Diploma assinado por ''Cristo'' é vendido

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, SÃO PAULO - O Estado de S.Paulo

Mãe de ex-zelador processa Iurd por prejuízo de R$ 55 mil

O "diploma de dizimista" não deixa dúvidas: quem o assina é o "Sr. Jesus Cristo". Prova do estelionato de que supostamente foi vítima Edson Luiz de Melo, foi anexado ao processo contra a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). O diploma foi entregue pelos pastores da Iurd a Melo, de 45 anos, que era zelador no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) de Minas. Trata-se, segundo a promotoria, de mais um ardil para tirar dinheiro da vítima. Melo entregou à Iurd R$ 15 mil em dinheiro e vendeu por R$ 6 mil um terreno em Belo Horizonte avaliado em R$ 40 mil. Se não o fizesse, dizia o pastor que recebeu o dinheiro, o diabo provocaria Melo até que ele cometesse suicídio. Quem conta a história é a sua mãe, Dulce Conceição de Melo, de 65 anos. Ela teve de pedir a interdição civil do filho para impedir prejuízo maior. Em 1996, ele passou a frequentar a Iurd. Logo que se tornou fiel, passou a entregar 30% do R$ 1,2 mil que ganhava no Crea aos pastores. Melo se transformou "em pessoa fechada e radical" e dizia para a mãe e parentes que eles "estavam com o demônio no corpo". A partir de 1999, passou a entregar todo o salário à igreja e ir trabalhar à pé, pois não tinha dinheiro para o ônibus. "Ele entregava vale-transporte e vale-refeição", diz Dulce, que passou a sustentá-lo. A pressão que os pastores exerceriam teria feito Melo assinar cheques pré-datados - descontados em churrascarias, lojas de autopeças e postos de gasolina. Venderam a ele até um "diploma de dizimista", no qual uma citação bíblica justificava o ato: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro para que haja mantimento na minha casa." O documento tinha duas assinaturas: do "dizimista" e de "Jesus Cristo". O prejuízo de Melo com a Iurd - R$ 55 mil - foi cobrado pela mãe, que processou a igreja. "O martírio do meu filho já dura 13 anos. Por causa da Universal ele chegou até a ser internado." Dulce ganhou a ação em primeira instância e aguarda julgamento do recurso.