Menina, com catapora, só foi atendida em farmácia

Fábio Mazzitelli - O Estado de S.Paulo

Morta anteontem em uma creche irregular na Vila Medeiros, zona norte de São Paulo, a menina Viviane Nascimento dos Santos, de um ano e nove meses, foi "diagnosticada" por um balconista de farmácia, sem passar por consulta médica. No dia anterior à morte, os pais da criança, que tinha varicela (catapora), levaram-na a uma farmácia e saíram de lá com dois remédios, um antitérmico e outro antialérgico, segundo informou o delegado titular do 39º DP (Vila Gustavo), Mário Guilherme da Silveira Carvalho. O delegado preside o inquérito policial que investiga as causas da morte de Viviane e apura responsabilidades. A investigação foi aberta com três depoimentos, um deles de um atendente da farmácia, de 50 anos. "Com certeza, os remédios tinham de ser receitados por um médico. Investigamos exercício irregular de profissão", diz o delegado. O pai da criança, José Carlos dos Santos Júnior, de 36 anos, também foi ouvido e afirmou que a família tentou levar Viviane a um hospital na véspera, mas desistiu porque havia fila. Levantamento realizado em 143 farmácias do Brasil apontou que, em 80% das abordagens, os funcionários dos estabelecimentos recomendam remédios com base no relato da pessoa que os procura e, a partir daí, no que acreditam ser o sintoma. No caso da menina Viviane, o delegado do 39º DP não acredita que os medicamentos vendidos à família tenham ligação direta com a morte da criança. Ele apura a possibilidade de negligência, tanto dos pais como da mulher que cuidava de Viviane e de outras 30 crianças na casa em que mora, na Avenida Boschetti. O serviço era prestado informalmente. A "mãe crecheira", Marli dos Santos, de 58 anos, também depôs na delegacia. "O boletim de ocorrência está como morte suspeita. Estou na dependência dos laudos (técnicos, que apontarão a causa da morte), mas o inquérito pode caminhar até para homicídio culposo (sem intenção de matar)", disse o delegado. ?GENTE FINA? Viviane foi sepultada no início da tarde de ontem no Cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, zona norte da capital. A reportagem não conseguiu localizar, ontem à tarde, os pais da criança, que mantinham o irmão mais velho de Viviane sob cuidados na mesma creche irregular. Responsável pela casa que abrigava as crianças, Marli dos Santos também não foi localizada. Segundo os vizinhos, ela cuidava informalmente de crianças, cobrando de R$ 50 a R$ 100 por mês, havia 12 anos e nunca houve reclamação. "Ela é gente fina, cuida bem das crianças", afirma a doméstica Eliene Ferreira, de 32 anos, que trabalha há seis anos em frente à creche irregular.