Mão-de-obra da primavera

Mariana Abreu Sodré - O Estado de S.Paulo

Conheça alguns nomes bem-sucedidos no mercado de flores, suas especialidades e preferências

São 10 horas da manhã. O florista Vic Meirelles chega ao seu galpão na Vila Leopoldina, em São Paulo. Os funcionários já estão a todo vapor, separando flores e folhagens ao som da banda inglesa Radiohead. Vic também está agitado, e fiscaliza o ambiente. Depois de checar o perfeito funcionamento de sua empresa, que conta com 25 empregados e alguns freelancers, rapidamente monta a mesa que você vê na foto ao lado. Vic adora rosas. E ainda orquídeas e flores tropicais. Mas está "numa fase"de arranjos com folhas. "Não é uma questão de moda. Também estou revendo trabalhos dos anos 80, como o do florista inglês Kenneth Turner", conta ele, fã ainda do belga Daniel Ost e da nova geração japonesa. "Fazem loucuras com as flores, é incrível", fala, referindo-se a floristas consagrados no mundo, assim como ele é no Brasil. Com mais de 20 anos de mercado, Vic nunca foi aluno em nenhum curso de arranjo floral. "Gostaria de fazer, me acrescentaria muito e indico para os que querem começar na profissão", comenta o autodidata , já com a mão na massa. Enquanto conta da sua carreira, iniciada na Inglaterra, onde trabalhava como florista ainda nos anos 80 - e dos vôos que pretende alçar ao mercado funerário e de festas infantis -, Vic envolve uma espuma numa tela de arame e começa a criar um arranjo de folhas. Em poucos minutos, a criação está pronta. O florista ama o que faz, e diz que um bom profissional do ramo lucra, em média, R$ 250,00 por dia, enquanto um bom assistente tira R$ 80,00. "O mercado cresceu e mudou muito. Há muita concorrência hoje, mas, em contrapartida, há mais espécies de flores", acrescenta ele, que investe uma enorme parte do lucro em seu próprio negócio. CRIAÇÕES "INTUITIVAS" Joel Matsuoka e Clarice Mukai seguem a mesma linha. "A profissão tem uma boa rentabilidade, mas é preciso investir para se manter no mercado de luxo, muito exigente. Por isso digo que nosso dinheiro não pára", afirma Joel, que, ao lado da tia, é responsável pela manutenção das flores do shopping Iguatemi e da rede Fasano, e assina a decoração de muitas e grandiosas festas de casamento. A dupla define o arranjo ideal. "É aquele que tem forma, textura e equilíbrio. E que passa a sensação de ter sido feito de maneira intuitiva, como se a folhagem e as flores tivessem acabado de ser colhidas e colocadas imediatamente no vaso", pontua Joel. O truque para tanto? A prática e, claro, o talento. "Mas o arranjo ainda inclui as peças (vasos) usadas. É o conjunto", completa Clarice. "Para o Feminino, nós decoramos a mesa com arranjos que chamo de Mata Atlântica - por causa das folhagens - e usamos peças de design francês e chinês. Acho bacana juntar dois estilos que parecem ser completamente diferentes, mas que são muito parecidos nos detalhes", explica Joel, referindo-se à inspiração francesa e chinesa. Clarice entrou para o mercado como paisagista há 13 anos. Hoje, ela e o sobrinho prestam apenas consultoria no setor. Joel se interessou pelo ofício da tia - que, aos poucos, migrou para o mercado de flores - há cerca de dez anos, quando vinha passar férias no Brasil. Ele morava no Japão, onde trabalhava na agência de empregos do pai, e quando visitava a família por aqui, gostava de exercitar o hobby de decorador com a tia. Antes de decidir voltar ao País, passou pela Europa, onde fez cursos com Kenneth Turner e Paula Pryke. "Aí, minha carreira aconteceu de maneira quase natural", comenta. "No inicio, minha profissão não era muito bem compreendida. O mais importante para começar neste mercado é gostar muito de natureza, flores e decoração. É fazer com paixão e observar muito. O resto é conseqüência. Para ter técnica, faça um curso qualquer", afirma Joel. "Agora ser florista é cool", diverte-se. "Nem sempre foi assim", recorda-se. CLÁSSICAS E ATUAIS Florista por mais de duas décadas, Flora Sodré acredita que a popularização e o maior reconhecimento do ofício se deram no final dos anos 90. "Na época, o mercado de produção de flores foi incrementado, cresceu muito. Alguns fornecedores, antes pequenos, tornaram-se megaprodutores, e assim flores caras e raras ficaram mais comuns e com preços acessíveis, como é o caso da orquídea, por exemplo. Isso impulsionou o mercado de trabalho, que cresceu muito e trouxe maior variedade de flores", comenta Flora, que, ao lado da filha Juliana, atua no mesmo segmento de festas e casamentos grandiosos que Clarice, Joel e Vic. "O boom de festas e casamentos também colaborou muito para esse reconhecimento", completa Juliana, formada em Relações Públicas e seduzida pelo ofício da mãe há quatro anos. "Sinto-me privilegiada por trabalhar com flores, minha matéria-prima é a coisa mais bonita que existe. Vou a fornecedores há mais de vinte anos, e sempre me surpreendo com os aromas, cores e formas das flores", afirma Flora, comprovando que, além de cool, a profissão é muito prazerosa. "Contudo, o mercado não é o mar de rosas que muitos imaginam. Há espinhos também", frisa Juliana. "O pior é quando estamos contando com uma flor para uma festa e, na véspera, a flor chega (do fornecedor) imperfeita. Avisamos o cliente desta possibilidade e, por isso, sempre temos um plano B. Apesar de conhecermos todos os truques das flores, dependemos da natureza", explica Juliana, que herdou da mãe a paixão pelas flores e a expertise no assunto. Flora, por sua vez, teve seu talento descoberto por uma amiga. "Ela viu um arranjo de flores desidratadas na minha casa e encomendou vários para a loja que estava inaugurando", lembra-se. "As vendas foram boas e demos continuidade. Um dia, ela me pediu decoração com flores naturais para um jantar que estava oferecendo. Uma amiga gostou e começou o boca-a-boca", conta Flora, que, depois do sucesso, seguiu para a Europa. Estudou na Holanda, França e Inglaterra. "O resto é atualização. Pesquiso muito, viajo bastante. Busco referências da mesma forma que um estilista. Agora, por exemplo, aposto nos arranjos monocromáticos", conclui Flora, que também faz manutenção de decoração floral para empresas. E acrescenta: "gostamos de trabalhar com profusão de flores. Não somos minimalistas nem rococós, mas clássicas e sempre atuais." TALENTOS COMPLEMENTARES Assim como ela , a florista Aparecida Helena trabalha na companhia da filha, Lucia Milan. Além de festas e buquês, e de arranjos para casas e empresas (como o grupo JHS e a loja Le Lis Blanc), a dupla vende e entrega arranjos avulsos, como as floriculturas comuns. Mas tudo começou com os buquês que trazem aramado especial. Hoje, a maior fatia da empresa é dedicada aos eventos e festas. Tal qual Vic Meirelles, Aparecida Helena e Lucia são autodidatas. "Acho que é um diferencial. Nossos arranjos parecem feitos por floriculturas, ficam charmosos", explica Lucia. A paixão de Aparecida Helena (30 anos de carreira) pelas flores começou em Franca, no interior de São Paulo. Na cidade, a mãe dela mantinha um jardim impecável, do qual Aparecida adorava cuidar. O encantamento foi transferido para a filha e, há dez anos, Lucia trocou a vida de produtora de revistas pela de florista. "Sempre estive inserida neste universo. Lembro que andava com minha mãe pelo Ceasa quando era criança. Hoje, há coisas que faço melhor que ela, e outras que ela faz melhor do que eu", diz Lucia. E vale a pena financeiramente manter um serviço de entrega em uma empresa que atende megafestas? "Não é um grande volume, uma coisa de massa, mas vale a pena sim. Temos clientes fixos, como joalheiros e pessoas do mundo da moda, que gostam de mandar flores para os clientes. Trabalhamos só com flores frescas e gostamos muito da pessoalidade deste trabalho. Neste mercado, o boca-a-boca conta muito", afirma Lucia, que, junto com a mãe, Flora e Juliana Sodré, Joel Matsuoka e Clarice Mukai, e Vic Meirelles, forma o time A dos floristas da cidade que mais consome flores no País.