Mães canguru

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

A metodologia que faz das mães incubadoras naturais completa 30 anos, com vários ganhos para bebês prematuros

Grávidas e "grávidos" esperam nove meses pela chegada de um bebê saudável, gordinho e ávido pelo leite materno. Quando eles nascem antes do tempo, até os pais são considerados prematuros, só que em termos sentimentais. E quando isso acontece, é preciso se dedicar a esse bebezinho sensível, com peso inferior ao desejado e sem força nem para sugar o leite. Para ganhar peso e não correr risco de morte, ele vai ter de passar alguns dias internado no hospital antes de conhecer seu cantinho e receber visitas no conforto do lar.

Para diminuir o tempo de internação e aumentar o vínculo entre mãe e filho, os médicos Hector Martinez e Edgar Sanabria criaram a Metodologia Mãe Canguru, em 1979, na Colômbia. No Brasil, as primeiras instituições a aplicarem o método foram o Hospital Guilherme Álvaro, em Santos, no ano de 1992, e o Instituto Materno Infantil de Pernambuco, no Recife, em 1994.

A metodologia parece simples. E o bom é que a mãe pode ficar com o bebê o tempo todo. Ela senta-se confortavelmente, posiciona o filho entre seus seios, em contato direto, no chamado pele a pele - o que favorece a sintonia térmica, já que o prematuro tende a perder temperatura, por ser magrinho, e a mãe funciona como uma incubadora. Como esses bebês se esquecem de respirar, o que lhes provoca apneia, a própria respiração da mãe faz com que sejam estimulados a fazê-lo o tempo todo. Além disso, a mãe está pertinho caso se engasguem. "É um método barato e eficaz", garante Élide Biazoto, de 26 anos, mãe da prematura Yasmim, seu primeiro bebê, que nasceu na Maternidade Jesus, José e Maria, do Sistema Único de Saúde (SUS).

Para a médica neonatologista do Hospital São Luiz, Graziela Lopes Del Benn, se não houvesse a Metodologia Mãe Canguru, a mãe perderia essa fase e não teria a chance de acelerar a recuperação de seu bebê. "A terapia beneficiou e trouxe afetividade, tirando o aspecto pesado da internação", analisa.

Mãe de seu terceiro filho, que nasceu com 550 gramas, Thaís Cardoso Estevão Assis, de 30 anos, demorou dois meses para poder colocar em prática a Metodologia Mãe Canguru. "Ficava ansiosa e, ao mesmo tempo, tinha medo de tocá-lo, por ser tão pequeno", lembra. "Mas quando o segurei pela primeira vez, foi muito emocionante. É uma sensação maravilhosa sentir sua respiração", relata ela, que tem outros dois filhos que só conhecem o irmão por foto. O pequeno Iago já mostrou que é um lutador. Além do baixo peso, teve duas infecções, tomou muito antibiótico e sobreviveu a uma parada cardíaca enquanto a mãe conversava com ele pela incubadora. "Quem o vê hoje nem imagina o que já passou", emociona-se Thaís.

PRINCIPAIS GANHOS

Outro benefício do método é a manutenção da lactação e o treinamento para a sucção no seio da mãe, mesmo quando vazio. A probabilidade de infecção hospitalar também diminui, e, consequentemente, o uso de antibióticos. "A mãe fica no mesmo ambiente da criança, onde se coloniza com os microrganismos, fazendo com que o sistema imunológico dela responda, criando anticorpos que são transferidos para o bebê pelo leite materno", explica a enfermeira Monica Estella Gazmenga, que trabalhou durante 18 anos com "mães-canguru" e, hoje, é consultora da Johnson & Johnson para a formação de profissionais da saúde.

A cantora Cibele Daher, de 33 anos, mãe de um bebê que nasceu de 29 semanas, teve motivos para comemorar seu ingresso no programa mãe canguru. "O Artur ganhou 70 gramas no primeiro dia, parou de chorar, ficou mais calmo e ainda procurou meu peito para mamar", conta ela, que, até o bebê completar um mês, só podia passar a mão e conversar com ele pela incubadora. Lembra que, antes de fazer o pele a pele (outro nome dado à metodologia), chegava ao hospital às 8 da manhã e só saia à meia-noite, de tão ansiosa. Hoje chega por volta das 9 e fica até as 20 horas. "Foi um período difícil, mas também melhorei muito. Estou mais calma." Seu marido também participa, e ela garante que o bebê fica quietinho no peito do pai.

Segundo o pediatra e professor de pediatria na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcus Renato de Carvalho, um dos organizadores da Conferência 30 anos do Cuidado Mãe Canguru, que foi realizada no mês de junho, em São Paulo e no Rio de Janeiro, estudos comprovam que, no tratamento convencional da UTI, a criança fica mais estressada e menos alimentada, já que a mãe tem menos acesso a ela. "Pior é quando a mãe não se dedica e acaba abandonando o bebê, pensando que ele não vai vingar", lamenta o pediatra.

Na Unidade Neonatal do Instituto da Criança, no complexo do Hospital das Clínicas, há casos mais graves de prematuros com má formação ou que passaram por alguma cirurgia. Para incentivar as mães, são oferecidos benefícios como transporte e alimentação. Mesmo assim, algumas delas não podem passar muito tempo no hospital porque têm de cuidar de outros filhos. "A presença dos pais é fundamental para estabelecer o vínculo e formar uma unidade familiar", diz a enfermeira Mônica.

Quando a mãe não dispõe de um mínimo de três horas por dia, é melhor nem aproveitar esse curto tempo para aplicar o método, pois, assim, pode descontrolar o ritmo do seu bebê. "Ainda não temos a condição ideal, que é internar a mãe", lamenta o pediatra neonatal do Hospital das Clínicas, Mário Cícero Falcão.

Calcula-se que haja 20 milhões de bebês prematuros no mundo. Desses, 30% morrem antes de 1 ano. Na ocasião da conferência em comemoração aos 30 anos da Metodologia Mãe Canguru, também foram comemorados os dez anos do método como política pública no Brasil - ou seja, a possibilidade de as mães usufruírem do programa pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Cerca de 329 unidades hospitalares e mais de 7 mil profissionais foram qualificados no País.

A revisão da segunda Edição do Manual do Método Canguru está prevista para este ano, e trará informações científicas e procedimentos técnicos atualizados sobre o método. A interação e segurança que a mãe conquista ao cuidar do seu seu bebê prematuro faz com que a criança tenha alta mais cedo. É um programa baseado na humanização, mas que depende de um ingrediente essencial para a sobrevivência: o amor.