Modelos de rua

Marta De Divitiis - O Estado de S.Paulo

Fotógrafa de moda e beleza desenvolve projeto paralelo denominado Authentic Portrait SP

.

BIA FERRER – Formada em Psicologia, diz que se realiza com trabalhos fotográficos de cunho antropológico, como o que realiza agora

 

Se você estiver passeando por uma rua de São Paulo e for abordada por uma moça morena, de cabelos longos, piercing no nariz, tatuagens, com uma câmera digital nas mãos, querendo fazer uma foto sua, aceite: você poderá ser uma das estrelas da exposição Authentic Portrait SP, que Bia Ferrer pretende realizar tão logo termine de fotografar os 3 mil personagens que colocou como meta. Desse universo (ela já clicou, aproximadamente, 2 mil pessoas), 200 serão escolhidos para fazer parte da mostra e do livro que pretende lançar posteriormente.

 

O critério é o olhar da fotógrafa, que, em suas horas vagas, busca o não usual em anônimos, nas esquinas da metrópole. "Costumo optar por aquelas pessoas que capturam o meu olhar", explica. O resultado de parte desse trabalho pode ser conferido, por ora, no blog http://authenticportrait.wordpress.com, onde Bia exibe algumas das pessoas comuns retratadas, em seu momento "modelo".

 

Formada em Psicologia pela Universidade Mackenzie, foi no final da faculdade que descobriu, na fotografia, sua vocação. Ao invés de visitar hospitais para fazer um trabalho sobre doentes terminais, Bia propôs um projeto relacionado à morte, e passou a fotografar os túmulos do Cemitério da Consolação. "Comecei a estudar a arte tumular e, em um curso de fotografia no Senac, conheci um fotógrafo que me iniciou na profissão. Brinco dizendo que minha escola foi o cemitério, com modelos estáticos", fala, bem humorada. O resultado dessa incursão – As Expressões da Arte na Morte – foi apresentado na faculdade e, mais tarde, em um congresso de Medicina.

 

Em 2003, ganhou um concurso de fotografia na Casa de Criadores, com o trabalho Alice Através do Espelho. Desde então, tem trabalhado na área de moda e beleza, fotografando para catálogos, campanhas publicitárias e editoriais de revistas.

 

O trabalho com a moda forneceu os elementos essenciais à sua postura – não apenas profissional, mas também de vida. Quase sempre, tem preferido as locações na cidade, ao invés dos estúdios, o que a fez conhecer todos os cantos de São Paulo, até mesmo os bairros mais distantes e os espaços desconhecidos.

 

A ideia de sair às ruas fotografando pessoas comuns foi do seu marido, diretor de arte, que a sugeriu após ouvi-la dizer que gostaria de realizar algo mais autoral. "Sempre gostei de observar as pessoas, de conversar com elas, mesmo porque, antes de optar pela fotografia, queria ser escritora. Escolhi a faculdade de Psicologia, inclusive, pensando nisso: teria maior compreensão das pessoas e escreveria melhor. Hoje, fotografar pessoas nas ruas preenche essa necessidade minha de trabalhar com arte, usando o ser humano como matéria-prima. É quase um trabalho antropológico."

 

Optou pela câmera não profissional justamente para quebrar a barreira entre ela e o fotografado, uma vez que quem não é modelo costuma ficar intimidado pelas lentes. Seu método consiste em escolher a locação e, ao lado de uma assistente, abordar as pessoas que tenham um visual interessante, pedindo autorização para fazer a foto. São apenas cinco cliques por pessoa – elas escolhem sua própria pose. Em casa, Bia transfere as que mais gosta para o blog, e arquiva todo o trabalho. Isso possibilita, inclusive, que os fotografados se vejam. Muitos escrevem para ela depois, dizendo o quanto gostaram de atuar como modelos, e do resultado das fotos. "Tem sido muito gratificante!"

 

PRAZERES E AGRURAS

Na hora de executar as fotos, Bia tem encontrado maior resistência em locais mais populares. "O único onde não me permitiram tirar uma foto sequer foi no Largo da Batata, em Pinheiros", conta ela. "Fiquei uma tarde inteira, abordei dezenas de pessoas e nenhuma delas autorizou as fotos, me causando um certo espanto e muita frustração", continua. Quando escolheu o local, imaginou que encontraria inúmeros anônimos dispostos a ter os seus quinze minutinhos de fama.

 

Para Bia, a região dos Jardins (especialmente a Avenida Paulista e a Rua Augusta) é a melhor, pois as pessoas são bem mais receptivas, o que não significa que não tenha passado por situações difíceis. "Uma vez, na Rua Augusta, tentei fotografar um grupo de prostitutas. Elas não queriam ser retratadas e eu insisti para que aceitassem. Foi o suficiente para que me cercassem e me ameaçassem, dizendo que seria bem melhor eu sair de lá, e rápido!", lembra. "Foi um momento muito tenso. Mas, em seguida, uma delas me chamou de lado e disse para não me preocupar, pois elas estavam apenas fazendo uma cena. Essa me permitiu que fizesse as fotos, mesmo assim, tratei de acelerar o trabalho e saí rapidamente de lá."

 

No entanto, surpresas boas sempre acontecem, como o caso da senhora idosa que, depois de retratada, ofereceu à fotógrafa um poema escrito na juventude, quando assinava os versos com o codinome Gauchita. Ou o pastor evangélico que só autorizou as fotos após colocar as mãos sobre a cabeça da jovem e fazer uma oração. "Foi como uma bênção, me senti leve e reconfortada", justifica.

 

Muitas vezes, Bia reencontra os fotografados, e é reconhecida por alguns deles, que geralmente agradecem. Um tempo atrás, durante uma sessão de fotos de moda, o maquiador falou que tinha sido modelo do Authentic Portrait SP uns meses antes, e que ela não o reconhecera porque, na ocasião, ele estava com uma maquiagem pesada. O produtor de um catálogo também já havia sido um de seus personagens anônimos.

 

No momento, enquanto finaliza as fotos, Bia corre atrás de patrocínio, tanto para a exposição como para a publicação de um livro. "Adoraria ver esse trabalho exposto em um local público, como o metrô ou algum lugar da cidade onde os fotografados possam ser observados pela maior parte das pessoas. Assim, os outros vão perceber que são personagens importantes também, dignos de serem retratados."

 

A profissional dará um curso de fotografia de moda no IED – Istituto Europeo di Design, em São Paulo, neste segundo semestre, e continua com os catálogos e editoriais. Mas seus projetos não se encerram aí. Ela já tem mais dois engatilhados: um deles diz respeito a internautas, especialmente àqueles que fazem do mundo virtual sua vida profissional e social, e o outro é sobre as submoradias (habitações precárias), abundantes na cidade, as quais tem observado durante o período em que realiza o atual trabalho.

 

RETRATOS EM SÃO PAULO

Algumas das pessoas já clicadas por Bia Ferrer nas ruas da metrópole: