Escambo descolado

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

No Super Cool Market, pode-se comprar e vender roupas usadas e, o que é melhor, também são feitas permutas com as peças

Antes de abrir seu próprio negócio, três amigas - hoje, também sócias - encomendaram uma pesquisa para saber qual a imagem que as pessoas tinham dos tradicionais brechós espalhados pela cidade. As frases mais comuns associadas a esse segmento foram: "ambiente sujo e empoeirado", "roupas cheirando mal e amontoadas", "tem que garimpar muito para encontrar algo legal", "lugares pequenos e abafados", "peças muito antigas e fora de moda".

 

Com esses indicadores negativos em mãos, Carla Lamarca, Daniela Klaiman, ambas de 27 anos, e Samantha Barbieri, de 26, criaram soluções para inaugurar um modelo de brechó diferente, o Super Cool Market. Localizado na Vila Madalena, está instalado num galpão amplo e arejado. As roupas de segunda mão são selecionadas antes, e só vão para as araras peças contemporâneas e higienizadas, que ficam organizadas por numeração e estilo. Lá não entra velharia com cheiro de naftalina ou modelitos do arco da velha.

 

"Queríamos quebrar a barreira das pessoas com relação aos brechós, tornando-as mais receptivas à nossa proposta", avisa Daniela, que se formou em Publicidade na Faap (Fundação Armando Álvares Penteado) junto com as amigas e atuais sócias. A ideia deu certo, apesar de muitos ainda torcerem o nariz para o comércio de roupas usadas. O investimento inicial de R$ 250 mil foi mais do que suficiente para impulsionar o negócio. Além da compra e venda de peças de segunda mão, o cliente pode trocá-las.

 

"Desde que abrimos, não colocamos mais nenhum dinheiro", avisa Samantha, responsável pelas finanças do empreendimento. "Essa é uma façanha, pois pequenas empresas geralmente precisam de 18 a 24 meses para equilibrar seu caixa." A aceitação foi tão boa que as sócias comemoram o lucro, que é reinvestido no negócio.

 

A expansão da loja - elas não gostam de usar a expressão brechó - é evidente. Quando foi inaugurada, no segundo semestre de 2009, começaram a comercializar cerca de 1.200 peças. Atualmente, são mais de 3 mil itens à disposição da freguesia. E o que é melhor: tem produtos para homens e mulheres, cujas frequências estão quase equilibradas. Neste mês, elas inauguram as vendas pela internet, para atender consumidores de outras cidades que queiram comprar, mas sem precisar vir a São Paulo.

 

O funcionamento do Super Cool Market é muito prático e sem burocracia. Depois de selecionar as peças mais bacanas e encalhadas do guarda-roupa - especialmente as de marca, por serem as mais valorizadas -, basta levá-las ao local para imediatamente serem avaliadas por uma das três sócias. Elas são antenadíssimas em moda. Carla, por exemplo, é apresentadora da Fashion TV e foi VJ da MTV.

 

TROCA OU VENDA

 

Não importa se são apenas três itens ou uma sacola lotada. Quem quer vender as roupas recebe 30% do valor estipulado para cada uma. Outra opção é ficar com 50% do valor avaliado para trocar por outras peças da loja. "A maioria troca, porque vem com o objetivo de renovar o guarda-roupa", afirma Daniela. Esse modelo de negócio segue o mesmo esquema da loja Buffalo Exchange, que existe há 35 anos em várias cidades dos Estados Unidos. Foi de lá que elas tiraram a ideia do Super Cool Market.

 

Há tempos, Daniela, Carla e Samantha desejavam abrir juntas um negócio, mas não sabiam o quê. Num belo dia de março do ano passado, estavam batendo perna pelas ruas de Nova York e viram uma fila gigantesca de gente carregando malas enormes. Foram ver o que era e, conversando com uma pessoa da Buffalo Exchange, descobriram que se tratava de um comércio diferenciado: as pessoas se desfaziam do que não usavam mais para ganhar um dinheirinho ou trocar por outras peças.

 

"A rede começou pequena, com brechós tradicionais, mas foi se adaptando aos novos tempos, justamente o que muitos não fizeram", explica Carla. Entusiasmadas com esse novo conceito, elas trouxeram esse modelo para o Brasil. Acrescentaram o enfoque social, já que fazem a ponte com instituições de caridade ou ONGs - devidamente cadastradas e visitadas - para doações das peças que não interessam para a loja.

 

"Como fazemos uma seleção rigorosa das peças, algumas acabam ficando de fora", diz Samantha. "Quando isso acontece, avisamos à pessoa que ela pode doar o que não foi escolhido", acrescenta. Desde julho até hoje, já foram doadas mais de 10 mil peças. A cada mês, uma entidade recebe as roupas e calçados. As sócias, aliás, continuam aceitando novas inscrições de interessados em se beneficiar desse serviço.

 

Além disso, a loja abriu um pequeno espaço para novos estilistas venderem suas criações. Daniela, Samantha e Carla também desenvolveram roupas com a marca Super Cool Market: só que, em vez de uma coleção, elas lançam um único modelo em série, com vários tamanhos, nas versões feminina e masculina. No inverno, confeccionaram camisas de flanela xadrez, que fizeram o maior sucesso. Ao preço de R$ 109,90 cada, venderam 270 unidades. Para o verão, lançaram a camisa estilo navy, por R$ 79,90 (veja foto ao lado).

 

A loja também adquiriu vertente cultural. São realizados cursos, como o de customização e de cool hunter (caçador de tendência). Este último acontece periodicamente e é ministrado pela sócia Daniela, que fez pós-graduação nessa área, em Barcelona. O próximo começa em março, tem cinco aulas e custa R$ 500,00. Neste ano, vão abrir o espaço também para outros eventos, como exposições.

 

 

Regras do jogo

 

Para quem está pensando em separar algumas peças encalhadas do guarda-roupa e levá-las à loja, atenção para algumas exigências. Nem pensar em vender cuecas, calcinhas e meias usadas, como costuma ocorrer. Ficam de fora também roupas e acessórios vintage, de festa e social. As sócias dão preferência para modelos atuais, modernos e de grife, mas isso não significa que aquelas peças "sem pedigree" não têm chance de entrar nas araras. O importante é que estejam em perfeito estado e sem manchas. No quesito calçados, aposte em tênis de marca ou melissas. Para sentir o estilo da Super Cool Market, confira à esquerda alguns produtos de segunda mão que estão à venda.