Na Fundação Casa, já há menos casos de saúde mental

- O Estado de S.Paulo

Quando iniciaram o atendimento de jovens da Fundação Casa, os médicos do Programa de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas identificaram entre 2.400 internos na capital, 628 com problemas mentais, ou 27% deles - quase o dobro dos 15% entre jovens de 12 a 21 anos no Brasil. Em um ano, a incidência caiu pela metade, para 13%, segundo o Nufor. Os especialistas passaram a avaliar os jovens nos 45 dias em que aguardam julgamento nas Unidades de Internação Provisória. "Pelo menos 52% dos casos não eram de polícia, mas de saúde pública", diz o coordenador do Nufor, Antonio de Pádua Serafim. "Muitos distúrbios mentais, se não tratados, são facilitadores do envolvimento em atos infracionais." Para o especialista, a falha está na falta de atenção à saúde mental no atendimento primário, Unidades Básicas de Saúde ou no Programa Saúde da Família, onde os distúrbios poderiam ser identificados nos estágios iniciais. Dos internos atendidos pelo Nufor entre junho de 2008 e 2009, 38% desenvolveram o distúrbio pelo uso abusivo de álcool e drogas (incluído pela Organização Mundial de Saúde em doenças mentais). Outros 12% tinham distúrbios de conduta, 10% depressão profunda, 8% déficit de atenção e hiperatividade e 6% transtornos de ansiedade. Casos de maior complexidade eram minoria: 4% retardo mental, 3% transtorno afetivo bipolar e 3% quadros psicóticos, como esquizofrenia. "Com uma rede de assistência básica, principalmente em álcool e drogas, o Estado reduziria muito a entrada de jovens no crime", diz Serafim. Ele tenta convencer os juízes a privilegiar o tratamento à internação. "O problema é que não temos para onde encaminhá-los. Quando entram em surto ou crise de abstinência, é um sufoco encontrar vagas de internação. Não há leitos nem CAPs suficientes. Os juízes não sentem segurança para determinar o tratamento em liberdade", diz Serafim. Para o promotor de Justiça Reynaldo Mapelli, a cracolândia é um exemplo da omissão do poder público. "Sem locais para tratamento, em falta no Estado, esses meninos acabam na rua ou na cadeia", diz.