasília representa, enfim, para nossa tristeza, a derrota da Lei, a Justiça adormecida. Se a corrupção parece apenas um problema institucional que exige respostas graças à aplicação de reformas, para muitos de nós, ela ainda é um problema moral. O papel das lideranças políticas é o de encarnar valores que as obriguem a se engajar pessoalmente num programa concreto que previna, dissuada, detecte e sancione a corrupção. Programa que barre a transferência dos bens públicos para as contas privadas. Mas nossa classe política completamente desacreditada, enfurnada em escândalos financeiros e outros, bem ao contrário, só pensa em defender interesses particulares. Nenhuma dimensão moral à vista. Palavras do vocabulário ético, escritas com letras maiúsculas, como Sinceridade, Igualdade e Justiça, são ignoradas olimpicamente. Pegos em flagrante delito de mentira, os políticos negam com convicção infantil, posando de vítimas. A classe parece ignorar também que o imaginário da corrupção tem uma dialética própria. A gente começa a acreditar que a corrupção está em toda a parte. Depois nos convencemos de que todos os políticos são corruptos. Por fim, entendemos que o objeto mesmo de todo o governo é a corrupção. Mas esta Brasília que inspira asco, onde tudo é falso, existe, também, para lembrar que somos todos, potencialmente, falsários. Falsários pois nos acomodamos numa espécie de honesta passividade, como se esta traduzisse uma guerra silenciosa. Nossa falsa luta consiste em criticar, de longe e sem muito esforço, a corrupção que se eterniza. Sentados diante de nossas televisões vivemos o paradoxo de ter acesso a todas as informações - e este é um dos direitos de cidadania - sem conseguir, contudo, reagir. Afinal, a telinha despolitiza o político, como já justificou um filósofo. Olhamos o espelho deformado do mundo em que vivemos, nos contentando com a imagem distorcida que aí vemos. Afinal, não somos nós. São eles. Engano. Somos nós também. Esquecemos que cabe a nós lutar contra a banalização da opinião pública. Cabe a nós restabelecer, de alguma forma, as regras do Direito ditadas pelos textos da Lei. Cabe exclusivamente a nós lutar contra a pequena corrupção que já invadiu nosso cotidiano na forma de "dinheirinhos", para o guarda na frente da escola, para o fiscal de obras, o funcionário do cartório, ou agente público, cuja baixa remuneração convida a corromper e a ser corrompido. Temos que acordar antes de começar a exibir, como em Brasília, falsos sorrisos, falsos dentes, falsas promessas.