No Rio, paciente não chega à fila

Felipe Werneck, RIO - O Estado de S.Paulo

No Estado, pessoas com insuficiência cardíaca morrem antes de entrar para lista de espera

Apenas duas pessoas fizeram transplante de coração no Rio em 2006. No primeiro semestre deste ano, foram somente três. Números do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) mostram que no ano passado o Estado ficou em nono no ranking nacional. São Paulo foi o primeiro, com 56, seguido por Paraná (26), Minas (14), Rio Grande do Sul (13), Ceará (12), Pernambuco (8), Santa Catarina (7) e Rio Grande do Norte (4). O Rio só ficou à frente da Paraíba, de Sergipe e do Pará, que tiveram um caso cada. Em Goiás também foram realizados dois - o total, no País, foi de 147 transplantes de coração. Criado há dez anos, o Rio Transplante tem hoje 7.985 pessoas na lista de espera por órgãos - apenas oito aguardam coração. No Estado, pacientes com insuficiência cardíaca morrem antes de entrar na fila. "Vários pacientes morreram no meio do processo. É muito comum e é muito triste", afirmou a diretora do Rio Transplante, Ellen Barroso. Ela é cardiologista com especialização em transplante no Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris, na França, e assumiu o cargo há três semanas. Ellen apontou o custo dos exames como uma das causas. O Sistema Único de Saúde (SUS) paga R$ 22 mil por transplante de coração, mas não remunera o pré-operatório, que não sai por menos de R$ 3 mil. São exames caros como cateterismo, sorologia e diagnóstico por imagem. "É aí que empaca", avaliou Ellen. Antes de realizá-los, o paciente não pode entrar na fila. Mas como o Ceará, um Estado mais pobre que o Rio, conseguiu fazer 10 transplantes a mais? "O que eles têm? Apoio político", afirmou Ellen. Ela elogiou a equipe do Hospital de Messejana, responsável pelo programa cearense. O Rio Transplante é responsável pela notificação dos casos, captação e distribuição de órgãos. Tem 49 funcionários e no ano passado recebeu verba de R$ 400 mil. "O problema principal não está aqui, está na ponta. Além de melhorar a possibilidade de acesso aos exames diagnósticos, precisamos de investimento nos serviços de cirurgia cardíaca e nas equipes", afirmou a médica. Ela também defende a revisão do pagamento feito pelo SUS. O secretário de Estado da Saúde, Sérgio Côrtes, reconheceu que o total de transplantes realizado no Rio está "muito longe" do necessário. Para ele, o fato de haver apenas oito pessoas na fila mostra o desestímulo das pessoas. "Como aqui não se faz, já existe um desestímulo." A grande aposta do governo no setor é uma parceria entre o Instituto Estadual de Cardiologia Aloísio de Castro (Iecac) e o Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras. "Vamos fazer uma grande reviravolta na gestão. Agora, os dois vão funcionar numa co-gestão, vão passar a ser encarados como um hospital só", afirmou Côrtes. Um termo de cooperação técnica já foi assinado com o Ministério da Saúde, e a expectativa do secretário é a de que tudo esteja definido no segundo semestre. Para um transplante, diagnóstico correto e rápida notificação de morte encefálica são essenciais. Depois, é preciso saber se há consentimento. Em média, 35% das famílias se negam a doar, disse Ellen. Após a retirada, um coração precisa ser implantado no período máximo de seis horas. Foram notificados 249 casos de morte encefálica no Estado no primeiro semestre deste ano, que resultaram em apenas 38 doações efetivas de órgãos. Por diversos motivos: negativa familiar, parada cardíaca, septicemia, choques refratários, entre outros. "Em 2000, os oito casos deram grande entusiasmo, mas não houve apoio e investimento, o que se traduziu em queda nos anos seguintes", disse Ellen. O Estado tem hoje 10 centros credenciados pelo SNT para transplante cardíaco.