No País, 3 em cada 10 bebem antes de dirigir

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

Estudo realizado pela Unifesp em 5 cidades mostra que brasileiro ainda subestima riscos de dirigir alcoolizado

Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que 3 em cada 10 motoristas ainda ignoram o risco de consumir bebidas alcoólicas e logo depois assumir a direção de um carro. Os pesquisadores acompanharam operações policiais realizadas neste ano e no ano passado nas ruas de cinco cidades em noites e madrugadas de sexta-feira e sábado, quando mais se bebe. Submeteram-se ao bafômetro 4.054 motoristas. Desse total, 30,3% tinham alguma quantidade de álcool no sangue. E 19,3% tinham álcool no organismo em níveis superiores ao permitido por lei. De acordo com a legislação brasileira, o índice máximo tolerado é de 0,06 grama de álcool por 100 ml de sangue - algo como dois chopes, que são suficientes para comprometer os reflexos do motorista e levar a acidentes. Dirigir embriagado é uma infração gravíssima do Código Brasileiro de Trânsito. As punições incluem uma multa e a suspensão do direito de dirigir. Das cinco cidades estudadas, as que mais tiveram motoristas com álcool no organismo foram Vitória, com 41,6%, e Belo Horizonte, com 38% (veja os resultados no quadro ao lado). Os motoristas que aceitaram participar da pesquisa ainda responderam a um questionário, que mostrou que aqueles que mais bebem antes de dirigir são homens e solteiros e têm entre 21 e 30 anos. "São os nossos filhos jovens", resume o médico Ronaldo Laranjeira, que liderou a pesquisa ao lado do colega Sérgio Duailibi, ambos da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), da Unifesp. Os dois apresentaram o trabalho ontem de manhã num evento realizado pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) do qual também participaram o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o presidente da influente ONG americana Mothers Against Drunk Driving (Mães contra Motoristas Alcoolizados), Glynn Birch. EMPENHO O ministro Temporão afirmou que o governo está empenhado em aprovar leis que proibirão a venda de bebidas alcoólicas nas rodovias e que reduzirão a publicidade de produtos como a cerveja, que hoje não sofre restrições. Este último caso tem sido a principal briga do governo federal com a indústria de bebidas alcoólicas. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) iria regulamentar a propaganda das cervejas, limitando por exemplo o horário de veiculação de anúncios na TV. No entanto, a medida foi impedida de seguir adiante sob o argumento de que esse tipo de mudança teria de ocorrer por meio de lei, e não de um ato da Vigilância Sanitária. Agora o governo federal estuda se o fará por meio de uma medida provisória ou se enviará um projeto de lei ao Congresso Nacional. No evento de ontem, o ministro da Saúde disse ainda que a Anvisa está estudando a criação de normas que obrigarão supermercados a vender bebidas alcoólicas em lugares isolados, e não ao lado de refrigerantes, como ocorre hoje. "O fator cultural ainda tem um peso grande para que o Brasil seja tão tolerante à bebida alcoólica", criticou Temporão. "Vemos pais que deixam os filhos experimentar cerveja, vemos gente dizendo que toma uma ?caninha? antes do trabalho para dar energia..." IDADE MÍNIMA O presidente da ONG Mothers Against Drunk Driving apresentou ao ministro da Saúde o exemplo dos Estados Unidos. Em 1984, o país endureceu as regras do álcool e subiu de 18 para 21 anos a idade mínima para o consumo de bebidas. Segundo Glynn Birch, esses três anos significaram mil vidas salvas a cada ano nos EUA em potenciais acidentes de trânsito que vitimariam motoristas adolescentes alcoolizados. Ele sugeriu que o Brasil seguisse esse exemplo. Temporão, porém, disse que esse tema não está em discussão neste momento no Brasil: "Com 16 anos você pode votar, com 18 anos você pode dirigir... Essa é uma questão que estaria um pouco distante do padrão cultural prevalente na sociedade brasileira." Ronaldo Laranjeira, da Unifesp, acredita que a mudança seria positiva, mas concorda com o ministro que este não é o momento. "Antes de ampliarmos a idade mínima, nós temos de garantir que a nossa lei dos 18 anos seja cumprida pelos bares e supermercados. Infelizmente ainda estamos longe disso."