Delícias do casamento

- O Estado de S.Paulo

Nada deixava prever tal desenlace. Um belo dia, um solteirão disputado na cidade, empedernido adepto da volubilidade, chamou para jantar seu melhor amigo e companheiro de folguedos. Após as brincadeiras de praxe sobre mulheres que atravessaram suas vidas, no fim do segundo uísque, mudou a voz e, solene, anunciou que acabara de se casar, e esperava que fosse para a vida toda.

 

O amigo riu da piada e perguntou quem era a vítima da vez. Enumerou uns cinco nomes e, enquanto ia rindo, não percebia o rosto transfigurado de irritação do recém casado, que, baixando a cabeça, murmurou: Quero respeito.

 

Só então o amigo surpreendeu, assustado, uma expressão que não conhecia e que fazia esse senhor, que nunca passara de um rapaz, solteiro parecer um homem mais velho, paradoxalmente iluminado por uma fulgurante juventude. Bonito sempre fora, o que ajudara sua carreira de sedutor, mas esta noite a beleza ganhara uma esplêndida maturidade. Incrédulo, insistiu no nome da vítima.

 

Mais uma palavra e eu me levanto, subia o tom. Se quiser apresento-lhe a minha mulher que não é vítima de nada.

 

Como ousava esse sujeito com quem partilhara uma vida inteira pretender que ele não conhecia alguém tão importante que merecesse o pomposo título de "minha mulher"? Começou a ter medo desse presente que invadia o passado, que o deixava lá, estacionado há um mês, quando tinham se visto pela última vez. Ficou olhando esse desconhecido cada vez mais longínquo.

 

Casei-me com uma mulher que conheci há pouco tempo e que aceitou o pedido que lhe fiz de viver comigo. E sou muito feliz com ela.

 

Desfilaram, a partir daí, as suspeitas de praxe. Uma garotinha aventureira de olho no bom dinheiro do velho, um começo de Alzheimer, um cochilo, ataque de burrice de um enrabichado por um corpinho qualquer. Ou, coitado, o medo da solidão... mas como, nesse homem cercado de meio mundo, admirado por muitos, desejado por todas? Que solidão é essa, diabos!

 

Vieram os conselhos de sempre, cuidado, veja com quem se meteu, você é um homem público, não se exponha ao ridículo, na sua idade ninguém pensa mais em casar, no máximo em curtir as amantes eventuais que nunca lhe faltaram.

 

Um devastador olhar de tédio e desprezo e a conta pedida ao garçom acabaram por dar a medida da gravidade da situação. O homem ia embora, melhor mudar de estratégia. Resolveu mostrar-se interessado.

 

Mas o que você encontrou nesse casamento que a vida de solteiro não lhe dava?

 

Um olhar onde boiava um meio sorriso acompanhou as frases curtas: dormir de mão dada, durmo de mão dada com ela. Acordar e gostar de vê-la dormindo ao meu lado. Fazer um café - eu mesmo faço - e levar para ela na cama, faço ovos também, tomamos café na cama e nos amamos ferozmente. É bom, eu gosto.

 

Impossível imaginar seu herói garanhão servindo café na cama para uma... "Uma garotinha mimada?"

 

Minha mulher tem a minha idade e até hoje só foi mimada por mim. Trabalha o dia inteiro enquanto eu preparo um bom jantar para quando ela chegar. É bom, eu gosto.

 

Golpe fatal, uma mulher de mais de sessenta anos. Uma senhora. Um abismo se abriu sob os pés do amigo traído.

 

Conversamos muito, vivemos no presente e no futuro, afinamos nossos sonhos, fazemos projetos, e são tantos, mas tantos, que vamos precisar do resto da vida para realizá-los todos. Temos pressa, porque nessa idade a vida não espera.

 

Um amor de outono? O amigo tentava uma abordagem respeitosa.

 

Verão ardente, meu caro, escaldante, um amor solar, o mais luminoso que tive na vida. Falava sem nenhuma esperança de convencer e, aliás, pouco lhe importava, enquanto um aperto no coração do outro lembrava a inveja e o despeito.

 

É verdade essa história de dormir de mãos dadas? Não veio resposta, veio a conta. Hora de comprar um vinho.

 

Quando você achar conveniente me dê a honra de conhecer sua mulher, rendeu-se, enfim, um homem vencido pelo inusitado de que a vida é capaz.

 

* Rosiska Darcy de Oliveira é escritora, rosiska.darcy@uol.com.br