Nova gripe provoca corrida a hospitais

Adriana Carranca - O Estado de S.Paulo

Em busca de diagnóstico ou tratamento, pacientes vão e voltam

Na manhã da última terça-feira, Jenifer, de 1 ano e 4 meses, acordou ardendo em febre. A mãe, Márcia Guimarães, de 33 anos, deu a ela provinil (ibuprofeno) e foi trabalhar. Ao voltar, às 18 horas, o termômetro ainda marcava 38,5°C. "Pensei logo na gripe suína", diz. Daí em diante, mãe e filha viveram uma peregrinação por dois hospitais e uma Assistência Médica Ambulatorial (AMA), em 12 horas. Com o aumento dos casos de gripe A(H1N1) em São Paulo, que concentra a maioria dos óbitos no País - quase 70 no Estado -, houve uma corrida aos hospitais públicos e privados. Como gripes comuns são frequentes nesta época e os sintomas da suína, quase os mesmos - febre, falta de ar, tosse, coriza, dor de cabeça, dores musculares e nas articulações - muitos procuraram os prontos-socorros por precaução. E enfrentaram uma saga em busca de respostas. Márcia correu com a filha para o Hospital Estadual Regional Sul, em Santo Amaro. A pediatra receitou ibuprofeno (que ela já havia tomado) e mandou mãe e filha para casa. "Se a febre persistir, voltem imediatamente", orientou. Jenifer acordou queimando. A mãe recorreu à AMA do Jardim Santa Terezinha, onde mora. Esperou uma hora com a menina no colo para o médico recomendar que voltassem ao hospital "imediatamente". Elas foram em uma ambulância ao Hospital Geral de Pedreira. Mas a plantonista disse que "não havia com que se preocupar" e mandou as duas para casa: "Se a febre não ceder, voltem." Imediatamente, é claro. Márcia esbraveja: "É o que eu estou fazendo! Mas, quando a febre vem e eu volto com a menina para o hospital, o médico manda para casa." O procedimento é o mesmo na rede pública e particular. Nesse vai e vem, os hospitais ganham longas filas, médicos ficam sobrecarregados e pacientes, confusos. Com os sintomas da gripe, Vanessa Vieira Arruda, de 23 anos, procurou o Hospital Alvorada, do convênio. Após uma hora de espera, foi medicada para a febre e mandada para casa. Desconfiada, procurou um particular. Pagou R$ 288 pela consulta no Hospital Oswaldo Cruz, pela qual aguardou duas horas. "Havia umas 30 pessoas na minha frente com os sintomas", diz. Atendida, o médico disse que só poderia pedir o exame ou interná-la se a infecção estivesse em estágio avançado. As Secretarias Municipal e Estadual da Saúde informaram seguir o protocolo do ministério, que prevê internação somente a pacientes com "síndrome respiratória aguda grave, febre superior a 38°C, tosse e dispneia". Mesmo com os sintomas, se o quadro for leve, o paciente é mandado de volta para casa. Grávida de 7 meses, Nínize Floriane, de 19 anos, passou o fim de semana com 38°C de febre e dores. Na noite de domingo, procurou a AMA, em Heliópolis. "Os dois clínicos se recusaram a me atender porque eu tinha os sintomas da tal gripe." Ela foi encaminhada para Hospital Ipiranga. De ônibus, porque "não tinha ambulância". Trinta minutos no trânsito e uma hora de espera depois, o ginecologista sugeriu que ela procurasse um clínico geral. No hospital do convênio, o Santa Amália, o clínico a mandou de volta para casa. Mas Nínize acordou ardendo em febre e vomitando. Voltou à AMA. Dessa vez foi atendida, mas orientada a voltar ao Hospital Ipiranga. A saga só terminou na quinta-feira, com o diagnóstico de virose. "A situação está insustentável", diz um médico do Hospital de Pedreira. "Falta orientação à população . Um espirro e corre-se para o pronto-socorro." Hélcio Marcelino, secretário do Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde no Estado de São Paulo, diz que funcionários da saúde, como enfermeiros, só tiveram orientação sobre a gripe suína na semana passada. Despreparo das unidades básicas ajudou a sobrecarregar o PS. Só na sexta, as 115 AMAs da capital receberam o medicamento oseltamivir (Tamiflu). Recebem o remédio pacientes com sintomas explícitos ou grupos de risco - idosos, crianças até 2 anos, gestantes, doentes crônicos ou com imunodeficiência - antes mesmo de diagnosticados com o vírus A(H1N1).