Morre aos 80 anos o ator e diretor Fernando Torres

Roberta Pennafort e Márcia Vieira, RIO - O Estado de S.Paulo

O ator e diretor Fernando Torres morreu ontem de madrugada, em sua casa, em Ipanema, zona sul do Rio. Ele sofria de uma enfermidade no pulmão havia alguns anos e seu estado de saúde estava bastante fragilizado. A causa da morte não foi revelada pela família, que sempre se manteve discreta quanto à sua condição. Torres tinha 80 anos e era casado havia 57 com a atriz Fernanda Montenegro, com quem teve dois filhos: a também atriz Fernanda Torres e o cineasta Cláudio Torres. O corpo será cremado hoje. Segundo o ator e diretor Sérgio Britto, muito amigo do casal, ele estava sentindo dores terríveis havia algum tempo. "Fernanda há de compreender que ele precisava morrer", disse Britto. "Eu estou arrasado com a morte dele, mas torcia para ele morrer. Ele estava sofrendo demais. Durante anos, recebeu um tratamento errado que fuzilou a saúde dele." Britto, que trabalhou intensamente com Torres nas décadas de 50, 60 e 70 e depois continuou "permanentemente ligado" a ele, contou que esteve com o amigo 20 dias atrás, no restaurante Fiorentina, zona sul do Rio, e que lá ele foi homenageado. "Ele estava bem. A dor e o sofrimento não o assustavam. Mas recentemente ele piorou muito." A mulher sempre respeitou sua decisão de permanecer em casa. "Fernanda foi maravilhosa. Nunca o internou. Ele queria ficar em casa e ela respeitou isso. Estava ao lado dele na hora da morte. Mantinha quatro enfermeiros se revezando ao lado dele. Nunca falou sobre a doença que ele tinha. Era alguma coisa no pulmão, mas não sei o que era. Sempre respeitei o fato de os dois serem muito discretos." Também amiga da família de muitos anos, a atriz Eva Wilma contou que todo o círculo de atores com o qual o casal se relacionava se mobilizara com a doença de Torres. "Nós todos estávamos torcendo para que o Fernando se livrasse do sofrimento. Agora ele está livre e estará para sempre conosco." Em suas últimas aparições públicas, o ator, que se deslocava numa cadeira de rodas, parecia bem frágil. No entanto, nunca perdeu o bom humor, característica destacada ontem por vários artistas que lamentaram sua morte. Em novembro do ano passado, quando completou 80 anos de idade e 60 de carreira, Torres foi homenageado com uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio. A produção foi da mulher e da filha. Foram exibidas fotos raras e inéditas, que relembravam momentos marcantes de sua vida artística, e filmes como Redentor (2004), dirigido por Cláudio Torres, e A Ostra e o Vento (1997), de Walter Lima Jr. Ele compareceu à abertura vestindo um elegante terno. CIDADANIA INTENSA "Durante toda a minha carreira, é como se fôssemos irmãos. Ele era extremamente bem-humorado, por vezes sarcástico, muito inteligente, um companheirão, ator inspirado, homem de uma cidadania muita intensa. Sabia viver, tinha alegria, deu um grande exemplo de amor ao teatro", disse a atriz Eva Wilma. "É muito doloroso tudo isso, mas, ao mesmo tempo, quero lembrar dele pela grandeza que teve. Era um ator da maior importância para esse país, que lutou contra a ditadura, que estava com uma peça pronta para estrear que foi proibida, e da noite para o dia teve que achar, com Fernanda, uma outra peça. Eles lutaram sempre. Tinha uma cultura enorme, e, ao mesmo tempo, humor e silêncio na sua observação da própria vida", contou o ator Tony Ramos. REPERCUSSÃO Marieta Severo Atriz "Ficamos próximos quando ele produziu Calabar (peça de Chico Buarque). Era um artista refinado, atento, criativo e um ser humano da maior grandeza. Ele teve uma participação fundamental no nosso teatro, no cinema e em tudo o que fazia" Miguel Falabella Diretor e ator "Na minha história, ele terá sempre um lugar de honra. Ele, de certa forma, mudou a minha vida. Uma vez, disse pra mim: ?Rapaz, você está perdendo tempo e dinheiro (atuando). Escreva.? Ele era um homem extremamente culto e que gostava de seus pares. Contava muitas histórias, tinha uma veia cômica aguçada" Hugo Carvana Diretor e ator "Ele era uma pessoa muito querida, batalhador incansável, belíssimo ator" Juca Ferreira Ministro da Cultura "Com uma capacidade extraordinária como ator e criador, seja no teatro, no cinema ou na televisão, Fernando Torres teve papel fundamental na modernização de linguagens e repertórios da cena brasileira. Por trás de uma suavidade envolvente, trouxe uma das mais densas experiências para as nossas artes, levando a todo o País qualidade artística ao lado de comprometimentos muito claros com ideais libertários e com a vida política brasileira"