Elas estão com tudo

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Mulher só pensa em homem? Errado. Uma leva feminina prefere viver sozinha a sacrificar a boa vida por um parceiro que não esteja à altura. São as que estão na fase de defender a liberdade com unhas e dentes, e nem um pouco dispostas a fazer concessões para ter um figurante do sexo masculino posando do seu lado. Bem-resolvidas e bem-sucedidas profissionalmente, são donas do próprio nariz, tal como a publicitária Simoni de Mendonça (foto de capa), de 39 anos: - Há um ano, curto a minha vida de solteira. Não quero nenhum relacionamento sério. Procuro diversão. Fico profundamente irritada com a rotina da vida a dois, não gosto dos compromissos, da obrigação de estar sempre junto, de dormir sempre com a mesma pessoa. É meu momento egoísta, de defender meu próprio espaço. Estou no auge da idade da mulher e fico feliz de poder viver isso intensamente. Nessa fase de puro deleite, Simoni sai com os amigos e amigas, vai dançar, circula em lugares badalados, freqüenta cinema, teatro, shows e viaja muito. Se dá na telha, não perde a chance de desfrutar um feriado prolongado em Buenos Aires ou Paris. Sozinha ou acompanhada, não interessa. Ela pega as malas e cai na estrada. Entre os seus vários projetos de vida, apenas um não faz parte da sua lista: marido. ?A oferta de homem é grande, o problema é a qualidade. Para gostar de alguém, preciso admirar, o que não acontece com aqueles que me cortejam?, avisa a publicitária. ?Claro que posso me apaixonar um dia, me casar e ter filho, mas realmente o que quero agora é me divertir.? Simoni sabe que sua postura assusta os homens, mas não está nem aí. Foge de relacionamentos sérios, porém, não dispensa seus casinhos. E só. Como ela diz, o problema é que os homens acabam se apaixonando... Recentemente, disse ?não? a um pedido de casamento. ?Ao mesmo tempo em que intimido, acabo encantando. Fazer o quê??, brinca. SOLTEIRICE POR OPÇÃO - A arquiteta de interiores Cristina Bozian, de 37 anos, compartilha da mesma opinião da publicitária. E vai além, ao dizer que eles preferem as burras. ?Causamos angústia nos homens, pois eles se sentem inseguros diante de uma mulher segura, que tem cultura, afinal, lemos mais, nos interessamos por vários assuntos. Tenho amigas de mais de 40 anos que estão fazendo uma nova faculdade.? Dona de um escritório de renome, Cristina confessa que está apaixonada - por ela mesma. Como explica, o único relacionamento duradouro acontece quando a história de amor é com a própria pessoa. Na sua opinião, o outro deve vir para somar, não para completar a outra metade. Por isso, não acredita na lengalenga da ?metade da laranja?, ?tampa da panela?, etc. Acha o fim da picada quem depende de um homem, ainda mais emocionalmente. ?O importante é me sentir bem e eu estou disponível para ser feliz, não faço nada por obrigação?, avisa Cristina. ?Gosto dos imprevistos, de aparecer convite para três festas numa mesma noite e ir a todas elas, livre, leve e solta. O engraçado é que as pessoas se chocam ao saber que não tenho namorado, não botam fé que essa é a minha escolha.? A gerente de vendas Carla Mota, de 32 anos, se acostumou a levar na brincadeira as investidas masculinas. Ela até conhece gente interessante, mas diz que falta um ?algo mais?. Encontrar uma pessoa com quem tenha afinidade não é uma meta sua hoje. Ela diz que simplesmente não está à caça. Solteira há quase dois anos, prefere concentrar sua energia na profissão. ?Não é que não queira me casar um dia, mas agora não penso sequer em namorar?, explica. ?Agradeço por estar solteira nesta idade, sem filho para cuidar, sem ter de preparar jantar para o marido, enfim, sem ter essas preocupações. Busco independência total, por isso, trabalho bastante para me aperfeiçoar e comprar meu imóvel, porque ainda moro com meus pais.? ELAS ASSUSTAM - A liberdade feminina afasta os homens, na opinião de Mariana Godinho, de 25 anos. Formada em hotelaria, ela adora pegar a estrada. Já morou nos Estados Unidos e, quando esta reportagem chegar às bancas, estará trabalhando em um navio, que vai navegar pelos mares do Caribe durante oito meses. E que namorado agüentaria tanta ausência? ?Trabalho muito e o pouco tempo livre que tenho quero estar com meus amigos?, conta Mariana, que é também bartender. ?Minha mãe fala que o homem com quem vou me casar está vindo a pé do Alasca. Ou seja, dificilmente vai aparecer?, diz, entre risos. Nas fotos de família, feitas no fim do ano, Mariana conta que sua mãe sempre está acompanhada do namorado. O irmão, da namorada. Ela, por sua vez, sempre está com a mesma taça de champanhe na mão. É a sua companheira inseparável e nunca vai querer discutir relação! ?Não quero ficar com alguém que não tem nada a ver só para dizer que estou namorando?, avisa. ?Vivo bem com meus casinhos descompromissados.? A empresária Sandra Figueiredo, de 36 anos, decidiu assumir as rédeas de sua vida após 10 anos de dependência total do marido. Casou-se nova e engravidou cedo também. Apesar de ter um padrão de vida alto, virou a mesa e decidiu se separar. Na época, não tinha colegial completo. Mas fez um curso de decoração, começou a trabalhar e, quando deslanchava na profissão, casou-se novamente. O segundo casamento não durou muito e, mais uma vez, ela se viu correndo atrás do sustendo da filha. Aos poucos, foi fazendo um trabalho aqui, outro acolá, além de vários bicos. Comprou um apartamento pequeno, depois outro e outro... Hoje, a renda dos aluguéis ajuda bem nas despesas. Mas Sandra não parou por aí. Seu escritório de decoração vai bem. Em breve, vai lançar sua própria grife de moda feminina. ?Virei uma mulher segura, sei o que quero e corro atrás dos meus objetivos. Muito diferente do que fui no passado: uma menina mimada por meus pais e por meu marido?, lembra a empresária. ?Não esqueço a primeira vez que consegui comprar o meu primeiro carro no modelo que queria: um Audi A4. Sempre ganhei carro do meu marido. Imagine a minha satisfação de entrar na concessionária e pagar com meu próprio dinheiro!? As realizações pessoais não lhe trouxeram apenas benefícios. Sandra conta que afugenta os pretendentes. Percebe olhares de admiradores, mas eles não têm coragem de se aproximar dela. Para empresária, isso é até engraçado. E tem também seu lado bom: hoje ela tem mais tempo para investir na profissão. ?Homem atrapalha nessa fase. Para ficar comigo, precisa ter uma supercabeça para respeitar meu estilo de vida. Ele deve somar, e não criar problemas.? INSATISFAÇÃO MASCULINA - A reclamação usual de que faltam homens no mercado é uma meia verdade. Do lado deles, há muitos que reclamam da dificuldade de encontrar mulheres que queiram namorar sério. Bom partido, o produtor executivo Lorenzo Giunta, de 36 anos, não encontra ninguém para chamar de sua. ?A oferta é grande, mas as mais interessantes não querem se envolver?, resigna-se. ?Está ocorrendo uma inversão total de papéis.? Com exceção daqueles que gostam de farra, alguns de seus amigos também se ressentem do que Lorenzo acredita ser um novo movimento feminino. ?Elas fogem de compromisso e somem sem dar a menor satisfação. Sou uma pessoa que se apaixona, que curte namorar, meus relacionamentos sempre foram longos, mas as coisas se complicaram. Encontrar alguém está sendo uma loteria.? A resignação masculina dá sinais concretos. Uma entrevistada, que não quis se identificar, diz ter ouvido a seguinte confissão de um paquera: ?Uma mulher como você, que trabalha, tem sua casa e uma vida independente, precisa pensar duas vezes antes de colocar alguém dentro do seu lar. Só se ele valer muito a pena, porque a maioria só quer se encostar e ainda controlar a vida da mulher, tirando a sua liberdade.? Pelo menos, esse aí percebeu que não tinha chances. MUDANÇA NOS PAPÉIS Um fato importante da época atual é a liberdade de escolha, tanto para homens como para mulheres. Mas há particularidades consideráveis entre os gêneros, conforme observa a escritora e feminista por ideologia, Rosiska Darcy de Oliveira. Para ambos os sexos (muito mais para as mulheres), há possibilidades antes inimagináveis. ?O casamento era o objetivo social feminino, e era uma solução econômica, pois as mulheres dependiam financeiramente do marido?, fala. ?Com a emancipação, elas se tornaram suas próprias soluções: trabalham e não precisam mais de homem para serem sustentadas. Assim, a mulher ampliou significativamente seu poder de escolha e só se une a alguém por fortes razões pessoais.? Estar com alguém, para muitas, é válido só se o parceiro se adequar às suas expectativas. Na opinião de Rosiska, diante desse quadro, os homens acabam passando por uma peneira maior, uma vez que, para serem ?aprovados?, devem merecer a escolha e ter muito mais qualidades pessoais que outrora. Por não serem mais provedores do lar, essa vantagem que levavam desapareceu. Agora eles entram em campo com as mesmas condições de igualdade. O homem que sempre deteve o monopólio da liberdade, nesses novos tempos, se depara com a mulher defendendo seus interesses de forma feroz. ?Houve um grande progresso feminino, o que ajudou a quebrar paradigmas?, observa Rosiska. ?Sou fanática pela liberdade de escolha, que veio com o fim da dependência. Portanto, ser solteira hoje não é mais depreciativo como no passado.?