Estado civil: solteira

- O Estado de S.Paulo

Mulheres solteiras, na faixa dos 30 anos, preocupadas com a estabilidade financeira, conquista da autonomia e ascensão na carreira revelam que o casamento, hoje, ocupa um segundo plano em suas vidas

Priscilla. Só se casaria se valesse muito a pena, pois gosta do tipo de vida que leva

 

O diálogo é familiar para muitas, conta a professora de inglês Priscilla Manfredini:

 

- Quantos anos você tem?

- Trinta e um.

- Já casou?

 

Esse é o tipo de pergunta que ela escuta toda vez que revela a idade. Os interlocutores se espantam pelo fato de a paulistana ter chegado à casa dos 30 sem ter trocado alianças. Priscilla diz que não se incomoda mais com o fato e que não está nem um pouco preocupada com casamento. Seu foco, no momento, é a carreira profissional e a conquista de bens materiais, como a casa e o carro próprios.

 

Casamento, aliás, para ela, nunca foi uma prioridade, muito menos uma urgência. "Acho que as pessoas estipulam datas, idades para se fazer as coisas, casar principalmente. Não acredito nisso." Aos 15 anos, ela saiu da casa da mãe, que se mudara para Itatiba, interior de São Paulo, e foi morar com o pai. A partir de então, começou a ter sua independência. "Pai não é que nem mãe, que está o tempo todo do lado, aí eu tive que aprender a me virar", relembra.

 

Passados 16 anos desde a mudança, Priscilla tornou-se uma mulher ainda mais independente. "Estou num momento de dedicação ao meu trabalho. O foco é esse", conta. Quando tinha 17 anos, pensava em se casar logo que completasse 25. A tal idade chegou e ela não se casou. "Estava muito ocupada com a minha vida profissional para me preocupar com casamento", relata.

 

A pressão para subir ao altar começou a ser sentida quando se aproximou dos 30. "As pessoas partem do princípio de que, se tenho 31 anos e ainda não estou casada, eu não vou me casar nunca mais." Mesmo com tanta pressão, ela diz que não pensa em casamento. "Se for para me casar agora, tem de valer muito a pena, porque do jeito que está, está muito bom", completa Priscilla.

 

Mais exigente. Sucesso profissional também é o objetivo de Daniela Perrotti, 33 anos. A executiva de contas diz que, no momento, sua grande ambição é a ascensão na empresa onde trabalha. "Além disso, a prioridade de sempre é estar feliz, independentemente de relacionamentos." Daniela vê com naturalidade o fato de ser solteira, e acredita que o matrimônio deve acontecer de forma espontânea.

 

Reconhece, porém, que, com o passar da idade, ficou mais exigente. "É difícil, depois de alguns anos solteira, abrir mão da rotina e liberdade." E diz que, observando casamentos alheios, passou a perceber que a infelicidade é uma constante nas uniões em que "a mulher forçou a barra para se casar." "É claro que sonho em casar, ter família e filhos, mas jamais só para falar que sou casada", confessa.

 

Mas Daniela reclama da falta de iniciativa dos homens, que, segundo ela, são receosos em dar o primeiro passo e se aproximar de mulheres com mais de 30. Se elas forem independentes, como a própria, a situação torna-se ainda mais complicada.

 

Ter 33 anos e estar solteira não é um fato que a incomode. "Outro dia minha avó comentou que eu não tenho vocação para casar", diverte-se. Sempre que é indagada sobre o estado civil, Daniela é categórica ao afirmar que ainda não achou a pessoa certa e, de forma bem humorada, vai driblando a pressão exercida pelos outros.

 

Outras metas. Apesar de ainda não ter completado os 30, a atriz Wanessa Morgado, 28 anos, é mais uma que entra para o time de solteiras que focam na estabilidade profissional. Diz que quitar seu apartamento é outro sonho pelo qual vem batalhando.

 

Wanessa. Um dos seus principais objetivos hoje é conseguir quitar o apartamento

Wanessa diz que o fato de não ter encontrado o "noivo certo" e não ter de dar satisfações a ninguém acerca dos acontecimentos de sua vida são pontos que contribuem para que o casamento não seja seu foco no momento.

 

A atriz também diz que as pessoas cobram que ela se case. "Às vezes, isso é tão forte que a gente mesmo se cobra", relata. No passado, confessa ter sido "muito namoradeira". Chegou a morar junto, mas a relação não durou. "Terminou porque algo fundamental acabou, mas aprendi demais, me sinto outra mulher ." Hoje, declara que é hora de ficar só e dedicar-se ao trabalho - é integrante de um grupo de mulheres que faz comédia no formato stand up, o Humor de Salto Alto.

 

 

OPINIÃO

Ana Claudia Simões, psicóloga e psicoterapeuta

 

A profissional confirma que as mulheres, hoje, estão passando por uma mudança comportamental, e a busca pela "autonomia e independência financeira" é o principal foco em suas vidas. Mas pondera: "Elas não estão deixando de lado o casamento. Ele simplesmente passou a ser um dos sonhos."

Diz que o padrão típico da esposa, sempre em casa, com jantar preparado, dedicada aos filhos, ficou para trás. "A vida hoje requer praticidade. As que trabalham fora, ou que têm uma carreira a perseguir, não têm tempo nem desejo de serem só mães e esposas."