Morre em Salvador, aos 62 anos, o fotógrafo Mário Cravo Neto

- O Estado de S.Paulo

Corpo do artista, que tinha câncer de pele, será cremado hoje; trabalho enfocou a cultura africana

O fotógrafo Mário Cravo Neto morreu aos 62 anos, na tarde de ontem, por volta das 17 horas, vítima de câncer de pele. Ele estava internado no Hospital Aliança, em Salvador, Bahia. O corpo será cremado no Cemitério Jardim da Saudade, às 11 horas de hoje. Nascido em 1947 em Salvador, Cravo Neto iniciou a carreira aos 18 anos, desenvolvendo trabalhos em escultura e fotografia, participando de cinco edições da Bienal Internacional de São Paulo (1971, 1973, 1975, 1977 e 1983) e de inúmeras mostras de fotografia na Europa e nos Estados Unidos. As características mais marcantes de sua obra são a presença da religiosidade e das influências da cultura africana na Bahia. "Ele tinha uma marca muito forte, um estilo inconfundível. Cravo Neto foi um inventor da fotografia brasileira, mostrando os tipos baianos, o modo de ver a cidade, as pessoas. Ele construiu um imaginário único sobre a Bahia", diz Boris Kossoy, historiador de fotografia, que conviveu com Cravo Neto por mais de 30 anos. Ao contrário do que acontece com diversos artistas, o fotógrafo baiano construiu sua carreira primeiro no Brasil para conquistar posteriormente prestígio e reconhecimento com grandes exposições permanentes em museus principalmente da Europa e dos Estados Unidos. Mesmo em uma época de crescente influência da tecnologia, Cravo Neto sempre trabalhou na contramão de programas e recursos utilizados para corrigir e embelezar falsamente seus trabalhos. Sua fotografias, que tinham cores e aromas, eram resultado de um estilo integralmente autoral. "Ele foi único nesse sentido de desenvolver um trabalho completamente autoral. Ele passou longe de programas como o Photoshop, trabalhava só com a cabeça e com os olhos", diz o fotógrafo Cristiano Mascaro. "Sua obra é atemporal. Sempre trocávamos fotos e eu tinha a sensação de que saía ganhando em virtude do belo trabalho dele", completa o colega. Filho do escultor Mario Cravo Júnior, Neto estudou na conceituada Arts Students League, em Nova York, com orientação de Jack Krueger, um dos precursores da arte conceitual na cidade. Ao longo de sua carreira, Cravo Neto deixou também como legado uma vasta bibliografia, lançando diversos livros, como Salvador (1999), Laróyé (2000), Na Terra Sob Meus Pés (2003) e O Tigre do Dahomey - A Serpente de Whydah (2004). Em 1980 e 1995 Cravo Neto recebeu o prêmio de Melhor Fotógrafo do Ano da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA); em 1996, o Prêmio Nacional de Fotografia da Funarte; e em 2004, o Prêmio Mario Pedrosa da Associação Brasileira de Críticos de Arte.