Moda reciclável

Marta De Divitiis - O Estado de S.Paulo

Uso de matéria-prima reaproveitável entre outras medidas,[br]são adotadas pelas empresas do setor

Ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito: os quatro pilares da sustentabilidade podem ser observados na moda cada vez mais. Empresas que nunca ligaram para o assunto, hoje estudam formas de produção menos agressivas e procuram matéria-prima certificada ou orgânica. Outras, já nasceram com todas essas preocupações. O assunto foi pauta das últimas edições do São Paulo Fashion Week, que incentivou seus participantes a neutralizar as emissões de carbono na atmosfera através de plantios de árvores. Segundo Cyntia Malaguti, docente de Eco-Design do Centro Universitário Senac, a moda é fundamental, uma vez que é canal de conscientização e tem puxado a bandeira do apelo ecológico. "Ao se vestir a pessoa constrói uma identidade e mostra o seu engajamento". A Pistache & Banana, confecção infantil, é um bom exemplo. Há um ano no mercado e sediada no interior de São Paulo, a empresa utiliza apenas algodão orgânico, tecnologia de reciclagem de garrafas PET para camisetas e corantes naturais como urucum e mate. "Compramos algodão orgânico, ainda na semente, em parceria com duas outras confecções francesas, tingimos, tecemos e confeccionamos e reduzimos nossa taxa de lucro, o que faz nossa roupa ter preço competitivo",explica Juliana Páffaro, diretora geral e idealizadora da marca, que produz aproximadamente 10 mil peças por mês. Outra marca que nasceu com o compromisso ecologicamente correto é a King55, de jeans. Com cinco anos de mercado, o beneficiamento do denim é feito com lixas e escovas; a maior parte da água da lavagem vem de captação pluvial da lavanderia e após isso é redirecionada a reservatórios para abastecer banheiros. O produto mais utilizado para desgastar o tecido é uma enzima proveniente da mandioca e biodegradável. "Até os móveis de nossas três lojas são reciclados",explica Amauri Caliman, proprietário da empresa. A mineira Vide Bula, especializada em jeanswear, desenvolveu nessa última coleção um tipo de lavagem que economiza 90% de água. "Temos que tomar providências em relação à água do planeta", explica Giácomo Lombardi, proprietário da grife. CALÇADOS Um dos pioneiros no uso de matéria-prima reciclada no Brasil é a Gooc (antes Yepp), que faz sandálias com solado de massa de borracha regenerada (pneus usados), bolsas com lona de empresas certificadas e detalhes em lona reconstituída. "Utilizamos 30% de borracha natural, certificada, na confecção das sandálias por que só a regenerada não dá liga suficiente para confeccionar o solado; a lona reciclada só é usada em detalhes das bolsas por que é mais frágil e não agüenta peso",explica Roberto Gaschler, diretor de novos negócios da empresa, que comercializa seis milhões de calçados ao ano. Com o tema Árvores do Brasil, a 1001 Retalhos lançou na Francal, maxibolsas com materiais recicláveis como lona, couro e ferragens. Detalhes artesanais como patchwork, bordados, crochê e fuxico valorizam os desenhos que enaltecem a flora brasileira. "A nossa proposta é chamar atenção para a questão ambiental", explica Ana Paula Felippe, diretora da fábrica. A Alpargatas, que está comemorando 100 anos de existência, desenvolveu a Conga Ipê. Confeccionada com lona reciclada (Locomotiva Eco), produzida pela empresa, a linha é composta por dois modelos, boneca e velcro, e tem estampas de onça pintada, muriqui (espécie de macaco) e de folhas. 7% da renda obtida com a venda da linha é revertida para o IPÊ-Instituto de Pesquisa Ecológicas, entidade de estudos científicos, educação ambiental e desenvolvimento sustentável, que atua em áreas naturais onde há animais ameaçados de extinção. Na Francal a empresa de calçados infantis, Bibi, trouxe um tênis 100% ecológico. O cabedal é de couro curtido sem cromo, livre de metais pesados, o solado tem 50% de látex extraído de seringueiras certificadas e os outros 50% de resíduos de látex. O adesivo que cola a sola não tem solventes orgânicos; a palmilha interna é produzida com espuma de material reciclado; o cadarço, a linha e o forro, são de algodão e os ilhoses, de alumínio, que permite seu reaproveitamento. "Nossa idéia é que esse seja o primeiro de uma série de calçados ecológicos. A embalagem, por exemplo,é um saco de algodão que pode ser usado depois para armazenar compras de supermercado",esclarece Camila Kohlrausch, gerente de marketing. Mas não são só roupas e calçados que trazem esse apelo. A In. Joy colocará em setembro no mercado a coleção In. Relax Eco-Cotton, de lingerie. São oito peças diferentes, confeccionadas com algodão tratado e enzimas que retiram as impurezas tanto do tecido como da água, durante o processo de tingimento. Além de dar um toque extra macio, a água é reaproveitada mais facilmente depois de usada. "Todos esses processos têm componentes biodegradáveis",diz Ligia Buonamici Costa, gerente de marketing e desenvolvimento de produto da In. Joy. A Track & Field, rede especializada em acessórios esportivos, lançou uma linha de camisetas confeccionadas com fios de garrafas PET recicladas, com algodão e outra de camisetas produzidas a partir da fibra de bambu. Esse vegetal tem poucas exigências na hora do cultivo e sua recomposição na natureza é rápido. Além disso o tecido dele resultante absorve o suor e seca mais rapidamente que os similares em algodão. Tem também função termodinâmica, isso é, adapta as funções tecnológicas à temperatura do momento. Essa questão do crescimento da planta é um fator importante porque,"dessa forma não é necessário desmatar", fala Cyntia Malaguti. A docente lembra que há alguns anos, o capim dourado, fibra que existia no Jalapão, no Tocantins, e que servia para fazer acessórios, sofreu uma exploração tão exagerada que foi necessário o auxílio do Embrapa- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária para regularizar sua produção e extração. No quesito materiais há projetos do SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, que visam tornar viável o uso de sobras ou materiais alternativos. No primeiro caso as rebarbas de couro do setor calçadista seriam reaproveitadas para a confecção de luvas de equipamento de segurança. No segundo, a idéia é utilizar o couro curtido de tilápia, um peixe bastante apreciado na culinária. "Por enquanto, em São Paulo, são apenas projetos em fase embrionária, junto a pequenas comunidades,nada ainda em nível industrial", explica o consultor de marketing do Sebrae SP, José Carmo Vieira Oliveira.