Dinheiro da Igreja Universal vai para empresas de comunicação

Bruno Tavares e Marcelo Godoy - O Estado de S.Paulo

Justiça aceita denúncia do MP contra bispo Edir Macedo e 9 membros da Iurd acusados de lavagem de dinheiro

Oito empresas de comunicação, entre elas a Rádio e Televisão Record, estão entre as dez principais beneficiárias de transferências eletrônicas (TEDs) oriundas da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). É o que aponta o relatório de inteligência financeira 441 do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O documento de 2008 é uma das provas do Ministério Público Estadual (MPE) na denúncia feita à Justiça contra o bispo Edir Macedo, fundador e líder da Iurd, e outros nove integrantes da igreja acusados de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Desde anteontem, eles são réus em processo na 9ª Vara Criminal de São Paulo. No relatório do Coaf são analisadas movimentações atípicas por meio de TEDs ocorridas entre 2001 e 2003. A própria igreja aparece como a principal beneficiária das transferências em duas contas correntes. Uma delas está em nome de Jerônimo Alves Ferreira, um dos réus do caso, que foi diretor da Unimetro Investimentos. Em segundo lugar está a Record. Também são citadas a Edminas SA (3º lugar), a rede Mulher de Televisão (4º lugar) e a Editora Gráfica Universal (5º lugar) e Rede Família de Comunicação Ltda (6º lugar) - o Coaf listou 87 supostas beneficiadas por TEDs. Também analisou depósitos em dinheiro nas contas da Iurd de 2003 a 2008. Na denúncia, os promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) usaram ainda dados da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos acusados. O suposto esquema seria sustentado pelo dízimo pago pelos fiéis, um dinheiro não tributado, mas que deve ser aplicado em obras assistenciais. Os recursos recolhidos nos templos seriam transportados em jatinhos e depositados nas contas da Iurd. O dinheiro seria usado para pagar "despesas a empresas prestadoras de serviços controladas pelos acusados", entre elas, a Cremo Empreendimentos e Unimetro Empreendimentos. Ambas são acusadas de enviar o dinheiro ao exterior, que retornaria ao Brasil para ser investido pelos réus. Os promotores citam o caso da compra de um Cessna 525 Citation. O avião foi adquirido pela empresa Cremo Empreendimentos e repassada à Record por R$ 2,5 milhões. Esse dinheiro também teria sido usado na aquisição de empresas de comunicação, caso da TV Record do Rio. A emissora foi comprada em nome de seis integrantes da Iurd, que justificaram a origem dos valores utilizados na transação (US$ 20 milhões) com empréstimos das empresas Investholding e Cableinvest. Essas empresas, com sede em paraísos fiscais (Ilhas Cayman e Ilhas do Canal), recebiam a maior parte do montante repassado pela Iurd à Cremo Empreendimentos e à Unimetro. "Para justificar a origem do dinheiro utilizado na compra de empresas de comunicação, os denunciados simulavam empréstimos de mútuo das empresas Investholding a Cableinvest", diz a denúncia. Dados da Junta Comercial de SP indicam que as empresas são representadas no Brasil por dois executivos da Iurd - Alba Maria da Costa e Osvaldo Sciorilli. "Investiholding e Cableinvest são sócias da Unimetro que, por sua vez, é acionista da Cremo", diz a denúncia dos promotores. SUPOSTA LIGAÇÃO O relatório do Coaf analisa ainda a suposta ligação das empresas com líderes da igreja. Além de Macedo, são citados três integrantes do Conselho Episcopal da Iurd - Honorílton Gonçalves da Costa, João Batista Ramos da Silva e Vandeval Lima dos Santos -, dois deputados federais - Antônio Bulhões (PMDB-SP) e Eduardo Lopes (PSB-RJ) - e 28 bispos. Desses, são réus só os bispos Honorílton e João Batista. Macedo teria amealhado, segundo estimativa do Coaf, um patrimônio pessoal de US$ 2 bilhões. Para o Gaeco, ele seria o "chefe da quadrilha" que desviaria dinheiro dos fiéis para projetos pessoais. O Coaf diz que em suas contas não havia movimentação atípica. A lista segue com Honorílton. Ele seria sócio, diretor ou acionista de 11 empresas e não teria automóveis nem operações imobiliárias em seu nome de 1996 a 2007. João Batista foi deputado federal. Em 2005, foi surpreendido pela Polícia Federal com R$ 10 milhões em dinheiro quando embarcava num avião em Brasília. Em seu nome haveria 11 empresas. O Coaf listou 13 empresas nas quais o bispo Vandeval, que também foi deputado federal, teria participação. O relatório esmiúça relações entre empresas e movimentações financeiras de 28 bispos da igreja que "seriam responsáveis pelas decisões colegiadas da Iurd". A maior parte tem domicílio fiscal em São Paulo e "apresenta o mesmo endereço", diz o Coaf. Entre os bispos estão 2 deputados federais da bancada da Iurd - 6 da atual legislatura. Eduardo Lopes tem duas empresas em seu nome. Antônio Bulhões aparece ligado a 14 empresas, a maioria de comunicação, mas não registrou movimentação financeira.