''Não existe cisão entre uma gestão e outra''

Renata Cafardo - O Estado de S.Paulo

Para ele, eleições não trazem muitas mudanças; entre as poucas que defende está a inclusão apenas de alunos pobres

O físico Armando Corbani trabalha há quase uma década ao lado da atual reitora da Universidade de São Paulo (USP), Suely Vilela. Era o segundo na hierarquia da pró-reitoria de pós-graduação quando Suely ocupava a chefia da área na gestão passada. Ajudou na campanha que a elegeu em 2005 e ficou então no seu lugar na mesma pró-reitoria, onde está até hoje. Candidato nessas eleições a substituir mais uma vez a colega, Corbani acredita que o cenário futuro da USP não deve ser de muitas mudanças. "Não se coloca um castelo no chão e se constrói outro. Você faz melhorias de maneira geral em setores que acha que estão mais comprometidos. Não há como ser fortemente a favor de uma direção ou fortemente contrário a outra." Ele classifica como "boa" a gestão de Suely, principalmente pelo programas de inclusão, que considera "um avanço". Uma de suas propostas prevê que seja acrescentado o critério de renda ao programa, para que só estudantes pobres possam receber pontos a mais na no exame da Fuvest. Hoje, é necessário apenas ser aluno de escola pública para conseguir o benefício. Corbani, de 62 anos, recebeu o Estado com respostas escritas em folhas sulfite sobre temas que provavelmente surgiriam na entrevista, como a adesão da USP ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como parte do vestibular. "Um bom cientista tem que preparar o seu laboratório." Veja os principais trechos da entrevista. O senhor é um dos dois candidatos que participa diretamente da gestão de Suely Vilela (o outro é o pró-reitor de cultura, Ruy Altafim). Ela declarou apoio ao senhor? Isso só perguntando para ela. Todos os candidatos participaram de alguma forma da gestão da reitora, direta ou indiretamente. É muito difícil para a reitora externar uma preferência muito explícita. O que, na sua opinião, significa o fato de haver muitos candidatos ligados à atual gestão? Não existe grande cisão na universidade entre uma gestão e outra. Não se coloca um castelo no chão e se constrói outro. Você faz melhorias de maneira geral em setores que você acha que estão mais comprometidos. Não há como ser fortemente a favor de uma direção ou fortemente contrário a outra. Estamos todos unidos numa mesma ideia: melhorar a universidade. Como analisa a gestão da reitora? Acho que tem sido uma gestão boa, houve alguns avanços. Como o Inclusp, era um programa que havia sido pensado, mas faltava a decisão política de ser implantado e ela tomou. O programa de permanência estudantil foi ampliado. A visibilidade internacional caminhou mais. Do ponto de vista administrativo, se começa a trabalhar a descentralização e a desburocratização. E as greves e as posições tomadas por ela sobre a polícia no câmpus? É uma questão delicada falar de uma tomada de decisão. Tenho como ideia fundamental que o dialogo é prioritário em qualquer relação. Mas houve uma forçada de tentativa de violência aqui dentro da reitoria, uma pressão para invadir. Aí tem que tomar as medidas cabíveis e tínhamos um preceito legal votado no Conselho Universitário. Eu concordei. Os pró-reitores foram consultados? É uma decisão de gabinete. O senhor opinou a respeito? Não. Há anos o senhor trabalha com a reitora. Há quem diga que ela é centralizadora. Talvez devêssemos esclarecer um pouco como as pró-reitorias interagem com a reitoria. Nós somos os braços acadêmicos da universidade. A parte administrativa cabe à reitoria. Uma vez ou outra acontece de sermos convocados para uma reunião para trocar ideias sobre procedimentos que estejam em curso. Essa relação não é tão direta como se imagina. A universidade é complexa. Eu tenho uma pró-reitoria que é praticamente uma universidade dentro da universidade. Todos os docentes estão envolvidos, 22 mil alunos. Então, de forma geral, as reuniões são mais técnicas. Agora, se ela centraliza algumas decisões é porque talvez ela entenda que deva ser dessa maneira. Há pessoas que são consultadas, ninguém toma decisão dessa natureza (a polícia no câmpus) por vaidade. Qual sua opinião sobre o processo eleitoral? Eu sou contra a eleição paritária, voto direto na universidade não é adequado. A carreira universitária é baseada no mérito, isso é o eixo fundamental da universidade. E isso não combina muito com a ideia de voto universal. Já está em discussão a mudança das regras de eleição. O que está se vislumbrando é que se deva ampliar as representações de todas as categorias. Mas não sabemos exatamente como deve ser. Eu acho que isso deveria ser o ponto inicial da nova gestão, para que tivesse um tempo razoável. Isso deve envolver mudanças no estatuto que contemplem a chamada democratização na universidade. O senhor acha que a USP deveria aderir ao Enem como parte de seu vestibular? A Fuvest já contempla o Enem, em parte, dando bônus. As universidades estaduais paulistas já estão promovendo a convergência dos vestibulares. Nesse momento, o Enem está estabelecido como um programa para as universidades federais. Mas acho que deve se vislumbrar algo mais prático no futuro. Tem que caminhar para que se faça a avaliação dos candidatos a partir do aproveitamento no ensino médio e montar um modelo para isso. Não apenas serem avaliados por uma prova no fim do terceiro ano. Mas como fazer isso, se as escolas têm avaliações diferenciadas de seus alunos? Eu falei em futuro. Não precisa ser próximo. Para isso, precisa haver um balizamento maior das escolas. Não seria um problema de gestão agora. Eu acho que primeiro seria mais adequado uma avaliação conjunta das universidades do Estado. As três universidades estaduais paulistas já têm uma tradição muito grande de fazer exames e em grande escala. Coisa que nenhuma universidade federal tem. E o Enade, a USP deve participar? A avaliação dos cursos de graduação tem que ser feita de forma continuada interna e externamente. O engajamento ao Enade já está em discussão e sou favorável. Colocaria bastante esforços para que já no próximo participássemos. Como o senhor avalia o programa de inclusão da USP (Inclusp)? O Inclusp começa a mostrar algum resultado. Os alunos que foram beneficiados pelo programa apresentam os mesmos índices acadêmicos que o restante. Um avanço nesse programa seria combinar a valorização da escola pública com critérios de renda. Aí nós estaríamos falando em mais justiça social. Acoplado a isso, temos o programa de permanência estudantil, que deve ser ampliado. A universidade não deve poupar esforços para manter os alunos nos seus cursos. Qual sua opinião sobre educação a distância? O curso da USP foi adiado porque a instituição não queria interferência do governo. A gente tem que usar a tecnologia de informação disponível em todas as áreas, para aprimoramento do sistema educacional e administrativo. Isso não significa que você vai substituir a aula presencial. Um curso a distância deve ser, no momento, um laboratório de experimentação. Tem que pensar como uma nova metodologia científica, você aplica, se funciona bem, você passa a usá-la. Esse curso de Licenciatura em Ciências é um piloto. A questão com o governo está sendo equacionada. O ensino a distância começou a ser pensado por volta de 2002/2003 no conselho de graduação da USP, anos antes da Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo). Com o advento da Univesp apareceu a possibilidade de se ter recursos para implantar esse curso com dinheiro externo. Mas o convênio não evoluiu a contento. A propriedade intelectual do curso é da universidade. A USP hoje está certa em não assinar. Como analisa o movimento estudantil na USP hoje? Eu entrei na universidade quando o movimento estudantil tinha uma bandeira. Todos nós tínhamos uma consciência sobre o assunto, independente de você estar participando ativamente ou não. Eu nunca fiz parte. As bandeiras efetivas atuais são muito difíceis de reconhecer. Uma das coisas que acho que não é saudável é ter um partidarismo muito severo. Na universidade, você pode ter adeptos de partidos políticos, mas não é o ambiente de fazer partidarismo. Com isso, o próprio movimento já fica fragmentado.