Nem tudo que é verde é bom

Lola Felix - O Estado de S.Paulo

Plantas servem de matéria-prima para milhares de medicamentos

"Um chazinho de ervas, se não resolve o problema, mal não pode fazer." Mães e avós repetiam essa frase com a segurança de quem já testou e acertou a receita várias vezes. Mas nem sempre um chá é só um "chazinho". Exemplo disso foi o chá verde que a atleta Jaqueline, então titular da seleção brasileira feminina de vôlei nos Jogos Pan-americanos, alegou ter bebido só para combater umas celulites. Coisa de mulher... O exame antidoping comprovaria, mais tarde, que havia algo mais na bebida. A urina da atleta continha sibutramina, um fármaco usado para o tratamento da obesidade que pode ter efeito dopante. Chá verde ou banchá, daquele que se compra no mercado municipal, tem dezenas de efeitos benéficos, como o poder antiinflamatório e de controle do colesterol. Muitos viram objeto de teses de pesquisadores, que já não torcem mais tanto o nariz para as plantinhas - como acontecia até poucos anos. Mas o banchá tem também seu lado negro. "Ele possui duas vezes mais cafeína do que o café", diz o biomédico e neurocientista Renato Sabbatini, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Campinas (Unicamp). Em grandes doses, pode causar insônia e ansiedade. Ou seja, a tese da vovó, de que plantinhas não podem causar qualquer mal, é ingênua. Prova disso é que boa parte dos medicamentos, e até algumas drogas ilícitas, são feitas de plantas. Quem busca a cura em uma planta geralmente não é muito fã dos medicamentos industrializados. A aposentada Maria de Lourdes Costa de Paula, 66 anos, se recusou a tomar remédios tradicionais para controlar o colesterol alto. "Tive ótimos resultados com a quitosana." Mas a planta utilizada por Maria de Lourdes não veio de mercados ou feiras. A aposentada faz questão de comprá-la na farmácia, na forma de cápsulas. Ela também não dispensa a consulta médica antes de ingerir qualquer substância, mesmo que fitoterápica. Diferentes das tradicionais garrafadas vendidas no meio da rua, os fitomedicamentos (antes chamados de fitoterápicos) são legalmente registrados na Agência Nacional de VigiLância Sanitária. (Anvisa). Em sua composição, só há derivados de plantas medicinais. E essa não são as únicas exigências. "Só fabricamos fitomedicamentos com ativos cuja ação benéfica tenha sido confirmada em pesquisas", diz o gerente de produtos do Herbarium Laboratório Botânico, Renato Klaumann Júnior. Presidente da Associação Paulista de Medicina, Jorge Curi diz que os fitomedicamentos devem ser receitados por um médico, que tem a tarefa de expor ao paciente a relação entre risco e benefício do produto. "É preciso ter o mesmo cuidado que se usa para receitar qualquer medicamento alopático: avaliar o perfil do paciente, possíveis interações medicamentosas, tempo de duração do tratamento, entre outros fatores", alerta Curi. A estudante Laura Gurgel, de 20 anos, não procurou um especialista antes de tomar guaraná em pó, registrado na Anvisa como fitoterapêutico. "Sabia que dava mais ânimo e fôlego, e realmente me beneficiei dos efeitos dele", diz ela. Nem sempre é assim. O chá que a atleta Jaqueline tomou, por exemplo, poderia ser um falso fitoterapêutico. "Pode acontecer de um produto ser vendido como tal e conter ativos sintéticos", avisa Klaumann. Fitomedicamentos são vendidos em farmácias. Garrafadas, chás (enquadradros pela Anvisa como alimentos) e plantas medicinais podem, eventualmente, ser usados e até produzir seus pequenos milagres. No entanto, seu uso fica por conta e risco do indivíduo. Curi, no entanto, acha que o uso constante de plantas medicinais para emergências (uma azia ou dificuldade em dormir, por exemplo) pode mascarar problemas graves que precisariam de um tratamento mais sério. Para saber se um fitoterápico está registrado pela Anvisa, o consumidor pode acessar o site. Essa atitude pode evitar que a pessoa consuma algo suspeito. Infelizmente, não são só atletas pegos no antidoping que descobrem que nem tudo o que é natural faz bem.