Mamãe, o presente de dia dos pais eu vou dar para você

Zé Enrico Teixeira - O Estado de S.Paulo

Esse domingo é Dia dos Pais, mas e se, como em 47,3 milhões de famílias no País, não há pai?

Todo segundo domingo de agosto é comemorado o Dia dos Pais no Brasil. Nesse ano, será em nove de agosto. Nas últimas semanas, o que mais pôde ser visto na TV, em revistas e na internet são propagandas que nos lembrem dessa data e o quanto devemos prestigiar o homem que nos criou. Nos shoppings, promoções nos incentivavam a comprar roupas, sapatos, livros para eles. Nas escolas fundamentais, as crianças são estimuladas a fazer um presente para o seu genitor. Mas e quando não há pai? E quando a única pessoa a se prestigiar são as mães? Ou melhor, as pães?

A palavra, homônima ao plural de pão, faz relação aos pais que assumem uma função dupla, tanto de pai quanto de mãe, na criação dos filhos. Esse é o caso de milhões de mulheres por todo o País.

No último censo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgado em 2010, verificou-se um aumento no número de lares chefiados por mulheres: São 57,3 milhões de domicílios brasileiros comandados por mulheres. Há dez anos, a parcela de mães chefes de casa era um quadro presente em um quarto dos lares do País (25%). Atualmente, essa realidade atinge quase 40% dos  domicílios.

Esses números desafiam o estereótipo da família. "Em tempos antigos o homem era o chefe da casa, principalmente porque era seu provedor, ou seja, era a pessoa que detinha as condições financeiras para prover todas as necessidades da casa e da família", explica Ramy Arany, assistente social e pesquisadora, co-fundadora do Instituto KVT. "Com o passar dos tempos as mulheres saíram de suas casas e foram para as frentes de trabalho como meio de auxiliar e aumentar o orçamento doméstico", continua ela.

Com o tempo, devido a recessões econômicas, períodos de guerra e outros fatores, as mulheres cada vez mais tiveram que ir para as ruas, para as indústrias e para o mercado de trabalho assumir um papel que sempre fora do homem. No entanto, elas não deixaram de lado sua atuação de coordenadar a casa. "Há quem diga que o chefe da casa é o homem, porém quem manda na casa é a mulher. Fica clara a ideia do quanto ainda é cultural em nossa sociedade o homem ser o chefe da casa, mesmo que a mulher mande por trás", diz Ramy.

Muitos fatores contribuem com esse aumento na quantidade de mulheres que lideram a vida doméstica, como maior inserção no mercado de trabalho, homens cada vez mais presentes dentro de casa, ao assumir o papel que por muito tempo foi delegado a mulher - cuidar da casa, dos filhos, fazer a limpeza, cozinhar. No entanto, muitos desses lares são chefiados por mulheres por simplesmente não haver outra opção. Dos mais de 57 milhões de lares chefiados por mulheres, 87,4% são de mulheres sem cônjuge e com filhos. Esse é o caso de Fabiana Moura e Bethania Fonseca, que compartilham com tantas outras mães a tarefa de criar sozinha seus filhos.

Fabiana é empresária e mãe de Beatriz, de oito anos, que ela cria sozinha desde os três, quando o pai deixou de dar assistência, inclusive financeira. “É complicado porque você tem que ser pai e mãe”, conta Fabiana. Ela diz que já deixou de levar a filha à escola no Dia do Pais para evitar constrangimentos. Por mais que muitos dos colegas da filha sejam criados por pais separados, uma situação cada vez mais comum, reconhece Fabiana, ambos estão presentes na criação dos filhos. Não é o caso da Bia.

“Hoje mesmo ela me falou ‘mamãe, o presente de dia dos pais eu vou dar para você’”, conta Fabiana, isso depois de anos guardando os presentes que a Bia fazia na escola a espera de um pai que nunca vinha buscar. Para que situações como essas fossem evitadas, afinal Fabiana não era a única das mães da escola a criar a filha sozinha, foi instituído o Dia da Família no lugar do tradicional Dia dos Pais, o que permitiu que Bia participasse das atividades no colégio. “Esse ano é para mim, mas ela já deu para o meu irmão. Mas geralmente é mesmo para mim; ela fala que eu sou ‘pãe’”, diz Fabiana, rindo.

Fabiana com a sua filha Bia, de oito anos

Fabiana com a sua filha Bia, de oito anos Foto: Arquivo pessoal

Apesar da pouca idade, Bia é muito independente, afirma sua mãe, além de lidar muito bem com a ausência do pai. Fabiana credita isso ao fato de sempre buscar conversar muito e ser o mais transparente possível com a filha. “Ela (Bia) está crescendo e está vendo o que acontece”, conta Fabiana. “Ela conversa bastante, ela é uma menina muito inteligente, então, para ela foi natural”.

“Acostumou (com a ausência do pai)”, diz Fabiana. “Esses dias eu perguntei se ela sentia falta (do pai), e ela disse que não sentia. Que nem lembrava mais”. Mesmo com essa independência da Bia em relação ao pai, Fabiana ainda acha que crescer sem a presença de um pai pode ter influência nas relações futuras da filha. “Falta uma participação masculina, de pai mesmo. Por mais que eu tente, isso vai interferir na vida dela mais para frente, na confiança dela com o pai, com os homens”.

Ainda que existam todas essas dificuldades e complicações, Fabiana ressalta que a confiança da Bia para com ela é a recompensa. “O amor deles, a inocência, paga qualquer esforço”.

O caso de Bethania, professora, difere em muitos aspectos da história de Fabiana, mas ainda há inúmeros pontos em comum. Mãe de duas meninas, Helena, de 19 anos, e Sofia, de 13 anos, Bethania está separada do pai das meninas, Paulo, há três anos, depois de mais de vinte anos casados. Apesar de Paulo ainda estar presente na vida das meninas, no dia a dia é Bethania quem cuida de tudo. “Eu acabei descobrindo que, embora, ele morasse com a gente, quem, na verdade, coordenava as coisas era eu”, conta ela.

Bethania (a esquerda) com suas filhas Helena, de azul, e Sofia, no meio

Bethania (a esquerda) com suas filhas Helena, de azul, e Sofia, no meio Foto: Arquivo pessoal

Bethania diz que achava que seria mais difícil criar as garotas sem a presença constante do pai, mas a partir da separação ela percebeu que não era tão complicada quanto pensou previamente. “Eu descobri, depois da separação, que eu já fazia muita coisa sozinha que eu não achava que fazia”, conta ela.

Rindo, Bethania conta que algumas semanas atrás, depois de arrumar a porta do armário da caçula Sofia, foi questionada por Helena: “Nossa mãe, você arrumou a porta do armário da Sofia? Bom, se você já arrumava tudo quando ele (o pai) morava (na casa), imagina agora que ele não mora, né?”. Mesmo ainda na época do casamento, uma independência entre as três já existia, com as duas filhas sempre aceitando muito bem a autoridade da mãe. “Não temos problema com aquela coisa ‘ah, vou falar com meu pai’. Elas pouco passam os problemas para o pai, principalmente a Helena”, diz Bethania.

Mais do que apenas uma figura de autoridade, Bethania reforça a ideia de figura de referência para as meninas, isso devido ao convívio muito mais próximo. “A gente sai os quatro (nos aniversários das meninas), e existem coisas na convivência de nós três, que ele fica meio de fora, tentando se entrosar”, conta ela. “O que eu descobri, depois dessa história toda, é que quem fazia o meio de campo na relação delas com ele era eu, e agora que eu saí da jogada, ele não sabe lidar com elas”.

Bethania e Fabiana ilustram níveis diferentes de uma mesma situação, comum a tantas mulheres País afora. O novo perfil de família brasileira coloca as mães num papel central, de provedora e chefe de família. Apesar de há muito tempo a mulher ser a principal figura na criação dos filhos, hoje vemos que em muitos casos ela acaba sendo a única. Assim, desejo que domingo você tenha um ótimo dia dos pais, mas também aproveite o seu Dia das Pães.