Minientrevista

- O Estado de S.Paulo

Daniela Auad, sociólogaAutora do livro ‘Educar Meninos e Meninas - Relações de Gênero na Escola’

Afinal, o Brasil ainda é um país machista? Não uso esse termo porque parece militância, mas a desigualdade é muito presente ainda. Quase não se vê um menino brincando de boneca. E, no futuro, ele não irá segurar um filho no colo? Na política, por exemplo, as mulheres não ocupam representativamente os cargos de poder. Essa mentalidade acaba normatizando os comportamentos. As piadinhas com mulheres que atuam em profissões tipicamente masculinas, como a bandeirinha Ana Paula, acabam instituindo uma realidade psíquica na qual algumas atividades ficam direcionadas para mulheres e outras para homens. Meninos e meninas são mais que pênis e vaginas. As pessoas criam expectativas em torno de um dado biológico. A mãe diz: ‘a menina é mais quietinha’. Na verdade, mais disciplina foi investida na educação daquela menina. De tanto ditas e repetidas, algumas coisas se tornam verdades, ficam com um aspecto de comportamento natural. O tipo de brinquedo recebido também influencia? As crianças vão sendo direcionadas por eles. Muitas vezes, a diferença saudável entre os gêneros acaba se tornando uma desigualdade. Meninas são diferentes entre si; assim como os meninos. Na escola, eles e elas vivem sempre em pólos opostos, times rivais. As brincadeiras deveriam ser conjuntas para que meninos e meninas se desenvolvam juntos e ocupassem o mesmo lugar na sociedade. Dizer que, se você tem vagina, deve desejar ser mãe, é o mesmo que dizer que se tem cabelo preto deveria cursar medicina.