No Rio, pacientes enfrentam filas

Clarissa Thomé - O Estado de S.Paulo

?Estado? acompanhou a semana de pessoas com suspeita de gripe; além do tempo de espera, falta informação

Flaviana, de 30 anos, tinha febre, dores na cabeça e no corpo. Foi para casa, com a recomendação de voltar ao hospital caso piorasse. Regina, de 44 anos, apresentava os mesmos sintomas, mas teve de assinar um termo de responsabilidade, comprometendo-se a retornar ao hospital caso não melhorasse. Vinícius, de 8, tinha febre alta e dor de garganta. Recebeu prescrição para tratar sinusite. O Estado acompanhou durante toda a semana passada esses e outros nove pacientes que procuraram atendimento no polo de acolhimento para a gripe suína, montado no Hospital Municipal Miguel Couto, na zona sul do Rio. De todos, somente uma retornou ao polo. Nenhum deles ficou internado. A maioria deixou o hospital com outros diagnósticos: pneumonia, sinusite, faringite e até anemia. Além dos sintomas em comum, que os levaram a temer a gripe suína, os pacientes também compartilharam o tempo de espera, as dificuldades para chegar à instituição e as informações desencontradas. PROCURA Quase 40 quilômetros separam a casa da doméstica Regina Rodrigues de Oliveira, no município de São Gonçalo, do Hospital Miguel Couto. Mas foi ali que ela buscou o primeiro atendimento, depois de três dias de febre e dores no corpo. "No início achei que fosse um resfriado comum. Mas no fim de semana fui piorando. Hoje (segunda-feira) vim trabalhar (no Leblon) e a patroa me mandou para o médico", contou Regina. Foram 40 minutos de espera até conseguir passar pela triagem - e aguardar mais uma hora para chegar ao consultório. Ao lado dela, a diarista Flaviana Freitas de Souza tinha falta de ar e estava sem forças para ficar de pé, esperando o atendimento. Recostava-se no colo do marido, enquanto o irmão guardava o lugar na fila. Quando a enfermeira fez a triagem entre os que estavam de pé, não foi até o banco em que a diarista estava. "Eu estava verde de falta de ar e ela não quis nem saber", reclamou. Ela esperou ainda uma hora para ser atendida. Vinícius Rodrigues da Silva tem atendimento prioritário por ser criança. Chegou com dor de garganta e febre de 39,5°C. O hemograma e o raio X apontaram sinusite. Na terça, já estava "90% melhor", disse a mãe Selma dos Santos Sete, de 38 anos. Já Flaviana e Regina tiveram diagnóstico de suspeita de gripe suína. As duas receberam receita de antibiótico, xaropes, antitérmicos e a recomendação de voltarem caso o estado de saúde agravasse. Regina teve de assinar um termo, comprometendo-se a retornar em 72 horas, mas não foi orientada, por exemplo, a ficar afastada da neta de 2 meses, que vive com ela. Nenhuma das duas tinha dinheiro para comprar os medicamentos - a farmácia do hospital só tinha a amoxicilina receitada para Regina. Flaviana precisava gastar R$ 73. Regina, mais R$ 58, que foram dados pelo chefe. "Comprei só o antibiótico. Espero que faça efeito. Meus filhos de 3 e 5 anos não tiveram os sintomas", disse Flaviana. Na quinta, não havia nem amoxicilina na farmácia do hospital. A assessoria da Secretaria Municipal da Saúde informou que foi um desabastecimento pontual, provocado pelo atraso de um fornecedor. Como Regina, Flaviana também mora a cerca de 40 quilômetros do Miguel Couto, na favela de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio. "O posto lá é lotado. Os médicos mandam a gente procurar o posto perto da Cidade de Deus e a gente tem medo." Flaviana conseguiu uma carona para chegar ao hospital, na segunda, mas não retornou ao polo de acolhimento, mesmo os sintomas tendo persistido. "Eles estão dizendo na televisão toda hora que a gente não deve ir ao posto. Deram até um número para a gente ligar. A médica disse que eu estava com sintomas da gripe nova e que era para voltar, mas o polo é cheio", disse na quarta. Diante da insistência da reportagem para que buscasse atendimento, já que não havia melhorado, deixou de atender às ligações do Estado. Na casa de Regina, em São Gonçalo, algumas medidas foram tomadas, por intuição. Mesmo com o tempo frio, o ventilador fica ligado o dia inteiro e as janelas abertas. Uma fralda da pequena Vitória serve para aparar tosses e espirros da avó. "A tosse é tanta que parece que o pulmão vai explodir", disse na quarta. No dia seguinte, enfrentou 2 horas em uma van, e a desconfiança dos outros passageiros por causa da máscara que usava, para voltar ao Miguel Couto. Só na quinta, recebeu panfleto com orientação para manter-se afastada de idosos e bebês. "Podiam ter falado antes. Mas eu não devo ter essa gripe, não. Se não, a minha neta já tinha adoecido."