''Estava pilhando o planeta e não queria deixar esse legado''

Giovana Girardi - O Estado de S.Paulo

Após cobrança de clientes, empresário americano transformou produção de carpete em operação de menos impacto

De empresário altamente poluidor a herói do meio ambiente, nomeado pela revista Time, o empresário americano Ray Anderson é considerado um dos líderes da busca pela sustentabilidade. Dono de uma empresa de carpete, produto feito com derivados de petróleo que consumia por ano cerca de 500 mil toneladas de matéria-prima e queimava mais sete vezes isso em combustíveis fósseis, ele conseguiu reduzir drasticamente seu impacto ao mudar o modo de produção - hoje o tecido é feito a partir de garrafas PET, por exemplo. Em entrevista por e-mail Anderson conta o que fez para mudar. O que o motivou a mudar seu processo de produção? No meio dos anos 90, nossos clientes começaram a nos questionar a respeito de nossa postura ambiental. Nossa divisão de pesquisa organizou uma força-tarefa ambiental e me pediu para dar o pontapé inicial. Francamente, eu não tinha visão, estava só obedecendo, obedecendo, obedecendo. Por pura sorte, alguém me enviou uma cópia do livro The Ecology of Commerce (A Ecologia do Comércio, sem tradução em português), de Paul Hawken. Ele mudou minha vida. A premissa de Hawken era que os empresários são responsáveis pela destruição da Terra e são os únicos poderosos o suficiente para interrompê-la. Foi um momento de epifania. Eu fiquei espantado pelo impacto do sistema industrial no ambiente. Uma nova definição de sucesso começou a surgir na minha consciência. Eu estava pilhando o planeta e este não era o legado que eu queria deixar para trás. Eu dei então à força-tarefa a missão de converter a Interface em um empreendimento de renovação. Eles desenvolveram uma estratégia de sete etapas que nós chamamos de Missão Zero - reduzir, reusar, recuperar, reciclar (adicionamos posteriormente redesenhar); adotar as melhores práticas de negócio e então avançar e dividi-las; desenvolver tecnologias sustentáveis e investir nelas quando faz sentido econômico e desafiar nossos fornecedores para acompanhar nossa direção. O que vocês tiveram de fazer para transformar a Interface em uma empresa verde? Quais são os resultados obtidos até agora? A Missão Zero tem como objetivo eliminar nossa pegada ambiental (impacto causado ao meio ambiente) negativa até 2020. É desse modo que nós falamos que vamos escalar o "Monte da Sustentabilidade". As sete frentes que eu descrevi antes são o nosso mapa para chegar lá. Comparando com a situação em 1996, reduzimos os desperdícios em cerca de 52%, o que gerou US$ 353 milhões de custo evitado. Reduzimos as emissões de gases-estufa em 88% e o consumo de água em 79%. Fomos capazes de diminuir em 47% a fumaça de nossas chaminés com a mudança dos processos e reduzir 81% dos nossos efluentes. Recuperamos cerca de 60 mil toneladas de produtos usados que trouxemos de volta para nossas fábricas para fechar o círculo de fluxo de materiais. Seis de nossas 11 fábricas funcionam hoje com 100% de energia renovável. Alguns empresários ainda acreditam que competitividade não combina com sustentabilidade. O que o senhor diz para eles? Gostamos de dizer que não se pode fazer um produto verde em uma empresa marrom. Em outras palavras, sustentabilidade é mais que um produto ou um programa, é um novo modelo de negócios, e isso, na maioria dos casos, significa mudar a forma de olhar para cada aspecto da empresa, desde as fontes, o desenho e a manufatura dos produtos, passando por como chega ao mercado, até o que acontece quando a vida útil do produto chega ao fim, ou como o recupera e o recicla. O que o senhor sugere para aqueles que querem trilhar o caminho da sustentabilidade, mas não sabem como? Um bom amigo meu, Amory Lovins, do Instituto Rocky Mountain, freqüentemente costuma dizer: "Se existe, então deve ser possível." Ao que eu adicionaria: Se podemos fazer isso, então qualquer pessoa pode e, se qualquer pessoa pode, então todo mundo pode. Em outras palavras, todos nós temos o poder de fazer a diferença.