Não tem tempo?

- O Estado de S.Paulo

Pouca gente consegue trabalhar, conviver com os amigos e ainda ter tempo para fazer sexo. Para os ‘mortais’, manter um relacionamento, uma carreira e uma vida sexual parece tarefa de Hércules - uma das áreas sempre fica de lado. E é o sexo que geralmente acaba perdendo a competição, apesar de ser citado, muitas vezes, como a melhor coisa da vida. Nos últimos anos, foram lançados vários livros de auto-ajuda para quem tem pouco (ou nenhum) tempo para transar. Parece contraditório. Afinal, se a pessoa está correndo contra o relógio, deveria, supostamente, deixar a leitura e a teoria de lado e partir para a prática. Mas alguns desses livros contêm conselhos interessantes. Um dos mais famosos da lista, Sexo no Cativeiro (Editora Objetiva, R$ 35), de Esther Perel, tem o chamativo subtítulo de "driblando as armadilhas do casamento". A autora, terapeuta familiar e de casais em Nova York, acha que, para cair nestas ciladas que podem levar à extinção do sexo na vida a dois, basta ter uma relação estável. Para o sexólogo Gerson Lopes, coordenador do projeto Saúde, Sexualidade e Vida Profissional. Dá tempo?, da ONG S.A.B.E.R. (Saúde, Amor, Bem-Estar e Responsabilidade), dá tempo, sim, de trabalhar, viver e ainda fazer sexo com qualidade. No entanto, segundo o sexólogo, se o casal tiver de escolher entre sexo sem qualidade e abstinência, melhor ficar com a segunda opção. "Tem mulher que faz por culpa, com medo de que o homem procure fora de casa. Fingir que gosta é mais maléfico do que não fazer", diz o especialista. Quem insiste nesse erro pode adquirir verdadeira aversão ao sexo. Já o ‘rala-e-rola’ bem feito pode operar milagres na vida do casal. Segundo Lopes, sexo chama mais sexo. "Quando mais se faz, e com vontade, mais se tem vontade de fazer", diz o sexólogo. Ou seja, a questão não é só a quantidade, mas também a qualidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o sexo um dos pilares de sustentação de uma vida com qualidade. "O sexo é uma necessidade básica, como dormir ou comer", diz a sexóloga Mara Pusch, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Quando bem feito, pode tornar o casal mais próximo e melhorar a auto-estima e o humor de ambos. O contrário também é verdadeiro. Uma vida sexual insatisfatória torna pessoas mais irritadiças e introvertidas, detona a auto-estima e pode servir de mote para brigas dentro de casa - e até no trânsito. As pessoas, no entanto, fazem menos sexo do que gostariam. Isso acaba gerando muita culpa e levando a atitudes como o sexo agendado. Um estudo sobre rituais feito pela agência de publicidade BBDO Worldwide revelou que cerca de 12% dos brasileiros marcam horário para transar. A pesquisa ouviu mais de 5.000 pessoas de 26 países. No entanto, de acordo com o levantamento, a maior parte das relações (78%) ainda começa de forma espontânea. O casal de produtores de rádio Cláudia, de 25 anos, e Fernando, de 30 (nomes fictícios), integra o grupo dos que reservam lugar na agenda para transar. Eles combinaram, há algum tempo, de irem ao motel uma vez por semana, obrigatoriamente. "Trabalhamos uma média de dez horas diárias e, se não buscarmos alternativas, a relação não vai resistir", acredita Cláudia. A média do casal é de uma vez por semana. Mais do que isso, segundo ela, só se o dia tivesse 30 horas. O sexólogo Lopes acha que o sexo está se tornando uma instituição de fim de semana. A culpa disso, segundo ele, não é essencialmente da "falta de tempo", mas do processo que leva ao bloqueio da intimidade entre o casal. "Para o sexo acontecer, especialmente para a mulher, é preciso que haja intimidade com o parceiro." Já a consultora sexual Fátima Moura, de 47 anos, e seu namorado, o fisioterapeuta Artur Oliveira, 28, ficam no time da maioria que faz amor espontaneamente. Os dois garantem que não contam o número de vezes em que transam - por dia, semana ou mês. "Isso gera uma obrigação que pode tornar a vida do casal tensa", alerta Fátima. Mesmo com uma rotina de trabalho de 14 horas diárias, ela considera ter uma vida sexual satisfatória. A consultora acha que, em primeiro lugar, o casal deve colocar na cabeça que não tem obrigação de transar todos os dias. A invenção de regras é o primeiro passo para uma vida sexual morna e tediosa. "Faço quando quero. E quando faço, é sempre bem feito", revela Fátima. Para chegar a esse equilíbrio, diz a especialista, é necessário que um procure entender o ritmo do outro. Ela lembra que uma noite de sexo não precisa começar com a penetração. Se um dos dois não está a fim, o casal pode, por exemplo, tomar um banho juntos. E, quem sabe, dessa intimidade, possa surgir uma vontade. Sexo express Se o problema é tempo, que tal optar pelas ‘rapidinhas’ para manter a relação saudável? Afinal, como dizem os ‘sexperts’, sexo acaba trazendo mais sexo e investir no modelo ‘expresso’ de amor poderia ser um meio para se alcançar uma vida conjugal equilibrada. Alguns especialistas acreditam na eficácia da medida, mas alertam: ela não deve virar rotina. "A sexualidade pode ser vivida de várias maneiras, rápida ou lentamente. No entanto, se a rapidinha se tornar um hábito, pode detonar o relacionamento", alerta Gerson Lopes. Alguns adeptos da modalidade ‘instantânea’ ainda acreditam que ela combina com os lugares públicos. Para a escritora e palestrante Celine Imaguire, especialista em sexualidade, os riscos não compensam: nada é mais desestimulante do que ser flagrado no ato. "Pode ser muito constrangedor", acredita. Segundo ela, é melhor deixar para lugares fechados - mesmo que seja um banheiro. No livro Quickies - Sex for Busy People (‘Rapidinhas - Sexo para Pessoas Ocupadas’, ainda não disponível em português), a especialista inglesa Tracey Cox dá dicas de como transar sem ser visto na praia, no estacionamento do aeroporto, no elevador... Como anuncia o site de Tracey (www.traceycox.com), as dicas servem como um empurrão para aquela libido um pouco mais preguiçosa. A ‘sexpecialista’ também recomenda que o casal utilize a tecnologia para recuperar a libido escondida, pelo menos para os que se excitam com isso. "E-mails, chats e torpedos telefônicos podem ser excitantes para alguns. Mas, para outras pessoas, são frios por não terem contato físico", ressalva a sexóloga Mara Pusch. Parece mas não é Nem sempre a falta de tempo é o vilão da queda do desejo. O casal ou um dos parceiros pode usar o relógio como desculpa para um problema que considera mais difícil de resolver, mas, por trás disso, podem haver questões psicológicas mal resolvidas, e não declaradas, que costumam gelar a relação. Aí, entra o diálogo. Uma boa conversa pode melhorar bastante a relação. "O problema é que muitos, por preguiça, acabam deixando o papo - e o sexo de lado", constata Mara. Fuja das arapucas » Não estabeleça o período noturno como "a hora oficial do sexo". Isso, segundo a psicoterapeuta Mara Pusch, da Unifesp, é cultural. "Sexo é bom quando estamos a fim", diz ela. E isso pode acontecer de manhã, no intervalo do almoço, no fim da tarde... » Quase sempre temos tempo para dormir e recarregar nossas energias. Por que nos esquecemos de dar tempo para o sexo? Isso, segundo Mara, pode ser preconceito contra ele. Reveja seus conceitos. » Pense mais em sexo, sem preconceitos ou tabus. Pense no que gostaria de ter e questione o porquê de não tê-lo. » Escolha momentos em que os dois estejam calmos e não estressados. » Enquanto estiverem no quarto, usem só roupas íntimas. » Ele ainda não chegou em casa e você está com vontade de transar? Vá se aquecendo... » Dedique um dia da semana para o namoro. Vale motel, cinema, restaurante... » Rapidinhas podem ser muito boas, mas tenha preferência por locais onde vocês estejam sozinhos. Muitos casais adoram ter a emoção de serem apanhados, mas, quando isso acontece de verdade, o susto pode não ser muito agradável. » A escritora e palestrante Celina Imaguire acha que o sexo virtual (via internet e SMS) pode ajudar o casal. "Mas nada como o contato pele a pele", avisa Celina.