Mulherão aos 14 anos

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Holofotes, glamour, fama, fotógrafos, dinheiro e muitos pretendentes aos seus pés. Muita gente acredita que a vida de uma modelo é assim. Encantadas, garotas com 12 anos guardam as bonecas no armário e se tornam mulheres para o mundo. A modelo brasileira Camila Finn, de 15 anos, vencedora do concurso Ford Supermodel of the World 2004, é um exemplo de como não cair nesta armadilha. Determinada, mesmo com a agenda lotada, arranja tempo para se dedicar aos amigos e ao colégio.Embaladas pela vontade de ser sucesso, o número de meninas que jogam tudo para o alto e investem na profissão é cada vez maior. Neste ramo extremamente concorrido é preciso trabalhar muito para ser a escolhida entre tantos rostos belos. Além dos requisitos básicos (altura, peso e medidas), a pessoa precisa ter personalidade para saber encarar com tranqüilidade as exigências do mercado. Esta é uma tarefa complicada para quem nem completou o ensino médio ainda. ?Os compromissos devem ser administrados pelos pais, em um acordo saudável com a filha. A sedução dos contratos, se for colocado como vital, pode comprometer o desenvolvimento da menina?, revela a psicóloga Ana Rosa Sancovski.Conseguir um trabalho nesta área não é a coisa mais fácil do mundo. Quando a modelo passa a ser escolhida para participar de testes, a palavra rejeição entra em cena. Ana Rosa acredita que o inconsciente não perdoa este processo de ?negação e anulação da adolescência?. Segundo ela, cedo ou tarde, o conteúdo que ficou recalcado exige satisfação.Além das passarelas Rejeição é um medo que circula não só nas passarelas, mas também nos corredores dos colégios e dos shoppings. Em 2005, a MTV realizou uma pesquisa com jovens de 13 a 19 anos e descobriu que 60% dos entrevistados acreditam que as pessoas mais bonitas têm mais oportunidades na vida.Pensando nisso, empresas de cosméticos começaram a desenvolver trabalhos e produtos específicos para este público e, em um bate-papo descontraído com as jovens, ficaram por dentro de informações preciosas. ?Descobrimos como minimizar a angústia das meninas. Para elas, é melhor ser menos inteligente e mais bonita?, revela a gerente de marketing da marca O Boticário, Ana Eliza Pavão.A vontade de crescer antes do tempo não é saudável e desrespeita a velocidade do amadurecimento pessoal de cada menina. ?O mundo não é tão bonzinho e eu me sinto cobrada. Gostaria de continuar brincando com minhas boneca, mas não posso. Estou crescendo antes da hora, mas devo acompanhar os meus colegas?, relata a estudante Vanessa Mara da Silva, de 13 anos. ENTREVISTA: CAMILA FINN ?Continuo brincando com meus ursinhos.? Você se considera uma menina ou uma mulher? Acho que sou uma criança. Tenho uma cabeça muito infantil e continuo brincando com os meus ursinhos. Profissionalmente, tento mostrar que sou mulher. Qual é o seu maior receio? Quando saí de casa, minha mãe pediu que eu não perdesse a humildade. Só mudei um pouquinho. Se dou uma de chata, as pessoas me falam e tento consertar. Tem algo que adora fazer e teve de deixar de lado? Sempre chegava da escola, ligava na TV Cultura e via o Castelo Rá-Tim-Bum. Também gostava muito de boneca, mas as deixei de lado e só fiquei com os ursinhos. Tenho mais de 100! Quem cuida do dinheiro? Eu dou toda a ?grana? na mão do meu pai, pois não sei administrar nada. Se tivesse de cuidar do dinheiro estaria falida. Gasto com bobagem. Quando entro em uma loja de brinquedos quero comprar tudo. Como é o contato com os seus amigos? Falo com eles por e-mail. Sempre saio com o pessoal quando estou no Brasil. Sinto que estou por fora das novidades e eles são pacientes e me atualizam de tudo. E os estudos? O colégio manda as matérias por e-mail. Adianto tudo em Nova York e, quando volto, entrego as lições. Eles corrigem na hora, fazem a média e dão o resultado. Deu Certo! Se virar modelo e ficar longe de casa já é difícil para as meninas, a história fica mais complicada para os pais. O primeiro passo para não entrar em desespero é descobrir a rotina do mundo da moda. Conversar com outros pais é uma boa saída. ?No começo foi bem difícil. A distância me deixava sem chão. É muita gente em volta?, relata Dione Lins, de 59 anos, mãe da modelo Grace Hampshire, de 21. Segundo ela, depois da fase inicial, não é mais necessário ficar na cola da filha o tempo todo. ?Os anos passam e a gente se acostuma. Todo mundo tem que voar?, conclui. "Sou uma menina de carne e osso. Tenho vida, uma lista de tarefas e horários a cumprir. Hoje me sinto bem mais responsável? VIVIANE ORTH, 15 anos "Dependendo da marca, a modelo precisa passar uma imagem de mulherão, mas no meu coração ainda sou só uma garota" GEOVANA PIVETA, 13 anos "Tive de largar as coisas que construí e amadurecer mais cedo. Não dependo mais da minha mãe. É cada um por si" JULIANA CONTE, 14 anos