Hormônios em ebulição

- O Estado de S.Paulo

A adolescência é uma fase turbulenta de mudanças físicas, psíquicas e emocionais. Elas que o digam...

Adolescente, teenager, jeune fille, ragazza, joshi-kousei... Garotas entre 10 e 18 anos falam a mesma língua, não importa de que parte do mundo sejam. Paquera, sites de relacionamento, balada, sonhos de liberdade, as amigas, vaidade, TPM, sexualidade são alguns dos assuntos compartilhados por uma geração cada vez mais precoce. Para entender o que acontece com as meninas nessa idade, nada melhor do que uma especialista nas fases do feminino. A ginecologista e coordenadora do Centro de Apoio à Mulher com Tensão Pré-Menstrual do Hospital das Clínicas, Mara Solange Diêgoli, trata do assunto no livro A Mulher e os Sete Grandes Desafios (Editora Bartira). Segundo ela, os desafios são a adolescência, amor, maternidade, profissão, TPM, menopausa e felicidade. Ela lembra que a adolescência é a fase da vida que vai dos 10 aos 18 anos. "Lentamente, o corpo da menina vai sendo invadido por uma avalanche de hormônios, que, indiferentes à sua vontade, vai mudando totalmente seu corpo e mente, transformando-a numa mulher." Puberdade e adolescência são conceitos diferentes, embora interligados. O primeiro é um termo que engloba essencialmente o desenvolvimento somático ou biológico, assinala a ginecologista. As transformações físicas ocorrem por volta dos 10 anos, quando os hormônios femininos começam a invadir a corrente sanguínea. Inicialmente, surge o estrógeno ou estrogênio, hormônio da feminilidade, que é liberado pelos ovários e vai atingir diferentes partes do corpo, provocando as modificações próprias da puberdade. Depois, vem a progesterona, responsável pela menstruação e gravidez. Os hormônios atuam primeiramente nas mamas, que começam a crescer por volta dos 10 anos e completam o seu desenvolvimento aos 18 anos. Por isso, como os seios ainda estão se formando, uma cirurgia plástica redutora não é recomendada antes dos 17, 18 anos. "Antes de optar pela cirurgia, é preciso levar em conta que, caso a adolescente esteja acima do peso, ela pode emagrecer. E como a mama é composta de tecido mamário e gordura, a redução do peso diminui muito o seu tamanho." A altura, diz a médica, depende de vários fatores: o mais importante de todos é a genética. A altura final da criança oscilará entre a do pai e a da mãe. No entanto, outros fatores, tais como alimentação, prática de esportes - especialmente no sol, que ajuda os ossos a absorverem melhor o cálcio -, doenças, medicamentos e hábitos de vida influenciarão positiva ou negativamente na estatura. O peso é um drama para muitas meninas, influenciadas pela mídia e padrões fashion de magreza. De acordo com a médica, entre os 10 e 14 anos, a cintura fica mais evidente, e a gordura vai se acumulando principalmente nos quadris. Evitar a obesidade nessa idade é fundamental, devido a vários aspectos, não somente físicos, mas também psíquicos. "O excesso de calorias ingerido diariamente, se não for consumido, ficará armazenado no fígado, barriga, coxas, mamas e na região abaixo do queixo." Surgem, então, as estrias e a celulite. A solução mais eficaz é gastar mais do que o ingerido. Os pais devem ficar atentos aos extremos da alimentação, pois a obesidade pode gerar problemas de saúde futuros. Por outro lado, as dietas e remédios sem orientação levam à anorexia e bulimia. Uma dúvida comum é sobre a primeira visita ao ginecologista. Segundo Mara, a ida ao consultório é indicada quando a menina já menstruou ou apresenta ciclos menstruais irregulares ou com dor. Ela lembra que a menstruação normal deve durar de três a cinco dias. Na primeira consulta, o ginecologista deve atuar da forma mais natural possível e jamais forçar o exame físico - o uso do espéculo nunca é feito em paciente virgem. O importante é abrir um canal de comunicação e confiança entre a adolescente e o seu médico, para que este possa lhe mostrar a importância de conhecer as mudanças que estão ocorrendo no seu corpo e as formas de evitar a gravidez. A cólica menstrual ocorre principalmente na adolescência, pois o útero está imaturo. Quando a mulher menstrua, ela libera grandes quantidades de prostaglandina, o que provoca vários sintomas, como dores de cabeça, nas mamas e nas pernas. Podem ocorrer enjôo, diarréia e até mesmo desmaio, quando a dor é muito intensa. "Felizmente, hoje, existem vários medicamentos que aliviam a dor, entre eles, os antiinflamatórios não hormonais, analgésicos e os relaxantes musculares." De acordo com a médica, o mau humor, a irritação, a agressividade, o choro fácil e a depressão passam a fazer parte do dia-a-dia das adolescentes. Procurar ajuda quando a situação se torna insustentável é muito importante, pois são altos os índices de suicídio na adolescência. Concluindo, ela observa que o diálogo entre mãe e filha é fundamental nessa idade: - Quanto pior o relacionamento entre mãe e filha, maior o risco de a adolescente engravidar. Meu conselho às mães é que tentem, ao máximo, se aproximar de suas filhas, conhecendo suas dúvidas, seus medos, suas inseguranças. Ajude-as a adquirir auto-estima, que é fundamental em tudo na vida. Vá com ela ao ginecologista, mas pergunte se ela não prefere conversar a sós com o médico. Mostre que você já passou por tudo isso e, sempre que ela precisar, você estará do lado dela para ajudá-la. Mas lembre-se sempre de que você é a mãe, e não a amiguinha. O seu papel é educar com amor, mas com limites. Flor da idade Na escola, na balada ou no shopping, lá vão elas em grupinhos, cochichando e dando muita risadaaaaaa - o "a"arrastado é como elas costumam escrever no computador. Quando perguntadas sobre o que é mais bacana nessa idade, a resposta foi uma só: as amigas. E a coisa mais chata? Mais uma vez, houve unanimidade: a marcação cerrada dos pais com horários. Para Beatriz Araújo dos Reis, de 14 anos, estudante do ensino fundamental, o melhor de ser adolescente é poder sair com as amigas e com o namorado, da mesma escola e um ano mais velho. O mais chato, diz, é não ter liberdade. Depois, lembra de outra coisa chata, a TPM. "Eu tenho cólica, os seios incham e eu fico estressada." Atenta às questões de sexualidade, em casa, ela tem duas excelentes confidentes: a mãe, a quem pode fazer qualquer pergunta, e a irmã mais velha, de 17 anos, com quem pode trocar confidências. Beatriz tem duas outras amigas da mesma classe, Juliana Moreira e Lidia Carolina Dourado Pinto, ambas de 14 anos. Juliana, com 1,60 metro e 48 quilos, exagera e diz que encana com a barriguinha. "Quando tenho de encarar o biquíni, corto o chocolate e os doces." Vaidosa, gosta de rímel, lápis, base, sombra e gloss. No máximo, usa um sabonete antes de dormir, para controlar a oleosidade. Sem namorado por enquanto, confessa que os meninos da mesma idade que ela são bobos. Prefere paquerar os mais velhos. Já Lidia diz que adora a companhia das amigas nas baladas e viagens. Por enquanto, está só na fase das paqueras e também acha que as meninas são mais maduras do que os garotos nessa faixa de idade. O sonho de se tornar modelo trouxe a matogrossense Fernanda Wemmeir, de 15 anos, para São Paulo. Ela mora em um apartamento com outras meninas da agência BRM Models, e está curtindo a liberdade que não tinha na cidadezinha onde nasceu. "Mesmo assim, minha mãe me liga todos os dias", conta. Alta e com um corpão, ela diz que se chateia por parecer uma garota de 19, 20 anos. Por isso, nada de maquiagem pesada, "só um gloss, rímel e blush, para dar um ar de saúde." Quando o assunto é sexo, gravidez e prevenção de doenças, a adolescente se considera informada, assiste às palestras que tem na escola e diz que tem um canal aberto com sua avó. Por sua vez, a amiga Juliana Lima, de 16 anos, conta que gostaria de fazer jornalismo com especialização em moda. Curiosa, pergunta como é a profissão e se anima. O assunto muda para vaidade. "O meu grilo é o peso. Já fiz dieta com nutricionista, Vigilantes do Peso, South Beach e regime que corta os carboidratos", conta. Só na fase da paquera, é a única do grupo de entrevistadas que não acha os meninos machistas. Sexo Apresentador do programa Ao Ponto, da TV Futura, colaborador de veículos impressos e de rádios, e autor de vários livros como Álcool,Cigarro e Drogas, Corpo dos Garotos, Corpo das Garotas e Primeira Vez, o psiquiatra Jairo Bouer é uma referência em saúde e comportamento dos jovens. No seu site, ele responde a todos os tipos de dúvidas (cerca de 30 a 40 por dia). A média da idade das garotas que acessam o site varia de 12 a 17 anos e, segundo Jairo, as perguntas acompanham a faixa etária. "As mais novas têm dúvidas sobre as mudanças corporais. A partir dos 15, surgem as dúvidas sobre orgasmo, prevenção da gravidez, pílula, DST e Aids." Em tempos de internet, programas de TV especializados em sexo, além de livros e revistas teen, o que chama a atenção são algumas dúvidas, no mínimo, bizarras, que até parecem brincadeira - mas, segundo Jairo, são de jovens sem nenhum tipo de acesso à informação. É o caso de uma garota que se masturbou com uma caneta aos 15 anos e, aos 18, achava que a tampa estava dentro do seu corpo, ou de outra que queria saber se a posição de ponta-cabeça após a relação ajudava a evitar a gravidez. "É uma mistura de desconhecimento do assunto com mitos populares", fala Bouer, que reuniu em um livro - Sexo & Cia. As Dúvidas Mais Comuns (e as Mais Estranhas) que Rolam na Adolescência - essas questões mais inusitadas. O homossexualismo - assunto que aparece com freqüência -, segundo ele, não é um tema fácil, mas deixou de ser o tabu de tempos atrás. "Uma pergunta clássica é: conto ou não conto para os meus pais? Fica a critério do adolescente. Ele sabe intuir como será a reação da família." Outra preocupação é a gravidez precoce, com impacto maior nas classes menos favorecidas, sem acesso aos meios de prevenção. No entanto, nem sempre a classe social é fator determinante. Bouer cita uma pesquisa feita no ano passado em parceria com o Grupo Positivo Portal Educacional, com 10.223 alunos de 70 escolas particulares do Brasil. "Uma das perguntas era: ‘você se preocupou com uma possível gravidez após transar?’ 47% responderam que sim. Isto significa que quase a metade dos entrevistados ou não usava método contraceptivo, ou não não usava camisinha." Estética Segundo a dermatologista Patricia Rittes, as principais queixas das meninas são os cravos, espinhas e as manchas vermelhas deixadas pelas mesmas. Tanto cravo quanto espinha são nomes populares para diferentes estágios de acne. O primeiro é um ponto preto e o segundo é acompanhado por um processo inflamatório, virando um ponto vermelho na pele, com ou sem pus, geralmente dolorido. "Nenhum dos dois deve ser espremido, pois isso pode agravar o processo e deixar cicatrizes. Só um médico pode indicar a melhor solução, como ácidos retinóicos ou antibióticos tópicos e orais, para controlar o número de bactérias, e ainda loções e sabonetes para controlar o sebo", explica a médica. O laboratório Roche criou, em 2000, o Projeto Cucas (Companheiros Unidos Contra a Acne), um site com dicas e informações sobre o problema, que afeta cerca de 18 milhões de jovens brasileiros. Segundo Carina Braga, gerente de produtos da empresa, de 1 mil a 2 mil pessoas por mês acessam o site. "Há muitos mitos e receitas caseiras que só agravam o problema. O objetivo é esclarecer as dúvidas, sempre com o cuidado de sugerir a consulta de um médico, pois cada caso requer um determinado tipo de tratamento." Uma dermatologista responde, no prazo de 48 horas, às perguntas, e participa de um chat ao vivo, todas as terças, das 10 às 20 horas. Outro grilo das meninas é a celulite. Com o consumo de lanches tipo fast-food e refrigerantes, nem as magras escapam. A prevenção é o exercício físico orientado e constante. "Pode ser natação, alimentação saudável, caminhadas, bicicleta, enfim, aeróbicos com gasto de energia. Os tratamentos mais indicados são os não invasivos, ou seja, sem medicamentos nem injeções. A drenagem linfática manual pode ajudar e, entre as novidades tecnológicas, o aparelho Velasmooth, que combina luz infravermelha e rádio freqüência, melhora a flacidez e textura cutânea." Segundo a dermatologista, as estrias podem ser tratadas e disfarçadas. O tratamento consiste em fazer com que diminuam de espessura e fiquem menos visíveis, mas vale lembrar que nunca vão desaparecer totalmente, pois são cicatrizes. O creme Strivectrim tem bons resultados e deve ser aplicado diariamente por três meses no local. "As injeções com vitamina C e Polidocanol são feitas pelo médico e os resultados são fantásticos, porém, o procedimento deixa hematomas, é doloroso, sendo indicado para o inverno." Outros probleminhas típicos da idade, que podem ser citados, é o hábito de roer unhas e a oleosidade da pele (os sabonetes adstringentes são indicados). Nicho de mercado Cada vez mais atentas às pesquisas de mercado e consumo desse público-alvo, as empresas de cosméticos investem em novidades. O Boticário saiu à frente com a nova linha Manu, da coleção Cores, maquiagem praticamente criada pelas consumidoras teen. Para traçar os desejos das adolescentes, duas gerentes de produto da marca acompanharam um grupo de meninas durante um fim de semana. Anotaram os itens que poderiam contribuir para a criação da coleção, entre eles, visual moderno, preço acessível (já que as garotas compram os produtos com mesadas ou semanadas), tipo de embalagem (pequena, para caber nas bolsinhas que levam para a balada), etc. A grande novidade é o Cel Gloss, um brilho com sabor de baunilha para ser pendurado no celular. Tipo dois-em-um, o Lápis Borracha tem a vantagem de apagar pequenos erros da maquiagem sem ter de refazê-la. Mas o objeto do desejo é a bolsa superdescolada da Manu, onde cabem celular, iPod, dinheiro, documento. O kit vem com lápis preto, brilho rosado, minimáscara preta, sombra iluminadora rosa. A marca de cosméticos Contém 1 g também é associada ao público teen. Segundo a gerente de marketing de varejo, Paula Jacomassi Quintana, a marca atende, na verdade, todas as mulheres com espírito jovem, modernas e antenadas com o mundo da moda. "Na época de sua criação, a empresa não teve a intenção e nem definiu como uma estratégia de marketing o foco no mercado jovem. Isso aconteceu naturalmente." Entre os dez produtos mais vendidos da marca, destaque para o creme fix (cosmético incolor, que fixa a maquiagem), lápis retrátil de olhos, sombra em pó dourada e emulsão para o corpo de morango e champanhe. A linha Faces, da Natura, também investe no visual jovem e em embalagens práticas. Destaque para a sombra creme em bisnaga, para ser usada com os dedos, o blush compacto, a base com textura leve não oleosa e o minigloss em vários tons de rosa.