E deu quimono no Oscar

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Entre Versaces, Armanis e Balenciagas, um quimono. A 79ª festa do Oscar - que aconteceu no último dia 25, no Kodak Theatre , em Los Angeles -, teve o tapete vermelho ocupado pelas beldades de sempre, com a exuberância de sempre. Nicole Kidman despontou ao deixar os tons sóbrios de lado para desfilar num Balenciaga vermelhão, munido de um imenso laço no pescoço. Cate Blanchett, de Armani Privé, brilhou com um longo cinza luminoso. Toda drapeada por Zac Posen, Gwyneth Paltrow provocou controvérsia, assim como Penélope Cruz em seu volumoso Versace. No final das contas, a ousadia agradou. Mas o look mais instigante da noite ficou longe da modernidade. Uma atriz quase anônima, pouco acostumada a pisar no ?red carpet?, trocou os brilhos e tafetás pela tradicional vestimenta japonesa. Kaho Minami, mulher do ator Ken Watanabe (do filme ?Cartas de Iwo Jima?), compareceu à cerimônia mais pomposa do mundo usando um delicado quimono azul claro. E arrasou. ?Um roupão na festa do Oscar??, muita gente pode se perguntar. Não, um traje de luxo, exclusivo de celebrações especiais. A estranheza se justifica: por aqui, qualquer robe com desenhos orientais já é chamado de quimono. Entretanto, no Japão, o termo se refere a uma peça sofisticadíssima, feita artesanalmente. Algumas levam até um ano para sair do ateliê. Arte no pano Num corte de tecido - geralmente seda - com mais de sete metros de comprimento, o artesão faz tingimentos (utilizando uma técnica especial chamada ?shibori?), desenhos e bordados, tudo à mão. Com recortes precisos, dobraduras e entrelaçamentos, dá a forma do quimono, que, ao contrário dos vestidos convencionais, não cai como uma luva no corpo de sua dona. Ela precisa de conhecimentos prévios ou ajuda especializada para se vestir sem fazer feio. A barra é ajustada com uma dobra na cintura, coberta pelo obi, o ?cinto? do traje. Esta faixa de tecido bordado envolve o quimono com amarrações específicas, que podem aparecer na frente ou atrás. O bom caimento da peça ainda inclui uma sobra de tecido na nuca, indispensável para garantir o charme e o refinamento do look. Vale ressaltar que o estilo, as cores e os desenhos do quimono e do obi marcam a posição social de quem os usa, variando também de acordo com o sexo, a idade e o estado civil. Origem A vestimenta tradicional nipônica surgiu na Era Heian (794-1185), quando ganhou os contornos que prevalecem até hoje. Na época, ela tinha várias camadas e, quanto mais numerosas, maior era o degrau social de quem as vestia. A família imperial, por exemplo, usava de 12 a 16 camadas. Com o passar dos anos, o quimono perdeu esse ?recheio?, ficou mais ?sequinho?, mas manteve a pompa. Surgiram modelos leves, feitos de algodão, chamados de ?yukata? e utilizados durante as festividades de verão. No entanto, o traje tradicional sobreviveu à modernização do país e até hoje é um símbolo de elegância por lá. Atualmente, mesmo entre o povo mais fashionista do planeta, que não se intimida em usar plataformas gigantescas e cabelos azuis com casacos de pele, os milenares ?roupões? de seda ainda são vistos. Eles aparecem sempre em ocasiões especiais, como eventos de gala, casamentos, a celebração do ano-novo - quando milhares de japonesas visitam os templos em looks esmerados - e a festa das meninas, que comemora a maioridade das nipônicas (19 anos). Todas as aniversariantes do arquipélago vão às ruas trajando os mais lindos quimonos e são homenageadas em eventos coletivos.