Homens e mulheres alinhados

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

Pesquisas mostram que homens e mulheres, sobretudo na classe AA, estão afinados quanto a escolhas e valores

Com a participação feminina em todos os segmentos da sociedade, as diferenças conceituais (antes, gritantes) entre homens e mulheres parecem estar com os dias contados. É o que aponta uma pesquisa do IBOPE Mídia, realizada em junho, com dados da ferramenta Target Group Index. Segundo Juliana Sawaia, gerente de marketing do instituto, foram feitas 9.728 entrevistas com pessoas acima de 20 anos de todas as classes econômicas. O estudo abrangeu questões relativas a comportamento, hábitos de consumo e às expectativas dessa faixa da população em relação ao futuro.

 

As maiores afinidades, observa Juliana, podem ser observadas em assuntos essenciais e nas projeções para os próximos 12 meses. Como exemplo, eles e elas concordam com a importância de manter uma relação duradoura com um só companheiro ou companheira, opinião compartilhada por 84% dos pesquisados. As expectativas quanto ao futuro têm resultados bem próximos, como os planos de comprar uma casa (12% eles e 11% elas), reformar o imóvel (ambos com 9%), comprar o primeiro automóvel (8% eles e 7% elas), começar a faculdade/universidade (3% eles e 5% elas), vender/mudar de casa (4% eles e 6% elas).

 

Homens e mulheres foram perguntados, ainda, se concordam total ou parcialmente com as seguintes frases: "Como eu gasto o meu tempo é mais importante do que o dinheiro que ganho" (55% eles e elas) e "aproveito o presente sem preocupar-me com o futuro" (os homens se preocupam mais, 36%, e as mulheres menos, 32%). E quem é mais baladeiro, eles ou elas? Segundo a gerente de marketing, os homens (73%) foram mais incisivos ao afirmar que preferem passar uma noite calma em casa do que sair. Já 70% das mulheres concordaram com essa afirmação.

 

Mas, se o assunto se voltar para os papéis masculinos e femininos, 87% das mulheres acham que as tarefas domésticas deveriam ser compartilhadas pelos dois, e apenas 80% dos homens pensam o mesmo. Preguiça, machismo? Nada disso. Para Juliana, os homens gostariam de ser mais participativos, porém, conceitualmente a casa é o território delas: "Eles demonstram que, se pudessem, deixariam de trabalhar para cuidar do lar", comenta. Questionados sobre antigos preconceitos de gêneros, o público masculino confirma-se mais convencional: 16% deles acreditam que "o lugar da mulher é dentro de casa", contra 9% delas. "É bom lembrar que 16% não é um índice muito significante. Os homens brasileiros são menos machistas que os latino-americanos", compara. E, apesar dos tempos, como naquela música de Martinho da Vila, homem que é homem não chora para 18% dos entrevistados, contra 12% das entrevistadas.

 

As diferenças entre ambos evidenciam-se em relação à estética: 40% das mulheres estariam propensas a fazer cirurgias para melhorar o visual, enquanto apenas 29% dos homens concordariam com a ideia. No entanto, os números provam que eles estão cada vez mais vaidosos: para 74% dos homens, é importante estar atraente para o sexo oposto. No caso delas, esse índice é de 72%.

 

Na hora de consumir, na ocasião em que foi feita a pesquisa, 66% das mulheres haviam realizado compras pessoais nos últimos 30 dias – contra 60% de homens. Com exceção das compras feitas pela internet e por catálogos, as preferências se aproximam. Segundo o estudo, 76% dos homens e 85% das mulheres fazem compras em lojas de rua, seguidas de compras em shoppings (65% eles e 64% elas); em lojas de departamento, dentro e fora de shoppings, (50% eles e 52% elas); hipermercados (41% eles e 38% elas); galerias comerciais (23% eles e 22% elas); por catálogos (15% eles e 28% elas); ambulantes (20% eles e 21% elas) e pela internet (20% eles e 13% elas).

 

Algumas diferenças são notadas quanto aos interesses e tempo de uso da internet, segundo uma outra pesquisa (NetRatings/IBOPE Nielsen Online), levantada em junho com homens e mulheres acima dos 20 anos. Os homens passam muito mais tempo navegando na net, seja em casa ou no trabalho. Em casa, a marca masculina é de cerca de 50 horas/mês, e a feminina, em torno de 35 horas/mês. No trabalho, o tempo médio mensal de uso do computador dos homens é de cerca de 92 horas; e o das mulheres, de 66 horas.

 

Família e estilo de vida, entretenimento, programas de busca, portais e comunidades virtuais são as áreas de maior interesse masculino. Crianças, jogos e brinquedos, religião e espiritualidade, saúde, fitness e nutrição, casa, jardinagem, moda, além de portais e comércio eletrônico, são o menu preferido delas.

 

OUTRAS PERCEPÇÕES

Um outro estudo, Movimentos Femininos, feito pelo IBOPE Inteligência em parceria com o Grupo Abril, ouviu 1.750 mulheres entre 18 e 49 anos, das classes AA, AB e C, de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Salvador e Recife. O levantamento traz um painel das aspirações femininas e o compara com os resultados de uma pesquisa qualitativa feita com homens da classe AB. Comparada com monitoramentos realizados anteriormente, entre 2003 e 2005, a pesquisa sinaliza mudanças relevantes nas atitudes e nos valores desse grupo: "A mulher brasileira está se tornando menos conservadora e mais voltada para o presente do que para o futuro. Isto significa uma maior preocupação com qualidade de vida e a busca por prazeres imediatos. Também constatamos que se acentua o desejo e a busca por maior autonomia, ou seja, maior liberdade nas escolhas", explica Nelson Marangoni, CEO do IBOPE Inteligência.

 

Quanto a temas polêmicos, as mulheres AA mostram-se menos conservadoras e críticas, distanciando-se daquelas das demais classes e dos homens. Exemplos: 28% das entrevistadas nesse estrato social mostram-se a favor da legalização das drogas, contra 16% dos homens; e 57% são a favor da legalização do aborto, quesito que tem a aprovação de apenas 30% dos homens.

 

O casamento é um desejo comum para mulheres de todos os níveis sociais. No entanto, as da classe AA superam as demais quanto às expectativas em relação ao parceiro ideal. Cinquenta por cento delas listam 21 qualidades que gostariam de ver no pretendente. Na classe C, 83% das mulheres disseram que são necessárias 11 qualidades, o que é similar às da classe AB, já que 62% delas buscam um marido que tenha 13 qualidades.

 

No quesito qualidade de vida, mais uma vez as mulheres da classe AA se diferenciam. Para elas, trabalhar no que gosta (86%) supera o desejo de ter filhos (54%). Já para as mulheres da classe C, o porcentual é de 54% e 65%, respectivamente; e, para eles, a marca é de 69% e 63%. E foi-se o tempo em que prazer era privilegio exclusivamente dos machos. Sexo de qualidade é fundamental para 78% das mulheres da classe AA, índice que cai para 53% no caso de mulheres AB e 50% para mulheres da classe C. Em suma, os índices mostram que mulheres de nível social elevado não se contentam com pouco.