Faltam foco e método na escola brasileira

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Pesquisa mostra que tempo de aula é gasto copiando textos da lousa

Estudantes brasileiros passam a maior parte das aulas copiando instruções escritas na lousa pelo professor, não participam ativamente das atividades, ficam entediados em vários momentos e se distraem rabiscando no caderno ou conversando com colegas. Com isso, têm dificuldades em entender conceitos, resolver problemas e não chegam a aprender todo o conteúdo dos livros didáticos. O cenário pouco estimulante das salas de aulas do País é retratado em pesquisa feita pelo americano Martin Carnoy, professor de economia da educação da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e consultor em políticas de recursos humanos do Banco Mundial, da Unesco e da OCDE. O pesquisador filmou aulas de matemática da 3ª série das escolas brasileiras, chilenas e cubanas - traçando uma comparação entre métodos e desempenho dos alunos de cada um desses países para entender porque os cubanos têm melhores notas em avaliações internacionais. "O professor no Brasil passa mais tempo escrevendo na lousa de costas para o aluno. Já os chilenos e principalmente os cubanos interagem com os alunos, resolvendo com eles os problemas a partir dos seus próprios erros, seguindo um currículo definido", explica Carnoy. Ele apresentou ontem um seminário sobre sua pesquisa para especialistas, pesquisadores e gestores da educação em seminário organizado pela Fundação Lemann e pelo Insper. "Os professores precisam ser melhores treinados e supervisionados por mais tempo. Sem isso, os estudantes não aprenderão e não terão uma educação de qualidade", ressalta. No Brasil, essa falta de controle e foco dentro de sala de aula é o resultado, segundo o pesquisador, de um sistema descentralizado, sem currículo definido, que prepara mal o professor e não acompanha o que ele faz e como faz - apesar de haver a figura do supervisor e coordenador de ensino nas redes. Ou seja, o docente tem pouco conhecimento da disciplina, não sabe transmitir o conteúdo, não sabe o que deve ser ensinado e, por fim, ninguém acompanha como ele dá suas aulas. "A pesquisa é excelente e mostra os nossos problemas no contexto em que eles são criados, fazendo uma ponte entre os estudos econométricos e as ciências sociais, o que falta na pesquisa brasileira", afirma Maria Helena Guimarães de Castro, consultora em educação e ex-secretária da Educação do Estado de São Paulo.